Falta de planejamento e pobreza empurram manauaras para fundos de vales e margens de igarapés
“Eu moro aqui há quarenta anos. Quando eu cheguei, só havia uma estrada. Eu vi esse bairro crescendo, mas pouco evoluindo”, o relato é do aposentado Lizandro Souza, o “Seu Luis”, de 62 anos, um dos primeiros moradores do bairro Distrito Industrial 2, zona Leste de Manaus. O morador traduz em experiência pessoal a nuance de milhares de famílias amazonenses, que viram a cidade crescer e se expandir de forma acelerada e desordenada, sendo obrigadas a ocupar áreas de risco, insalubres e sem acesso a políticas públicas básicas.
Um estudo publicado pela rede MapBiomas Brasil revela que Manaus lidera o ranking nacional de áreas urbanizadas em favelas tanto em 1985 quanto em 2024. Nesse período, a capital amazonense registrou um crescimento de 2,6 vezes na ocupação dessas comunidades, evidenciando como o avanço urbano se deu de forma desigual e sem planejamento.
Em entrevista ao A CRÍTICA, o doutor Marcos Castro, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), destaca que a favela se tornou um termo geral sinônimo de ocupações irregulares, isto é, áreas de ocupação não precedidas de planejamento urbanístico.
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“São áreas de ocupações irregulares, que são ocupadas por um segmento que não está inserido no setor formal da moradia. Ou seja, aquelas que não possuem condição econômica e também são resultado de ausência de políticas públicas de moradia estruturais. Então, a favela é um retrato, é uma expressão da desigualdade urbana e socioeconômica, hoje”, explicou o professor. Moradora da 4ª etapa do bairro Jorge Teixeira, desde a década de 1990, dona Maria Oliveira dos Santos, de 57 anos, conta que muitos bairros da zona Leste de Manaus surgiram a partir de ocupações irregulares e, até os dias atuais, estão localizados em áreas de risco.
“Tem muitas pessoas que ainda moram em áreas de risco. Nesta área muitos bairros começaram como “invasões”. Eu moro aqui há mais de 30 anos. Vi esse bairro crescer, mas no começo não tinha nada disso (políticas públicas). Quando eu cheguei era apenas o loteamento no barro. E o Jorge Teixeira não foi um bairro planejado. Ele se desenvolveu, mas não foi planejado”, lembrou dona Maria.
Favelas nas cidades amazônicas
De acordo com o estudo, as áreas de favelas que se encontram em terrenos de alta declividade ocupavam 2.266 hectares em 1985, enquanto em 2024 esse número quase que triplicou, chegando a 5.704 hectares – um aumento de mais de 150% (3.438 hectares). Diferentemente das outras regiões brasileiras, as favelas nas cidades amazônicas são definidas, principalmente, pela geografia do relevo.
Impacto
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Fotos: Reprodução/Google
“Hoje já tem casinhas de alvenaria, mas antes era tudo de madeira ou barracos de papelão. Como o Jorge Teixeira não foi planejado, temos muitos problemas como lixo em locais impróprios, alagamentos, desmoronamentos, pois é uma área de risco. Onde eu moro, hoje temos uma pequena horta, mas antes era uma área de invasão”, contou dona Maria. Embora o estudo exponha ainda que São Paulo é a metrópole que possui a maior concentração de área urbanizada em favelas (com 11,8 mil hectares), Manaus e Belém são consideradas menores, no entanto representam mais de um terço de toda a área urbanizada desses municípios, com 11,4 e 11,3 mil hectares, respectivamente.
“Nós temos o Estado como regulador e os grupos excluídos, que são justamente aqueles que geram a expressão da favelização. Não adianta tratar o pobre como culpado desse processo, pois a pobreza urbana é um fenômeno que gera tudo isso. A pobreza gera o pobre, e se o pobre vai ocupar a área de risco, a área de igarapé, é porque também quer morar como qualquer pessoa”, ressaltou o professor.
Fonte: com informações Acrítica
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