Com postes instalados pelo projeto Biolume, moradores da comunidade Beira-Rio ganham acesso à iluminação e a novas possibilidades de comunicação, estudo e conservação de alimentos, superando escuridão e improvisos
Imagina que você está apenas a uma viagem de barco de distância de onde, em breve, será a maior conferência global do clima. Saber que, a pouca distância, lideranças de todos os continentes estarão reunidas para pensar em como reduzir a emissão de gases de efeito estufa, como pensar em políticas públicas para adaptar as cidades para as mudanças climáticas. Ali, vão falar siglas pouco usuais e discutir números de financiamento em uma escala que nem cabe na noção da realidade de muita gente. Enquanto isso, você está sofrendo com o calor amazônico e precisa ainda recorrer a lamparina, a querosene, para garantir alguma luz de noite - porque o acesso perene à energia elétrica ainda não chegou à sua comunidade.
Até pouco tempo, essa era a rotina de Elaine Regina, toda vez que a energia falhava. Ela é moradora da comunidade Beira-Rio há 22 anos, onde até hoje o “linhão” não chegou [rede de interligação de energia elétrica vinculada ao sistema de abastecimento nacional. Na ausência de intervenção pública, os próprios moradores improvisaram uma ligação no meio da floresta para “puxar” a energia, o que torna o fornecimento bastante instável.
Assim, quando havia quedas de energia, a rotina voltava a ser como de séculos passados, com o uso de lamparinas, além da impossibilidade de manter comunicação. “A gente ficava totalmente no escuro e sem poder falar com parentes ou vizinhos, porque o celular descarregava. Em situações de emergência era ainda pior, porque a gente não tinha como pedir ajuda”, contou. Ela explica que, sem eletricidade regular, também não era possível conservar alimentos ou manter água gelada. “A comida muitas vezes estragava e precisávamos salgar para conservar. Até o simples fato de fazer gelo se tornava impossível.”
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Agora, a realidade é outra. A comunidade passou a contar com postes solares confeccionados em tubos de PVC, que garantem luz onde antes havia escuridão. Esse é um dos lugares beneficiados pelo Biolume, projeto criado por estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA) que oferece energia solar acessível a comunidades ribeirinhas da Amazônia. A iniciativa, que alia inovação social e sustentabilidade, trouxe soluções para o cotidiano de centenas de famílias.
“Esse projeto mudou muito a minha vida. Desde o começo da faculdade, eu queria usar o que aprendi para retribuir à sociedade, especialmente para quem mais precisa”, conta Ilan Lima, estudante de Engenharia Elétrica e vice-líder do projeto. “Quando comecei a estudar energia solar, percebi como ela é viável e pode ser uma alternativa real para lugares onde o ‘linhão’ não chega.”
A proposta aposta em soluções simples, de baixo custo e alto impacto. Em vez de depender de lamparinas a querosene ou geradores movidos a combustíveis fósseis, que são alternativas caras e poluentes, as comunidades passam a contar com esses postes de fácil instalação e manutenção. O poste é feito com tubo de PVC e adaptado conforme o terreno: em solo firme ou em áreas alagadas, como trapiches. Depois de instalado, pode durar entre 5 e 10 anos, dependendo da manutenção.

Os postes são soluções mais cômodas e acessíveis: não poluem o ar nem fazem barulho, e o custo é bem menor. Enquanto um morador pode gastar até R$ 20,00 por dia em combustível para abastecer o gerador, o investimento de um poste do Biolume é de R$ 850,00 a unidade, em pagamento único.
Comparado com um poste tradicional, a inovação também sai na frente. Seguindo tabela de preços de orçamentos de obras, um modelo comumente usado, custa mais de R$ 6 mil a unidade.

No momento, os postes do Biolume estão sendo usados apenas para a iluminação pública, mas a equipe já estuda outras formas de uso, como conectar pequenos equipamentos ou testar novas fontes de energia, como biocombustíveis.
Entendendo a tecnologia por trás da inovação

Os modelos atuais dos postes do Biolume usam painéis solares monocristalinos, que têm eficiência superior a outros tipos (entre 14% e 21%). A bateria escolhida tem autonomia de mais de três anos e dura o dobro do tempo de recarga. Ou seja, se ela ficar seis horas no sol, consegue manter a luz acesa por cerca de 12 horas.
Essas baterias são feitas de lítio, material conhecido por armazenar mais energia e ter longa vida útil. “Elas também são mais fáceis de reciclar do que as de chumbo. Quando termina a vida útil, enviamos para o Sul ou Sudeste, onde hoje é feita a reciclagem”, explica Ilan Lima, estudante de Engenharia Elétrica e vice-líder do projeto. “Mas acredito que, quando chegar a hora da primeira troca, já teremos algum ponto de reciclagem mais próximo daqui”, confia.
Outro destaque é que as luminárias têm sensores de presença, que reduzem o brilho pela metade quando não há pessoas por perto, economizando energia e aumentando a durabilidade. “A manutenção também é bem simples: basta passar um paninho na placa solar de vez em quando mesmo. Somente quando acabar a vida útil das baterias que realmente precisa chamar um profissional para fazer a troca", acrescenta o engenheiro.
Da beira do rio a atravessar o oceano e chegar a outro continente

Até setembro deste ano, 14 comunidades já foram contempladas. De acordo com Ilan, o plano é que o Biolume deixe de ser apenas um projeto universitário e se torne um negócio independente até 2027. O mapeamento das áreas beneficiadas é realizado por um setor do projeto voltado para identificar localidades sem energia ou com fornecimento precário. “Todas as comunidades que a gente atende passam antes por um mapeamento da região. Algumas nos procuram diretamente, outras chegam por meio de lideranças locais”, explicou Adriely Raiol, pós-graduanda em educação ambiental e sustentabilidade da UFPA e líder do projeto.
Ela destaca que as redes sociais também ajudam a aproximar o time de novos parceiros e comunidades. “Alguns líderes comunitários nos procuram pedindo apoio para a instalação dos postes. A partir daí vamos ampliando nossas pesquisas e identificando essas demandas. O Biolume oferece postes sustentáveis movidos a energia solar, que carregam durante o dia e funcionam de forma automática à noite, garantindo iluminação sem depender da rede convencional”, afirma.
O projeto é financiado por empresas interessadas em atuar dentro do mercado ESG, ou seja, com base em critérios Ambientais, Sociais e de Governança. “A gente apresenta nosso portfólio de comunidades e as empresas escolhem onde desejam atuar. A que está conosco hoje decidiu investir na comunidade de Berariú”, relata Adriely. Ela acrescentou que o Biolume completou um ano de funcionamento e só recentemente alcançou o modelo ideal. “No início, pensamos em instalar placas solares nos telhados das casas, mas vimos que, para garantir maior alcance, seria mais eficiente desenvolver a lâmpada atual, que já vem com uma pequena placa solar acoplada”, explica.
Um milhão de pessoas no escuro na Amazônia

O que os moradores da Beira-Rio vivem é compartilhado por quase um milhão de pessoas na Amazônia, de acordo com um estudo feito pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), em 2020. “Basicamente, são pessoas que vivem e preservam a floresta. Há gerações, nunca tiveram direito a essa política pública. A qualidade de vida, o bem-estar dessas pessoas, o desenvolvimento de atividade econômica, geração de renda, a qualidade de educação, tudo é limitado", aponta Vinícius Silva, líder de projetos do IEMA.
Ele exemplifica como a exclusão elétrica compromete direitos básicos e amplia desigualdades sociais e ambientais: escolas ficam sem iluminação noturna, ventilação ou climatização, obrigando alunos a estudar em salas quentes e abafadas, além de limitar a oferta de merenda fresca, já que sem freezers não é possível armazenar alimentos regionais, favorecendo ultraprocessados. Nos postos de saúde, a ausência de energia impede a conservação de vacinas e medicamentos, o funcionamento de equipamentos básicos e até atendimentos remotos pela internet. Sem eletricidade, também faltam serviços digitais, refrigeração para alimentos e água potável, já que o bombeamento depende de energia.
Vinícius acrescenta que esse tipo de soluções, usando energia fotovoltaico (proveniente do sol), é normalmente a mais viável em locais com acesso remoto, porque a energia é gerada no próprio lugar, não precisa de um sistema mais complexo que traz a eletricidade de uma hidrelétrica ou outra fonte.
Para o líder de projetos, a inclusão inclui uma educação de eficiência energética, em especial no caso de amazônidas que muitas vezes recebem sistemas individuais, como é o caso do Biolume, que não são integrados ao sistema interligado nacional. “É mais limitada ainda a quantidade de energia. Por isso, se for utilizar de uma forma ruim o sistema não vai dar conta de gerar energia para tudo que poderia utilizar. Então, a eficiência energética tem que vir junto da energia", conclui.

A professora Maria Emília de Lima Tostes, diretora do Centro de Excelência em Eficiência Energética da Amazônia (Ceamazon), reforça que a melhor forma de ter eficiência energética é deixar de consumir sem necessidade. “O primeiro combustível da transição energética é a eficiência. E a melhor forma de fazer isso é deixando de desperdiçar energia. Se todos agíssemos de forma mais eficiente no dia a dia, reduziria a necessidade de gerar energia e de ter um impacto ao meio ambiente", argumenta.
O Ceamazon surgiu por meio de uma parceria entre a UFPA e a Eletrobras e é composto por dez professores e um quadro técnico de engenheiros que desenvolvem pesquisas envolvendo mobilidade, conforto ambiental e até qualidade elétrica de edificações, dentre outros focos. “A Amazônia ainda é muito carente de investimentos, se comparado a outras regiões do país. Temos diferentes protótipos na Universidade, mas tem uma dificuldade de ganhar escala. O que precisamos é de políticas públicas nacionais para trazer mais qualidade de vida para a população, a partir da eficiência energética, especialmente nesse momento de crise climática", declara.
Eficiência e inclusão energética em pauta na COP30
Atravessando o rio e chegando até a sede urbana da capital, Belém, a esperança é que o tema da transição energética entre em pauta na COP30, no próximo mês. E, para a professora, é crucial aproveitar essa agenda também para discutir a eficiência energética. “Estamos em meio à floresta amazônica. É onde mais se deveria preocupar a inserir veículos eficientes e não poluentes, por exemplo. É uma questão de direitos humanos promover soluções mais sustentáveis e confortáveis à população daqui", defende.
O presidente da conferência, André Corrêa do Lago, tem incorporado o termo “transição climática” nas suas cartas - documentos estratégicos da presidência de cada Conferência das Partes (COP) para comunicar mensagens, objetivos e propostas para a negociação diplomática. “A transição para uma economia de baixo carbono e resiliente ao clima é agora um dos maiores motores de inovação e crescimento da história. [...] Tecnologia e inovação estão sendo aplicadas em tal escala que o custo da transição está caindo rapidamente tanto no Norte como no Sul", destaca a sétima carta, publicada em agosto.
O documento considera como transição climática não apenas a energia de baixo impacto mas também a agricultura regenerativa e cadeias de suprimentos circulares e soluções baseadas na natureza, dentre outras atividades. Ressalta ainda que “apenas a energia limpa trouxe mais de 2 trilhões de dólares em investimentos globais no último ano, tendo alcançado quase 35 milhões de empregos em 2023”.
Para a sociedade civil, o esforço do Brasil precisa ir além de citar a importância dessa transição, mas efetivamente assumir o protagonismo do debate. No dia 23 de setembro, mais de 50 organizações lançaram uma carta aberta ao governo federal cobrando que os planos de transição sejam atrelados às NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) e elaborados com ampla participação social, transparência e governança democrática. O documento ainda destaca a necessidade de metas ambiciosas para redução de emissões, substituição de combustíveis fósseis, democratização do acesso à energia, e salvaguardas socioambientais rigorosas (incluindo Consentimento Livre, Prévio e Informado). E também aponta contradições internas, como investimentos em petróleo e hidrelétricas, que, de acordo com o grupo, comprometem a credibilidade do Brasil. “Enquanto o Plano Nacional de Transição Energética anda a passos lentos, seguem pela contramão os anúncios do Ministério de Minas e Energia sobre iniciativas que carecem de respaldo de um planejamento estratégico do setor energético, com transparência e participação social", critica a carta.
Rumo à Enactus World Cup

Fotos: Filipe Bispo
Enquanto as discussões seguem a nível global, os jovens do Enactus tentam expandir sua atuação nos territórios. Desde 2024, o Biolume já alcançou 16 comunidades brasileiras e expandiu suas ações para países africanos, como Essuatíni e África do Sul. “Fazemos parte da Rede Enactus, que está presente no mundo todo, então acabamos fazendo contato com as equipes dos países africanos que se interessaram em replicar os nossos protótipos. Isso é bem legal, como é uma solução de baixo custo e baixa complexidade, dá para adaptar para diferentes realidades”, ressalta Ilan Lima.
No final de setembro, o esforço do time da UFPA foi reconhecido na Enactus World Cup, realizada na Tailândia, na qual a equipe ficou entre as 16 melhores do mundo e chegou às semifinais da competição. Para o integrante Jonas Borges, estudante de publicidade, a vaga foi conquistada pela soma de diferentes iniciativas desenvolvidas pelo grupo. Além do Biolume, o projeto Aruanas foi levado em consideração, envolvendo bioeconomia que transforma insumos regionais e resíduos de frutas, como laranja e banana, em geleias e barras de cereais nutritivas. O projeto também trabalha com frutos amazônicos como cupuaçu e bacuri, oferecendo produtos com aromas e sabores únicos, ao mesmo tempo em que promove a inclusão de comunidade de agricultores familiares e contribui para a geração de renda nessas regiões. “Cada negócio social da Enactus UFPA gerou impacto social e ambiental significativo, e foi essa soma de esforços que nos trouxe até aqui”, explica Jonas.
A equipe já desenvolveu também a produção de biodiesel a partir do reaproveitamento de óleo de cozinha usado e a instalação de totens solares que permitem o carregamento de celulares nas regiões atendidas, ampliando o acesso à comunicação e à autonomia energética.
O Time Enactus da UFPA foi criado em 2014, e faz parte de uma rede global de universitários que desenvolvem iniciativas de empreendedorismo social voltadas à transformação de comunidades e à promoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. A Enactus está presente em 37 países e reúne mais de 70 mil estudantes, professores e líderes de negócios em todo o mundo. No Brasil, a organização mobiliza centenas de times universitários, conectando jovens a empresas, mentores e comunidades para criar soluções inovadoras e de impacto social. “
O campeonato mundial da rede Enactus reuniu, durante quatro dias, equipes de universidades de todo o mundo em competições, oficinas, premiações e momentos de troca de conhecimento. O time da UFPA apresentou os dois projetos: o Biolume e o Aruanas. “Foi uma experiência incrível. Estar em outro país, conhecer pessoas de diferentes culturas e trocar vivências com times de todo o mundo é algo único. O que mais me deixa feliz é ver até onde nosso time chegou graças ao esforço coletivo de cada integrante. Representar a Enactus UFPA e mostrar o impacto dos nossos projetos em um evento dessa dimensão é simplesmente inexplicável. Sou muito grato por essa oportunidade”, conclui o estudante.
Fonte: Com informações Amazônia Vox
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