As Haenyeo não são apenas símbolos de coragem e sabedoria tradicional
Nas águas geladas que cercam a Ilha de Jeju, na Coreia do Sul, um grupo de mulheres desafia o tempo, as correntes marítimas e os próprios limites do corpo humano. Conhecidas como Haenyeo, ou “mulheres do mar”, essas mergulhadoras tradicionais, muitas delas com mais de 70 anos, são patrimônio cultural da humanidade e agora também objeto de estudos científicos por uma razão impressionante: carregam uma mutação genética rara que pode contribuir para a medicina moderna.
Uma tradição de resistência e autonomia
A tradição das Haenyeo remonta há mais de mil anos e é passada de geração em geração. Sem o uso de cilindros de oxigênio, elas mergulham a profundidades de até 20 metros, ficando submersas por mais de dois minutos, para coletar frutos do mar como ouriços, polvos, algas e abalones.
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Além da habilidade e resistência física, a prática envolve profundo conhecimento dos ciclos da maré, ecossistemas marinhos e técnicas de respiração — herança de uma cultura matriarcal que, por séculos, colocou as mulheres como provedoras em comunidades pesqueiras da Ilha de Jeju.
Vantagem genética rara
Pesquisadores coreanos e internacionais vêm estudando o organismo dessas mergulhadoras e descobriram algo notável: as Haenyeo desenvolveram adaptações genéticas que favorecem a regulação do oxigênio no corpo. Essas alterações incluem a capacidade de reduzir o consumo de oxigênio durante o mergulho e manter uma circulação sanguínea eficiente em condições de hipóxia (baixo teor de oxigênio).
Essa vantagem biológica — semelhante à de populações que vivem em grandes altitudes — pode contribuir com pesquisas sobre doenças cardiovasculares, pulmonares e neurológicas, onde a deficiência de oxigênio compromete os tecidos do corpo.
Um patrimônio ameaçado

Fotos: Reprodução/Google
Apesar de sua força e legado, o número de Haenyeo tem diminuído drasticamente. Estima-se que atualmente restem pouco mais de 3 mil mulheres ativas, em sua maioria idosas. A juventude, atraída por empregos urbanos e preocupada com as dificuldades da vida no mar, tem pouco interesse em continuar a tradição.
A Unesco reconheceu as Haenyeo como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2016, o que tem ajudado a manter viva sua história, com iniciativas de valorização cultural e inclusão em currículos escolares.
Um legado para o mundo
As Haenyeo não são apenas símbolos de coragem e sabedoria tradicional. São também protagonistas de um legado genético e científico que pode contribuir com a saúde global. Elas nos ensinam que conhecimento ancestral, cultura e ciência caminham lado a lado — e que ouvir as vozes femininas do passado pode ser a chave para soluções do futuro.
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