As condições eram tão degradantes que algumas mulheres morreram antes mesmo de serem julgadas.
A narrativa que envolve Salém costuma ser associada ao sobrenatural, às figuras folclóricas de bruxas e ao fascínio contemporâneo pelo terror. Porém, por trás do imaginário popular, a história real revela algo muito mais sombrio: um episódio de violência sistemática contra mulheres, sustentado por medo, superstição e, sobretudo, misoginia.
Ao analisar os arquivos originais da inquisição mais letal dos Estados Unidos, a jornalista Natalia Viana traz, no podcast Caça às Bruxas, da Agência Pública, uma investigação profunda sobre quem eram as mulheres acusadas, por que foram perseguidas e como a sociedade puritana criou o ambiente perfeito para transformar diferenças, vulnerabilidades e independência feminina em ameaças mortais.
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O contexto que alimentou o terror

Entre fevereiro de 1692 e maio de 1693, o vilarejo de Salem Village mergulhou em uma onda de histeria coletiva. A comunidade puritana vivia sob pressões intensas: conflitos territoriais, disputas políticas internas, disputas religiosas entre pastores e um recente ataque indígena que deixara centenas de colonos mortos.
Nesse ambiente tenso, mulheres e meninas que apresentavam convulsões, delírios, gritos e comportamentos incomuns passaram a ser interpretadas como vítimas de “artes demoníacas”. A explicação religiosa era mais conveniente do que admitir doenças psicológicas, neurológicas ou traumas — principalmente em uma sociedade que reprimia qualquer forma de expressão fora do rígido padrão moral.
Quem eram as mulheres acusadas

Ao contrário das narrativas romantizadas, a maioria das mulheres mortas não tinha ligação alguma com práticas esotéricas. A análise de Viana e de historiadores revela perfis que se repetem:
• Idosas e doentes, consideradas “fardos” sociais.
• Viúvas ou mulheres sem a tutela masculina — vistas como potencialmente perigosas por terem autonomia.
• Mulheres pobres, que dependiam da caridade pública e eram facilmente acusadas por conflitos banais.
• Indomáveis ou “difíceis de lidar”, que expressavam opinião, questionavam lideranças ou não se encaixavam no papel submisso esperado.
• Mulheres que possuíam bens, especialmente terras — a acusação de bruxaria era também uma forma de disputa patrimonial.
Esse padrão levou estudiosos a classificar o episódio como uma forma extrema de controle social sobre o corpo e a voz feminina. A morte dessas mulheres funcionava como advertência para todas as outras.
O processo cruel e as condições de prisão

Segundo os registros analisados pela equipe do podcast, as acusadas eram submetidas a:
• interrogatórios sem base legal, conduzidos sob pressão psicológica intensa;
• provas absurdas, como manchas no corpo interpretadas como “marcas do diabo”;
• delírios induzidos pela tortura psicológica das meninas que diziam ver espectros;
• prisões insalubres, onde ficavam acorrentadas, muitas vezes junto a criminosos violentos, em porões úmidos e sem luz.
As condições eram tão degradantes que algumas mulheres morreram antes mesmo de serem julgadas.
O papel das crianças e a cultura do medo
O testemunho de meninas foi central. Elas eram influenciadas pela repressão sexual e religiosa e viviam sob extremo controle moral. Historiadores apontam que os surtos histéricos eram uma forma inconsciente de expressar angústias. As autoridades, ao interpretarem isso como obra demoníaca, transformaram o medo infantil em ferramenta de condenação.
Por que Salém pode ser entendido como feminicídio em massa

Embora a palavra “feminicídio” não existisse na época, o conceito — matar mulheres por serem mulheres — encaixa-se perfeitamente no fenômeno. Das 20 pessoas executadas, 14 eram mulheres, e mais de 80% dos acusados eram do sexo feminino.
O alvo não eram bruxas. O alvo eram mulheres que fugiam da norma, mulheres que viviam às margens, mulheres que representavam, de algum modo, ameaça à hierarquia patriarcal. Salém foi apenas um fragmento de um movimento global: estima-se que, entre os séculos XV e XVIII, a caça às bruxas matou entre 40 mil e 60 mil mulheres na Europa. Todas acusadas de pactos demoníacos, quando na verdade eram vítimas de um sistema que transformava medo em violência.
A herança da misoginia
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Fotos: Reprodução/Google
A historiografia contemporânea vê o caso como alerta para compreender como sociedades podem legitimar perseguições contra mulheres usando justificativas morais, religiosas ou pseudocientíficas. A narrativa de que a mulher é perigosa quando pensa, questiona ou age fora do esperado ainda ecoa — desde a violência doméstica até perseguições políticas contra lideranças femininas.
Fontes: Agência Pública; registros dos julgamentos de 1692; Massachusetts Historical Society; estudos de Mary Beth Norton e Carol F. Karlsen sobre gênero e caça às bruxas.
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