30 de Abril de 2026

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Especial Mulher - 11/12/2025

Inquisição de Salém foi feminicídio em massa: o que a caça às bruxas dos EUA revela sobre a misoginia estruturante

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Foto: Reprodução/Google

As condições eram tão degradantes que algumas mulheres morreram antes mesmo de serem julgadas.

A narrativa que envolve Salém costuma ser associada ao sobrenatural, às figuras folclóricas de bruxas e ao fascínio contemporâneo pelo terror. Porém, por trás do imaginário popular, a história real revela algo muito mais sombrio: um episódio de violência sistemática contra mulheres, sustentado por medo, superstição e, sobretudo, misoginia.

 

Ao analisar os arquivos originais da inquisição mais letal dos Estados Unidos, a jornalista Natalia Viana traz, no podcast Caça às Bruxas, da Agência Pública, uma investigação profunda sobre quem eram as mulheres acusadas, por que foram perseguidas e como a sociedade puritana criou o ambiente perfeito para transformar diferenças, vulnerabilidades e independência feminina em ameaças mortais.

 

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O contexto que alimentou o terror

 

 

 

Entre fevereiro de 1692 e maio de 1693, o vilarejo de Salem Village mergulhou em uma onda de histeria coletiva. A comunidade puritana vivia sob pressões intensas: conflitos territoriais, disputas políticas internas, disputas religiosas entre pastores e um recente ataque indígena que deixara centenas de colonos mortos.

 

Nesse ambiente tenso, mulheres e meninas que apresentavam convulsões, delírios, gritos e comportamentos incomuns passaram a ser interpretadas como vítimas de “artes demoníacas”. A explicação religiosa era mais conveniente do que admitir doenças psicológicas, neurológicas ou traumas — principalmente em uma sociedade que reprimia qualquer forma de expressão fora do rígido padrão moral.

 

Quem eram as mulheres acusadas

 

 

 


Ao contrário das narrativas romantizadas, a maioria das mulheres mortas não tinha ligação alguma com práticas esotéricas. A análise de Viana e de historiadores revela perfis que se repetem:

 

• Idosas e doentes, consideradas “fardos” sociais.


• Viúvas ou mulheres sem a tutela masculina — vistas como potencialmente perigosas por terem autonomia.


• Mulheres pobres, que dependiam da caridade pública e eram facilmente acusadas por conflitos banais.


• Indomáveis ou “difíceis de lidar”, que expressavam opinião, questionavam lideranças ou não se encaixavam no papel submisso esperado.


• Mulheres que possuíam bens, especialmente terras — a acusação de bruxaria era também uma forma de disputa patrimonial.

 

Esse padrão levou estudiosos a classificar o episódio como uma forma extrema de controle social sobre o corpo e a voz feminina. A morte dessas mulheres funcionava como advertência para todas as outras.

 

O processo cruel e as condições de prisão

 

 

 

Segundo os registros analisados pela equipe do podcast, as acusadas eram submetidas a:


• interrogatórios sem base legal, conduzidos sob pressão psicológica intensa;


• provas absurdas, como manchas no corpo interpretadas como “marcas do diabo”;


• delírios induzidos pela tortura psicológica das meninas que diziam ver espectros;


• prisões insalubres, onde ficavam acorrentadas, muitas vezes junto a criminosos violentos, em porões úmidos e sem luz.

 

As condições eram tão degradantes que algumas mulheres morreram antes mesmo de serem julgadas.

 

O papel das crianças e a cultura do medo

 

 

O testemunho de meninas foi central. Elas eram influenciadas pela repressão sexual e religiosa e viviam sob extremo controle moral. Historiadores apontam que os surtos histéricos eram uma forma inconsciente de expressar angústias. As autoridades, ao interpretarem isso como obra demoníaca, transformaram o medo infantil em ferramenta de condenação.

 

Por que Salém pode ser entendido como feminicídio em massa

 

 

 

Embora a palavra “feminicídio” não existisse na época, o conceito — matar mulheres por serem mulheres — encaixa-se perfeitamente no fenômeno. Das 20 pessoas executadas, 14 eram mulheres, e mais de 80% dos acusados eram do sexo feminino.

 

O alvo não eram bruxas. O alvo eram mulheres que fugiam da norma, mulheres que viviam às margens, mulheres que representavam, de algum modo, ameaça à hierarquia patriarcal. Salém foi apenas um fragmento de um movimento global: estima-se que, entre os séculos XV e XVIII, a caça às bruxas matou entre 40 mil e 60 mil mulheres na Europa. Todas acusadas de pactos demoníacos, quando na verdade eram vítimas de um sistema que transformava medo em violência.

 

A herança da misoginia

 

 Fotos: Reprodução/Google

 

A historiografia contemporânea vê o caso como alerta para compreender como sociedades podem legitimar perseguições contra mulheres usando justificativas morais, religiosas ou pseudocientíficas. A narrativa de que a mulher é perigosa quando pensa, questiona ou age fora do esperado ainda ecoa — desde a violência doméstica até perseguições políticas contra lideranças femininas.

 
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Fontes: Agência Pública; registros dos julgamentos de 1692; Massachusetts Historical Society; estudos de Mary Beth Norton e Carol F. Karlsen sobre gênero e caça às bruxas.
 

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