Ao longo de sua carreira, Colasanti produziu contos, crônicas, poesias e literatura infantil, consolidando-se como uma autora que dialoga com todas as idades
Marina Colasanti, escritora, poetisa e jornalista, é um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira. Nascida em 26 de setembro de 1937, em Asmara, na Eritreia, então colônia italiana, mudou-se para o Brasil ainda criança, em 1948, após viver em outros países como a Itália. Essa pluralidade cultural e experiências de vida diversificadas estão refletidas em sua obra, marcada pela sensibilidade e profundidade.
Ao longo de sua carreira, Colasanti produziu contos, crônicas, poesias e literatura infantil, consolidando-se como uma autora que dialoga com todas as idades. Sua escrita transita entre o cotidiano e o extraordinário, com uma capacidade singular de explorar temas universais como amor, memória, desigualdade, dor e resiliência.
No texto “Eu Sei, Mas Não Devia”, por exemplo, a autora oferece uma reflexão sobre o hábito humano de se conformar com condições adversas. Com uma linguagem poética, porém incisiva, Colasanti nos convida a questionar os automatismos de nossas vidas e a resgatar a capacidade de sentir, reagir e transformar. Essa obra é um convite à conscientização e à resistência contra a apatia cotidiana.
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EU SEI, MAS NÃO DEVIA

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

Prêmio Jabuti
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo que deseja e de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir a comerciais, a ir ao cinema e engolir publicidade, a ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infinidade catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar-condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

Mariana Colasanti e Clarice Lispector em 1963
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma, para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma.
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Fotos: Reprodução/Google
Marina também foi reconhecida com diversos prêmios ao longo de sua carreira, incluindo o prestigiado Prêmio Jabuti, destacando sua relevância na literatura brasileira e lusófona. Seu legado vai além da palavra escrita, inspirando leitores a olharem para dentro de si mesmos e para o mundo com mais atenção e humanidade.
Criado em 1958, o Prêmio Jabuti se consolidou como a mais importante premiação nacional do livro e é uma referência no mercado editorial brasileiro. Considerado um patrimônio cultural do país, o Prêmio reconhece e valoriza a produção literária nacional, destacando todos os elos da cadeia do livro, ao mesmo tempo em que se conecta com os diversos públicos leitores, acompanhando as mudanças da sociedade.
Marina Colasanti não apenas escreve; ela traduz sentimentos, questiona a rotina e nos chama à ação. Seus textos transcendem o tempo e tocam o leitor em níveis profundos, reafirmando o poder transformador da literatura. No cenário cultural brasileiro, sua voz permanece indispensável, uma ponte entre o sensível e o crítico, entre o particular e o universal.
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