07 de Maio de 2026

NOTÍCIAS
Violência contra Mulher - 07/07/2024

FEMINICÍDIO E IMPRENSA: histórias de morte morrida ou matada?

Compartilhar:
Foto: Reprodução/Google

Em livro inédito, pesquisadoras e jornalistas analisam como a imprensa perpetua a violência contra mulher enquanto deveria informar com ética e responsabilidade

A imprensa tem um papel fundamental para ampliar e aprofundar o debate sobre um tema extremamente importante: a violência contra a mulher. A mídia tem o poder de influenciar crenças e comportamentos. Diante disso, Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, realizaram pesquisas sobre como a imprensa narra os casos de feminicídio em todos os veículos de comunicação.

 

Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues são jornalistas, feministas e atuaram com assessorias de imprensa, produção de conteúdo para veículos de mídia e redes sociais. Durante três anos, dedicaram-se à pesquisa sobre feminicídio e imprensa. Com isso, escreveram o livro ‘Histórias de morte matada contadas feito morte morrida’ (2021).

 

Na obra, relatam como a imprensa pode perpetuar e colaborar com a incidência de crimes motivados por gênero. Em entrevista ao Dicas de Mulher, as autoras dão detalhes sobre o livro e como essa pesquisa pode impactar a sociedade positivamente e incentivar as pessoas a refletirem sobre o assunto. Confira!

 

Veja também 

 

Homem mata esposa na frente dos filhos e usa redes sociais dela para falar sobre crime

Entenda por que câmeras de segurança foram fundamentais para a prisão do homem que inventou desaparecimento de namorada

Histórias de morte matada contadas feito morte morrida

 

 

Lançado em dezembro de 2021, pela editora Drops, o livro possui 320 páginas escritas por Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, com o intuito de demonstrar como a imprensa narra os assassinatos de mulheres motivados por gênero e como as vítimas são responsabilizadas.

 

As jornalistas contam que o projeto surgiu a partir da comunidade virtual “Não foi ciúme” (NFC). Desde 2015, feministas e jornalistas que faziam parte dessa comunidade, analisaram a narrativa de crimes de gênero, principalmente de sites e portais de notícias.“Era um trabalho que já fazíamos, analisando criticamente e sugerindo, principalmente, refraseios de títulos. A ideia do livro, propriamente, surgiu no final de 2020, já na reclusão por causa da pandemia de Covid-19. Nós percebemos que o problema persistia, apesar de tudo que já tínhamos feito na NFC”, conta Vanessa.

 

Levantamento dos dados

 

 

Para estruturar e desenvolver o livro, as autoras levantaram informações dos últimos 40 anos. “Após a campanha ‘Quem ama não mata’ e o caso de enorme repercussão midiática da Angela Diniz, assassinada por Doca Street, justamente para capturar impactos e por estarmos atualmente num período também de campanha do movimento feminista contra o feminicídio (‘Nem pense em me matar’)”, informaram.

 

Niara conta que as pesquisas foram focadas na imprensa escrita, impressa e virtual, e relembra o caso de grande repercussão em que Lindemberg Alves Fernandes, mata a ex-namorada Eloá Pimentel. O crime foi cometido em 2008 após mais de 100 horas de sequestro, acompanhadas ao vivo pelas câmeras de TV..

 

“Listamos os casos mais famosos e quais deles analisaríamos, porque precisávamos comparar com os casos de menor repercussão. Ter muito material atual, era também muito importante para verificar padrão, forma, termos e tons”, completa Vanessa.

 

 

Como a imprensa aborda casos de feminicídio?A mídia, muitas vezes, retrata a violência contra a mulher de forma sensacionalista, reforça estereótipos e culpabiliza a vítima apontando justificativas para o crime. Frequentemente, são empregados termos como ‘motivação do crime’, ‘ciúmes’ e ‘crime passional’.

 

Além do mais, as notícias abordam casos de feminicídios parcialmente e, normalmente, apresenta o crime como descontrole emocional do feminicida, devido ao uso de drogas e bebidas. Segundo Niara, a imprensa usa mais do que termos e tons, e ainda redige feminicídios pelo viés do crime passional, mesmo que essa hipótese já tenha sido descartada judicialmente.

 

 

“É como se existisse um manual nunca publicado que inverte, inclusive, o que aprendemos na faculdade sobre a narrativa de notícias, a linguagem direta, simples e objetiva, observando o modelo da pirâmide invertida”, aponta.Para Vanessa, “a narrativa de feminicídios é, portanto, quase que a negação do próprio jornalismo, além da maneira desrespeitosa que corresponsabiliza a vítima e poupa feminicidas”. Há casos em que a mídia busca fotos das mulheres nas redes sociais, que julgam como sensuais e provocantes, para responsabilizá-las de alguma forma.

 

As jornalistas acreditam que a imprensa reproduz a crítica de misoginia estrutural, por esse motivo, emprega determinados termos e tons para relatar o feminicídio. Para elas, é bem provável que essa postura seja intencional, pois o modelo sempre se repete. “Não é humanamente admissível que seja uma escolha consciente, sabendo dos danos causados, embora seja sempre uma escolha”, diz Niara.

 

A narrativa passional e romantizada do crime

 

 

Conforme análise das jornalistas, os feminicídios, geralmente, são narrados na voz passiva e os termos ‘mulher é morta’ e ‘mulher é encontrada morta’ são repetidos exaustivamente. “A voz passiva tem a função de reduzir a responsabilidade do autor da ação, e no caso do feminicídio e demais crimes de gênero, corresponsabiliza a vítima”, explicam as jornalistas..

 

Para Niara, essa “corresponsabilização é buscada por uma motivação que justifique a narrativa passional e romântica do crime, tanto em detalhes do comportamento da vítima quanto em imagens, induzindo ao julgamento da vítima”.

 

O feminicídio no Brasil tem cor e classe social

 

 

 

O Brasil é o 5º país com mais casos de feminicídio no mundo e, esse ano, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, levantou dados que apontaram que as mulheres negras representam 62% das vítimas no país. Já nos casos de mulheres indígenas, não há dados específicos, elas entram para as estatísticas de mulheres não brancas.

 

Conforme relata Niara, a forma que a imprensa retrata o feminicídio quando se trata de raça e classe social, muda a começar pela cobertura. “O rosto do feminicídio no Brasil é de uma mulher negra, pobre e periférica, enquanto na imprensa, o rosto do feminicídio ainda é de uma mulher branca de classe média”.

 

Ela destaca que “o registro no corpo da matéria desses recortes de raça, classe, moradia, além de mais detalhes sobre a vítima, sua história, quem é ela, sua rotina, filhos, amigos e profissão. Quando se busca mais informações sobre a vítima é na tentativa de compor a narrativa da passionalidade inexistente do crime”.

 

A responsabilidade social da imprensa

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

O papel da mídia é informar sobre o feminicídio com responsabilidade ética e social, sem culpar a vítima. Mais do que noticiar, é importante contextualizar a violência contra a mulher para combater a naturalização da desigualdade entre os gêneros.Segundo Vanessa, quando a imprensa retrata o caso de forma humanizada, que acolhe a vítima e trata o feminicídio como crime hediondo, a sociedade costuma reagir compassivamente. “Se a imprensa retrata a mulher como coisa, como descartável, é assim que ela será vista e entendida”.

 

Para Niara, isso impacta na “conscientização e na produção de políticas públicas de prevenção à violência contra a mulher, além de dar visibilidade aos órfãos – em média dois a cada feminicídio – que ficam completamente desassistidos e brutalmente traumatizados”.

 

Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no FacebookTwitter e no Instagram

Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.
 

As autoras acreditam que o livro pode gerar impactos positivos e estimular as pessoas a refletirem sobre o assunto. “Esse é o nosso objetivo, que a imprensa e estudantes de jornalismo atentem para essa fórmula repetida e errada em narrar feminicídios, e a sociedade passe, não apenas a perceber nesse crime como ele é, um crime de ódio (misoginia), como leiam as notícias criticamente”. 

 

Fonte: com informações do Portal M de Mulher

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.