Pesquisa analisou milhões de publicações biomédicas e indica que o tempo extra no processo editorial pode reforçar desigualdades de gênero na carreira científica
Um novo estudo publicado esta semana na revista PLoS Biology constata que o tempo entre a análise e publicação de artigos corre mais devagar para as mulheres, com a diferença variando de 7,4% a 14,6%, dependendo da autoria e da composição das equipes. Liderado por David Alvarez-Ponce, da Universidade de Nevada, o levantamento examinou 7,75 milhões de artigos publicados nas áreas de biomedicina e ciências da vida.
A conclusão foi que o atraso é ainda mais acentuado em artigos onde tanto a primeira autora quanto a autora correspondente (a mentora do projeto) são mulheres, ou em equipes formadas exclusivamente por pesquisadoras.
A disparidade constatada persistiu mesmo após os pesquisadores controlarem variáveis como o tamanho do artigo, o número de coautores, o país de origem e a facilidade de leitura do texto. Portanto, não se trata da qualidade do trabalho, mas de sua autoria.
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Os autores sugerem três caminhos que explicam essa desigualdade, sendo o primeiro o viés de editores e revisores. Nesse caso, o estudo aponta para o preconceito, muitas vezes inconsciente, dos avaliadores, podendo ser mais rigorosos ou céticos com trabalhos assinados por mulheres. O segundo é o “imposto do cuidado” e a sobrecarga de trabalho. Por esse lado, as mulheres costumam levar mais tempo para reenviar os manuscritos após as correções por enfrentarem uma carga desproporcional de tarefas domésticas e cuidado com filhos.
Além disso, dentro das universidades elas possuem mais demandas para tarefas administrativas e de ensino do que seus colegas homens. Com isso, sobra menos tempo para a pesquisa, o que, consequentemente, atrasa a publicação de seus trabalhos. Por último, o nível de experiência e a “fuga de talentos” também foram indicados. Como as mulheres enfrentam mais barreiras, muitas acabam deixando a carreira acadêmica precocemente. Isso faz com que, na média, os homens na ciência tenham mais anos de academia, o que facilita o processo de publicação.
“As mulheres são sub-representadas na academia, especialmente nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e em cargos de liderança, o que parece ser devido ao fato de as mulheres enfrentarem mais obstáculos do que seus colegas homens ao longo de suas carreiras”, disse Alvarez-Ponce em entrevista ao Nevada Today. “Nossas análises contribuem para documentar um desses obstáculos.
O Impacto na Carreira

Fotos: Envato
Na ciência, menos publicações ou publicações mais lentas significam menos citações e menor prestígio. Se o artigo de uma mulher demora dois meses a mais para sair do que o de um homem, ao final de cinco anos, essa diferença pode representar vários artigos a menos em seu currículo. Porém, segundo o estudo, os autores identificaram áreas onde essa diferença de tempo foi reduzida ou até mesmo invertida, como em algumas subdisciplinas da saúde da mulher e biologia geral.
Segundo Alvarez-Ponce, esses campos podem servir de modelo. “Podemos aprender com as áreas em que as pesquisadoras não enfrentam tempos de revisão mais longos e tentar exportar os aspectos positivos de sua cultura acadêmica para outros campos”, afirma o pesquisador. Para além disso, ele propõe a implementação de uma revisão onde os nomes dos autores são omitidos, impedindo que o gênero influencie o julgamento da qualidade técnica dos artigos revisados.
Fonte: Com informações Revista IstoÉ Mulher
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