Vias com canteiros verdes ainda são uma exceção na metrópole cercada pela maior floresta equatorial do planeta
Uma cidade de clima equatorial que “reclama sombra de árvores para as suas ruas, vias e logradouros”. Essa poderia ser a descrição de Manaus em 2025, mas foi assim que o Jornal do Comércio retratou a capital amazonense na sua edição impressa de 29 de outubro de 1960. Hoje, 65 anos depois, às vésperas de completar 356 anos, a paisagem urbana da cidade continua marcada pelo mesmo problema: o verde é exceção em meio ao cinza dos concretos.
Não faltam exemplos em outras edições do periódico, o mais antigo em circulação na cidade, para mostrar que a falta de arborização é um problema histórico. Em 1973, o jornal já falava que benjaminzeiros e mangueiras estavam morrendo ou sendo retiradas pela prefeitura, deixando a cidade “nua”.
Em 1975, o mesmo veículo publicou que o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) haviam firmado convênios com a prefeitura para ampliar a arborização na cidade, especialmente no ainda novo, à época, Distrito Industrial.
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Uma prova de que o convênio não deu dado certo: dois anos depois, em 1977, os vereadores da Câmara Municipal de Manaus debateram a importância de ampliar a arborização da cidade. Eles sugeriram, à época, aumentar a conscientização da população para que o plantio e manutenção das árvores fosse um trabalho mais coletivo. As reportagens citadas aqui foram encontradas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Problema persiste
Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Manaus é a sétima capital capital menos arborizada do país, com apenas 44,8% da população urbana vivendo em ruas com pelo menos uma árvore. O resultado coloca o município manauara atrás, inclusive, de cidades ligadas ao agronegócio, como Goiânia (89,6%), Palmas (88,7%) e Cuiabá (75,5%).
Se há mais de 60 anos a situação já era preocupante, hoje o cenário é ainda mais grave. O primeiro fator é o crescimento populacional: em 1960, Manaus tinha 153.580 habitantes, segundo reportagem do Jornal do Comércio, e hoje abriga cerca de 2,4 milhões (quase 15 vezes mais). Em segundo lugar, pesa o aumento das temperaturas globais, o que, por consequência, impacta Manaus. Em 2023 e 2024, o planeta registrou recordes históricos de calor, segundo a NASA, com a média global 1,55 °C acima dos níveis pré-industriais.

“Estudos recentes mostram que a cidade vem registrando diferenças de até 6 °C entre áreas urbanas e rurais, especialmente durante a noite, um fenômeno conhecido como Ilha de Calor Urbana. Esse efeito ocorre porque o concreto, o asfalto e as edificações absorvem e armazenam grandes quantidades de calor durante o dia, liberando-o lentamente ao longo da noite”, afirma Leonardo Vergasta, meteorologista e pesquisador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da Universidade do Estado do Amazonas (LabClim/UEA).
Ele diz que ampliar a arborização urbana em Manaus é uma das medidas mais eficazes e urgentes para combater o problema em meio ao avanço das mudanças climáticas, pois as árvores atuam como “condicionadores naturais”, oferecendo sombra, reduzindo a temperatura do ar e aumentando a umidade. “Os impactos do aquecimento global não se restringem ao desconforto térmico. Eles afetam diretamente a saúde da população, aumentando o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias, e também comprometem a infraestrutura urbana, elevando o consumo de energia elétrica e a demanda por refrigeração”, alerta.
Desde 2012, Manaus possui um Plano Diretor de Arborização Urbana, que aponta diretrizes sobre como a gestão municipal deve realizar o plantio das árvores e quais espécies priorizar, por exemplo. Ainda hoje, não há um levantamento sobre quantas árvores são plantadas por ano, inclusive por prefeitos que já passaram pela cadeira, para a população acompanhar.
Falta parques
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Engenheira florestal e líder da Associação dos Movimentos Ambientais do Amazonas (AMA), Rose Batista diz que Manaus ainda sofre com a falta de árvores e com a baixa presença de parques e praças verdes.“A gente até tem alguns locais mais verdes, mas eles estão longe dos bairros, muitas vezes a mãe não tem dinheiro para levar seu filho, até porque nunca é só o custo da passagem, tem o picolé, o lanche, a água. A prefeitura podia trabalhar mais os parques, e não precisa ser algo deslumbrante. Obras simples e práticas nos bairros já seriam muito boas”, afirma.
Entendendo que a falta de arborização é um problema histórico e que diferentes prefeitos falharam na solução, ela diz também que é importante priorizar a educação ambiental da própria população. “A gente vai para fora e quando dizemos que somos de Manaus as pessoas já nos associam a florestas, mas a gente não tem isso de verdade. Muita gente da cidade nem liga para isso, quando deveria”, reflete.
Maior participação
Não são poucas as ideias de como a cidade poderia investir mais em arborização. Um dos principais caminhos é a maior participação popular nessa política, avalia Fabiana Rocha, engenheira florestal e mestre em Ciências de Florestas Tropicais. “Precisamos mostrar que muito mais do que a redução da temperatura, com arborização a gente tem a melhoria da qualidade do ar, a redução do consumo de energia, a melhoria dos sistemas de drenagem com o filtro que as árvores fazem das chuvas, a valorização dos espaços públicos e dos imóveis. São muitas vantagens”, comenta.
Fabiana diz que é difícil desenvolver materiais que tenham baixo custo, segurança e sejam efetivos contra o calor nas construções, por isso muitas vezes a opção escolhida é o tijolo e concreto, mas que só piora a sensação térmica. As árvores, nesse caso, ajudariam a diminuir o problema. “Por outro lado, gente vê que não há um planejamento para incluir a arborização. Hoje a cidade tem crescido verticalmente e o que tem para chamar a atenção de novos moradores são estacionamentos, piscinas, churrasqueiras, e as árvores não são incluídas da mesma forma”, avalia.
E o plano?
Fotos: Reprodução/Google
O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU-AM), Fabrício Santos, afirma que Manaus precisa incluir a arborização como parte essencial do planejamento de sua expansão urbana. Só assim, diz ele, a cidade poderá começar a enfrentar um problema que se arrasta há décadas.
“Temos um Plano Diretor que define os caminhos para o crescimento da cidade, e é fundamental que ele seja seguido também sob a perspectiva da arborização”, explica. Ele sugere como solução a inclusão de quantidades mínimas de áreas verdes ou de árvores em imóveis, algo que já acontece com a proibição de que os lotes sejam 100% pavimentados. Ele lembra que Manaus falhou em investir em arborização, enquanto suas zonas se expandiam de forma desordenada, sobretudo a partir de 1970, com a implantação da Zona Franca. A ‘explosão’ continua: segundo o Censo 2022, a capital foi a que mais cresceu no país em população na última década. Fabrício alerta que a falta de planejamento não pode persistir.
15 mil mudas
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Mudança Climática (Semmas) foi procurada para esta reportagem, mas não deu retorno. Em janeiro deste ano, a gestão anunciou uma meta de plantar 15 mil mudas até o fim de dezembro, número que chegou a 14 mil já em junho, segundo a própria prefeitura. A pasta também divulgou que, de janeiro de 2021 a 18 de agosto de 2025, foram plantadas 44.239 árvores pela gestão municipal.
Fonte: com informações Acrítica
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