Com o aquecimento global, diversos seres vivos estão migrando para novos habitats, mas as árvores estão ficando para trás.
À medida que o planeta aquece, muitos organismos estão buscando novos lares, pois seus ambientes tradicionais se tornaram inóspitos. As árvores, no entanto, estão tendo dificuldades para migrar com a mesma rapidez de outras plantas e animais. Um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) revela que a resposta para essa lentidão pode estar escondida no subsolo.
O estudo destaca que as árvores, especialmente aquelas no extremo norte, estão se deslocando para solos que carecem da vida fúngica essencial para sua sobrevivência. A maioria das plantas forma parcerias simbióticas com fungos micorrízicos, que se conectam às raízes e fornecem nutrientes em troca de carbono. Árvores como as coníferas dependem de um tipo específico de fungo, o ectomicorrízico, para prosperar.
"Descobrimos que 35% das parcerias entre árvores e fungos micorrízicos serão negativamente impactadas pelas mudanças climáticas," alertou Michael Van Nuland, ecologista da Society for the Protection of Underground Networks (SPUN) e autor principal do estudo. Na América do Norte, as árvores mais vulneráveis são as da família dos pinheiros, especialmente em áreas onde enfrentam condições adversas.
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O estudo também revelou que as árvores que sobrevivem melhor em condições adversas possuem uma maior diversidade de fungos micorrízicos. Isso sugere que essas simbioses são vitais para ajudar a flora a resistir aos impactos das mudanças climáticas.
Marco Moraes, geólogo e autor do livro Planeta Hostil (Matrix Editora), destaca que cerca de 60% das árvores no mundo formam essas parcerias. "As árvores fornecem carbono para os fungos, enquanto eles fornecem nutrientes essenciais como nitrogênio, fósforo e potássio. Sem esses nutrientes, as árvores não conseguem sobreviver," explica Moraes.
Entretanto, quando as árvores migram, muitas vezes os fungos não as acompanham. "Em pelo menos 25% dos casos, os fungos não seguem as árvores em sua mudança," afirma Moraes.

Rodrigo Basílio, biólogo e professor de biologia do Colégio Objetivo, em Brasília, ressalta que, sem os fungos, as plantas precisam de solos ricos ou adubação adicional para sobreviver. "Fungos têm alto grau reprodutivo e podem ser encontrados em quase todos os substratos favoráveis," diz Basílio, destacando que a umidade adequada é crucial para sua germinação, enquanto agrotóxicos podem inibir seu crescimento.
Helga Corrêa, especialista em conservação do WWF-Brasil, adverte sobre os riscos de introduzir fungos artificialmente em novos ambientes. "Os impactos dessa introdução são imprevisíveis. Cada experimento será um teste, e quanto mais espécies envolvidas, mais complexo se torna determinar a micorriza correta a ser introduzida."
O estudo também sublinha como as mudanças climáticas estão afetando as simbioses. "Esperamos que migrações induzidas pelo clima sejam limitadas por fatores abióticos, mas geralmente não consideramos as limitações bióticas, como a disponibilidade de parceiros simbióticos," explica Clara Qin, cientista de dados e coautora do estudo. Van Nuland reforça a necessidade urgente de compreender e proteger essas relações simbióticas que sustentam a vida na Terra.

Fotos: Reprodução/Pexels
Helga Corrêa acrescenta que a crise climática coloca em risco interações que se desenvolveram ao longo de milhares de anos, cujos impactos completos ainda desconhecemos. "Precisamos entender melhor quantas espécies estão envolvidas e o nível de dependência dessas interações."
Para proteger as redes subterrâneas de fungos em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, Maria Carolina Faleiros, bióloga da Rede Blue Educação, sugere monitoramento constante da distribuição e diversidade desses fungos em diversos ecossistemas. "É crucial analisar fatores ambientais e desenvolver práticas de manejo sustentável da terra com menor impacto no solo."
Quanto à relação mutualística em outras regiões, como na América do Sul, Faleiros destaca que essa interação também ocorre com líquens e algas ou cianobactérias, comuns em montanhas e áreas costeiras. "Essas ligações variam conforme as condições climáticas."
A crise climática está redefinindo a ecologia global, e a sobrevivência das árvores depende da nossa capacidade de compreender e proteger as complexas interações subterrâneas que as sustentam.
Fonte: com informações do Correio Braziliense
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