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Na vastidão da floresta amazônica, especialmente na região de Itaituba (PA), a vida de centenas de mulheres se desenrola à sombra da ilegalidade, da exploração e da violência. Cozinheiras, lavadeiras, atendentes de bar e trabalhadoras do sexo formam a força invisível que sustenta os garimpos — um mundo paralelo onde o ouro não brilha para todos.
Nos últimos 10 anos, a área de garimpo no Brasil mais que dobrou, atingindo 220 mil hectares, o equivalente a 229 mil campos de futebol, segundo dados do MapBiomas e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Esse crescimento acelerado acende um alerta global: a Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que a expansão desenfreada do garimpo tem intensificado a violência, o tráfico de pessoas e a exploração sexual, especialmente em regiões dominadas por quadrilhas e marcadas pela impunidade.
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Histórias que sangram
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Leide Dayane, hoje com 34 anos, começou sua trajetória nos garimpos aos 12. "Fui levada por outras mulheres pela orla de Itaituba", conta. Uma das meninas de seu grupo, com apenas 13 anos, foi assassinada por uma cafetina. Leide relembra ainda a brutalidade do cotidiano: "Já colocaram uma arma na minha cabeça por eu recusar um cliente. A mulher é muito humilhada por ser mulher de bar".
A violência extrema também marcou o fim da vida de Raiele da Silva Santos, de 26 anos. Ela trabalhou em cabarés e cozinhas na região garimpeira. Foi encontrada morta em um quarto no distrito de Cuiú-Cuiú, com sinais de estupro e espancamento. "Sempre a gente via essa questão, de mulher ser morta em garimpo", lamenta a irmã Railane.
Já Natalia Souza Cavalcante, de 28 anos, entrou nesse universo por necessidade financeira. Inicialmente endividada, aceitou trabalhar como sex-worker. Com o tempo, virou dona de um cabaré, onde acumulou ganhos rápidos, mas passou a viver sob constante ameaça e pressão do entorno.
Prostituição forçada e ciclo de dívidas
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Nos garimpos, a prostituição nem sempre é uma escolha. Muitas mulheres são aliciadas ou empurradas a essa realidade por dívidas acumuladas com passagens, estadia e produtos de higiene. A prática de "reparcelar" essas dívidas com serviços sexuais são comuns. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), entre 30% e 40% dos trabalhadores garimpeiros podem ser vítimas de tráfico humano ou trabalho forçado. O recrutamento de mulheres e meninas para exploração sexual é recorrente — inclusive em territórios indígenas como o dos Yanomami, onde há relatos de raptos, estupros, e trocas de alimentos por sexo, inclusive com adolescentes.
Saúde e violência: um cotidiano negligenciado

Essas mulheres enfrentam condições extremas: ausência de assistência médica, contaminação por mercúrio, doenças ginecológicas e gestações de risco, especialmente entre indígenas. A violência — física, emocional, patrimonial e sexual — é uma constante. Há subnotificação generalizada, impunidade e total omissão do Estado.
Invisibilidade institucional

Apesar dos alertas, há um vácuo institucional que perpetua a violência. Muitas vezes, os casos não são reconhecidos oficialmente como tráfico de pessoas, o que dificulta a coleta de dados e a responsabilização dos envolvidos. No Brasil, a prostituição em si não é crime, mas o aliciamento, a manutenção e a exploração em casas de prostituição são. Mesmo assim, há pouquíssimos registros e investigações que reflitam a verdadeira dimensão do problema.
O silêncio da floresta

Fotos: Reprodução
O silêncio que cobre a floresta amazônica é o mesmo que cobre as vozes dessas mulheres. Enquanto o ouro continua a ser extraído a qualquer custo, a vida e a dignidade de quem sustenta essa cadeia continuam enterradas — não sob a terra, mas sob a indiferença.
É urgente que o Estado, a sociedade civil e os organismos internacionais voltem os olhos para essa realidade. Essas mulheres não podem mais ser invisíveis. Não há agenda verde ou futuro sustentável sem justiça para quem vive nas margens do sistema.
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