Por motivos de segurança, utilizamos nomes fictícios para proteger a identidade das nossas entrevistadas.
Por Maria Santana Souza - Portal Mulher Amazônica - Manaus, Amazonas.
Atrás dos números alarmantes de violência doméstica no interior do Amazonas, existem rostos, nomes e histórias de superação. Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, o Portal Mulher Amazônica traz relatos reais de mulheres que, graças à união entre a solidariedade das vizinhas e o uso da tecnologia, conseguiram romper o ciclo de abusos mesmo vivendo a dias de viagem de uma delegacia.
Por motivos de segurança, utilizamos nomes fictícios para proteger a identidade das nossas entrevistadas.
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O Escudo da Vizinhança: "Se não fossem as mulheres da comunidade, eu não estaria viva"Maria, de 34 anos, é agricultora e mãe de três filhos. Ela vive em uma comunidade ribeirinha a 14 horas de barco da sede do município de Coari. Durante anos, ela sofreu violência física e psicológica do ex-companheiro, que controlava o único barco da família e escondia a gasolina para que ela não pudesse fugir.
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"A violência só aumentava. Teve uma noite em que ele pegou um terçado. Eu consegui correr para o meio do mato com as crianças. Fui para a casa da dona Raimunda, que é a agente de saúde daqui. Ela e as outras vizinhas me esconderam no porão da casa dela. O meu ex rodou a comunidade toda procurando, mas ninguém falou onde eu estava. As mulheres fizeram um cordão de isolamento. No dia seguinte, elas fizeram uma cotização, compraram o combustível e me colocaram no barco de linha para a cidade. Se não fossem as mulheres da comunidade, eu não estaria viva para contar isso."
A Tecnologia que Rompe Fronteiras: "Denunciei pelo WhatsApp debaixo do mosquiteiro"
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Francinete, de 26 anos, vive em uma comunidade indígena de difícil acesso no município de São Gabriel da Cachoeira. Sem estradas terrestres e com transporte fluvial escasso, o smartphone foi a sua única arma contra as agressões do parceiro.

"Ele quebrou o rádio comunitário para a gente não falar com a cidade. Mas a escola da comunidade tinha recebido uma antena de internet via satélite semanas antes, e o sinal pegava fraco perto da minha casa. Uma noite, depois que ele dormiu bêbado, eu me escondi debaixo do mosquiteiro e usei o celular. Eu não podia falar para ele não acordar. Entrei no site da Polícia Civil, fiz o Boletim de Ocorrência online e mandei mensagem para o canal do WhatsApp de apoio à mulher. Anexei as fotos dos meus roxos. Em menos de 48 horas, a lancha da polícia chegou na comunidade para afastar ele. Eu não precisei gastar um centavo com gasolina de motor para ter socorro."
O Processo Virtual: "Fiz a audiência com o juiz olhando para a tela do celular"

Raimunda, de 42 anos, moradora de uma área de várzea em Careiro da Várzea, relata como a modernização da Lei Maria da Penha evitou que ela abandonasse o sustento de sua família para buscar justiça.
"Conseguir a medida protetiva já foi uma vitória, mas eu morria de medo de ter que ir até Manaus para as audiências. Eu não tinha com quem deixar meus filhos e nem dinheiro para a passagem de barco e o mototáxi. A assistente social do município me explicou que eu podia fazer tudo pelo celular. O juiz e o promotor participaram de uma sala virtual de vídeo. Eu fiz a audiência sentada na cozinha da minha casa, olhando para a tela do celular. O juiz confirmou a punição dele e renovou minha proteção ali mesmo. A justiça finalmente entendeu que o nosso deslocamento aqui é diferente do resto do Brasil."
A Nossa Posição

Fotos: Reprodução/Google
Essas histórias reais provam que a Lei Maria da Penha só se torna efetiva na Amazônia quando se adapta à nossa geografia. O Portal Mulher Amazônica segue firme na missão de dar visibilidade a essas vozes, mostrando que a floresta resiste e que nenhuma mulher está verdadeiramente sozinha, por mais distante que viva.
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Maria Sanatana Souza - Jornalista | Fundadora do Portal Mulher Amazônica | Especialista em Comunicação para Causas Sociais e Representatividade Feminina na Política
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