03 de Maio de 2026

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Violência contra Mulher - 31/07/2025

Da casa às ruas: como a violência doméstica anuncia o caos social

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Foto: Reprodução/Google

Afinal, os parceiros dessas mulheres não são os únicos em perigo.

A ideia de que homens violentos buscam novas oportunidades para atacar pessoas e propriedades não é nenhuma novidade. No entanto, o fato de que um tipo de violência pode ser indicativo de outros tipos ainda não foi plenamente reconhecido pelo sistema de justiça criminal. Se fosse, a violência doméstica seria tratada como o sinal de alerta que realmente é — exigindo identificação eficaz, responsabilização adequada e monitoramento rigoroso dos agressores.

 

Um exemplo recente da violência dentro de casa transbordando para as ruas ocorreu durante os protestos violentos no verão passado no Reino Unido. Dados obtidos pelo jornal The Guardian revelam que dois em cada cinco detidos (41%) — entre os 899 presos por desordem violenta — já haviam sido denunciados à polícia por violência doméstica. As acusações incluíam lesão corporal, perseguição, descumprimento de medidas protetivas, controle coercitivo e dano criminal. Em algumas regiões, esse número chegou a 68%. Em Rotherham, por exemplo, das 75 pessoas presas após o incêndio criminoso em um hotel de acolhimento de solicitantes de refúgio, 35 já tinham histórico de violência doméstica.

 

A ironia é cruel: em algumas cidades, muitos dos homens que afirmavam protestar contra os assassinatos brutais de três meninas — Elsie Dot Stancombe, Bebe King e Alice da Silva Aguiar — já haviam sido acusados de agredir mulheres. O massacre profundamente misógino acabou sendo explorado por “manifestantes” que carregavam em seu próprio histórico atitudes violentas e misóginas.

 

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Dois outros dados merecem atenção. O percentual de 41% coincide quase exatamente com o resultado de um estudo conduzido em 2021 pelo Project Starlight, uma parceria entre o serviço de contraterrorismo britânico e o Ministério do Interior: 39% dos indivíduos vulneráveis à radicalização extremista tinham algum vínculo com violência doméstica — seja como agressores, vítimas ou testemunhas. Esse número é muito superior à média da população geral.

 

É importante lembrar que a violência doméstica é amplamente subnotificada. Muitas vítimas têm medo de denunciar, receando represálias ou que não sejam levadas a sério — e, infelizmente, esse receio tem fundamento. Entre os detidos nos protestos de Southport, menos de 25% dos acusados de violência doméstica haviam sido formalmente processados antes dos distúrbios.

 

 

Esse quadro é catastrófico. Representa um risco contínuo para as vítimas, que vivem sob ameaça, e alimenta a sensação de impunidade entre os agressores, que seguem acreditando — com razão — que escaparão da justiça. Muitos dos envolvidos nas desordens já conheciam o sistema penal, tinham sido interrogados, confrontados com provas, declarações de parceiras, fotos de ferimentos. E ainda assim, diante da alta exigência probatória e da baixa rede de apoio às vítimas, a maioria nunca viu o interior de um tribunal.

 

Essa impunidade alimenta a reincidência. Ao não serem responsabilizados, os agressores validam a violência como forma de expressar raiva, tornam-se emocionalmente insensíveis e perdem empatia pelas vítimas. Isso se reflete não apenas em relacionamentos futuros, mas também em crimes contra outras pessoas, como os ataques a refugiados durante os protestos do ano passado.

 

Fotos: Reprodução/Google

 

 

Já não há dúvidas: a violência doméstica deve ser tratada como “crime de porta de entrada”, tal como hoje se compreende a exposição indecente. Durante décadas, esse comportamento foi minimizado como “ato obsceno” e não era visto como precursor de crimes mais graves — um erro trágico, evidenciado pelo assassinato da jovem Sarah Everard em 2021, cujo agressor, Wayne Couzens, era policial e já havia sido denunciado por se expor indevidamente — denúncias que foram ignoradas.

 

Outro caso emblemático é o de Abdul Ezedi, condenado por exposição indecente e agressão sexual em 2018, cujas penas foram suspensas. Em 2024, ele viajou até Londres e lançou uma substância corrosiva no rosto de uma ex-parceira, provocando lesões permanentes. Seu corpo foi posteriormente encontrado no rio Tâmisa.

 
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É urgente uma revolução no modo como o sistema de justiça encara a violência doméstica. Permitir que homens abusivos escapem de condenações não é apenas uma falha de justiça para as vítimas — é um risco real para toda a sociedade. A criação de um registro nacional de agressores domésticos, similar ao de ofensores sexuais, poderia proteger mulheres, permitir o monitoramento de reincidentes e alertar sobre riscos futuros. Afinal, os parceiros dessas mulheres não são os únicos em perigo. Como revelaram os prédios incendiados e carros de polícia destruídos no verão passado, homens violentos não escolhem alvos com critério. E o elo entre a violência privada e a pública nunca esteve tão evidente.
 

 

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