05 de Maio de 2026

NOTÍCIAS
Comportamento - 27/01/2025

Eu sei, mas não devia: reflexões de Marina Colasanti que Inspiram mudanças na vida contemporânea

Compartilhar:
Foto: Reprodução

Ao longo de sua carreira, Colasanti produziu contos, crônicas, poesias e literatura infantil, consolidando-se como uma autora que dialoga com todas as idades

Marina Colasanti, escritora, poetisa e jornalista, é um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira. Nascida em 26 de setembro de 1937, em Asmara, na Eritreia, então colônia italiana, mudou-se para o Brasil ainda criança, em 1948, após viver em outros países como a Itália. Essa pluralidade cultural e experiências de vida diversificadas estão refletidas em sua obra, marcada pela sensibilidade e profundidade.

 

Ao longo de sua carreira, Colasanti produziu contos, crônicas, poesias e literatura infantil, consolidando-se como uma autora que dialoga com todas as idades. Sua escrita transita entre o cotidiano e o extraordinário, com uma capacidade singular de explorar temas universais como amor, memória, desigualdade, dor e resiliência.

 

No texto “Eu Sei, Mas Não Devia”, por exemplo, a autora oferece uma reflexão sobre o hábito humano de se conformar com condições adversas. Com uma linguagem poética, porém incisiva, Colasanti nos convida a questionar os automatismos de nossas vidas e a resgatar a capacidade de sentir, reagir e transformar. Essa obra é um convite à conscientização e à resistência contra a apatia cotidiana.

 

Veja também 

 

Silenciar: Como o silêncio diário pode transformar sua saúde mental

Médica agride motorista de aplicativo que se recusou a entrar em condomínio

EU SEI, MAS NÃO DEVIA

 

 

 

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

 

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

 

Prêmio Jabuti 

 

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo que deseja e de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

 

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir a comerciais, a ir ao cinema e engolir publicidade, a ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infinidade catarata dos produtos.

 

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar-condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

 

 

  Mariana Colasanti e Clarice Lispector em 1963

 

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

 

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma, para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma.

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Marina também foi reconhecida com diversos prêmios ao longo de sua carreira, incluindo o prestigiado Prêmio Jabuti, destacando sua relevância na literatura brasileira e lusófona. Seu legado vai além da palavra escrita, inspirando leitores a olharem para dentro de si mesmos e para o mundo com mais atenção e humanidade.

 

Criado em 1958, o Prêmio Jabuti se consolidou como a mais importante premiação nacional do livro e é uma referência no mercado editorial brasileiro. Considerado um patrimônio cultural do país, o Prêmio reconhece e valoriza a produção literária nacional, destacando todos os elos da cadeia do livro, ao mesmo tempo em que se conecta com os diversos públicos leitores, acompanhando as mudanças da sociedade.

 
Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no FacebookTwitter e no Instagram.  
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.

 

Marina Colasanti não apenas escreve; ela traduz sentimentos, questiona a rotina e nos chama à ação. Seus textos transcendem o tempo e tocam o leitor em níveis profundos, reafirmando o poder transformador da literatura. No cenário cultural brasileiro, sua voz permanece indispensável, uma ponte entre o sensível e o crítico, entre o particular e o universal.

 

Portal Mulher Amazônica

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.