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Mulher em pauta - 22/07/2025

Entre Versos e Vozes: Cida Bento e o Desafiar da Branquitude nas Instituições

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Foto: Reprodução/Google

Isso não é fruto da biografia de um indivíduo, mas de um sistema que estrutura privilégios e delimita permissão para existir nas instâncias de decisão.

Quando uma mulher negra ocupa um espaço de poder nas instituições brasileiras, não é raro que seja vista como intrusa, deslocada — até sua liderança ser interpretada como “áspera” ou “grosseira”. Isso não é fruto da biografia de um indivíduo, mas de um sistema que estrutura privilégios e delimita permissão para existir nas instâncias de decisão.

 

Maria Aparecida da Silva Bento nasceu em 1952 em São Paulo. É psicóloga, doutora em Psicologia pela USP e referência nos estudos sobre branquitude no Brasil. Cofundou, em 1990, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), voltado ao combate às discriminações raciais e de gênero nas organizações.

 

Autora de obras impactantes como Psicologia social do racismo, Cidadania em Preto e Branco e O Pacto da Branquitude, fruto de sua tese de doutorado, ela expõe a contradição de uma liderança cada vez mais feminina, mas quase sempre branca — enquanto mulheres negras permanecem invisíveis nos postos de poder.

 

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Em 2015, foi reconhecida pela revista The Economist como uma das 50 pessoas mais influentes globalmente na promoção da diversidade. Atua em múltiplos conselhos de relevância, entre eles ONU Mulheres, Instituto Ethos, o Conselho Federal e Regional de Psicologia, e o CONSEA (Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional).

 

Em entrevistas recentes — como no programa DR com Demori (TV Brasil, maio de 2025) — Cida Bento explica o conceito de “Pacto narcísico da branquitude”: um acordo não escrito em que pessoas brancas mantêm privilégios, ocupam espaços de poder e favorecem outras pessoas brancas, criando uma estrutura institucional que revela a desigualdade racial vigente.

 

Ela observa que, mesmo quando se fala em avanços de gênero, raramente a mulher negra é incluída: “quando uma companhia diz que sua questão de gênero está melhorando, não é a mulher negra que está entrando, é a branca”.

 

Dois Impactos: invisibilidade e desgaste

 

 

1. Percepção de intrusão: A mulher negra em liderança é frequentemente vista como excessiva, rude ou fora do lugar. Sua presença gera desconforto porque desafia normas implícitas de pertencimento.

 

2. Empoderamento sob vigilância: Carrega não apenas a carga das demandas institucionais, mas também o peso simbólico de representar um grupo inteiro — enquanto enfrenta microagressões, solidão e uma autocobrança intensa.

 

Essa dinâmica não é um erro de avaliação pessoal, mas reflexo de um sistema que organiza quem merece espaço e quem deve permanecer invisível. A liderança feminina vista como natural é quase sempre branca, enquanto mulheres negras permanecem fora do quadro central da institucionalidade. Como psicóloga, Cida Bento une pesquisa e atuação política. Sua tese, Pactos narcísicos no racismo, analisa como a branquitude molda a percepção de poder dentro de empresas e órgãos públicos, abordando a discriminação racial como um fenômeno estrutural, não individual.

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Além disso, sob sua coordenação no CEERT, iniciativas como o Prêmio Educar para a Igualdade Racial e de Gênero, lançado em 2002, reconhecem práticas pedagógicas e de gestão que promovem a diversidade nas escolas — ajudando a ampliar narrativas e criar espaços de inclusão.

 
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Cida Bento ajuda a entender que isso decorre de uma construção social — a branquitude como padrão invisível — e que a desumanização dessas mulheres é parte de um arranjo institucional que limita quem pode ascender sem ser visto como ameaça. Essa abordagem ampara psicologias profissionais e coletivas que vão além do foco individual: escuta que entende o sofrimento como expressão de opressão, espaço de reumanização e fortalecimento da autoestima — e não apenas como fragilidade.

 

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