Eles ganham. Mas do outro lado da tela, quem perde são famílias inteiras, cada vez mais vulneráveis.
No Brasil, onde milhões vivem sob o peso da insegurança alimentar, uma nova estatística acendeu o alerta: em apenas um mês, R$ 3 bilhões saíram dos bolsos de beneficiários do Bolsa Família direto para plataformas de apostas. Um número estarrecedor — e ainda pouco discutido com a seriedade que exige.
E quem lucra com isso?
Influenciadores digitais, artistas e personalidades que ocupam espaços de destaque nas redes e na TV, promovendo cupons, danças e promessas de riqueza instantânea. Eles ganham. Mas do outro lado da tela, quem perde são famílias inteiras, cada vez mais vulneráveis.
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E quem escuta o estrago?

O Assistente Social. É ele quem acolhe, escuta, escreve o parecer e tenta, todos os dias, resgatar a dignidade de pessoas levadas ao endividamento e à desesperança. É ele quem encontra, no território, as consequências da ilusão vendida por algoritmos.
“Quero ser famoso no TikTok, não quero trabalhar”

A frase, cada vez mais comum entre adolescentes em situação de vulnerabilidade, não é fruto do acaso. Ela traduz um processo de formação social mediado por telas, onde o sucesso fácil e o dinheiro rápido se tornaram ideal de vida.
Mas não se trata apenas de juventude alienada. Trata-se de políticas públicas ausentes e de um Estado que não regula o suficiente o impacto da economia digital sobre quem vive à margem.
O recente espetáculo de influência e escândalo que se desenrolou na capital federal não mostrou justiça. Mostrou como a fama virou ferramenta de blindagem e como o debate sobre o papel das apostas e da influência segue silenciado.
Enquanto isso, nas pontas do sistema, nós seguimos fazendo contenção de danos com escuta, técnica e ética profissional. Mas isso não pode continuar sendo um trabalho solitário. A reflexão precisa sair do campo individual e migrar para os coletivos de trabalho, rodas de conversa, espaços de supervisão e formação contínua.
O consumo e a desinformação também são políticas — e precisam estar no nosso radar. Se a lógica das apostas e da ostentação digital chega até o nosso público, ela também precisa ser enfrentada por nós como categoria. Com articulação, formação crítica e denúncia responsável.
Não basta apenas alertar. É preciso pensar estratégias:

Fotos: Reprodução/Google
• Educação midiática nas políticas públicas.
• Regulação das plataformas digitais.
• Limites legais para a publicidade de apostas.
• Campanhas de informação dentro dos CRAS, CREAS, escolas e unidades de saúde.
• Apoio ao trabalho dos Assistentes Sociais nos territórios, com formação continuada e reconhecimento real da sua função estratégica.
Assistente Social, sua escuta é resistência
Em tempos onde a ilusão vale mais que o direito, resistir é acolher com ética, orientar com firmeza e denunciar com responsabilidade. Esse debate não pode mais esperar. Que ele entre na pauta dos Conselhos, dos Fóruns e das formações profissionais — porque a política também passa pela aposta. Mas não pode ser com a vida de quem já perdeu quase tudo.
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