Covid longa: a ameaça é menor com ômicron e entre quem tomou vacina?
O assunto já era embolado mesmo antes da chegada de ômicron. A começar pelo nome. Pois, apesar do termo "covid longa" ser cada vez mais usado, a Organização Mundial de Saúde ainda prefere chamar de síndrome pós-covid o fenômeno de arrastar alguns sintomas por um bom tempo após a infecção pelo coronavírus.
Até hoje, nem em relação ao prazo existe um consenso, isto é, a partir de quando se bate o martelo de que o sujeito tem covid longa, síndrome pós-covid ou o que for? Alguns médicos só cogitam um diagnósticos desses se já se passaram 12 semanas da infecção e, mesmo assim, a queixa não foi embora.
Outros — em maioria — entendem que nem é preciso esperar tanto, porque quatro semanas estariam de bom tamanho. "Como em outras infecções virais, para boa parte dos casos esse é o tempo suficiente para o indivíduo convalescer e, na sequência, se recuperar", pensa o médico Max Igor Lopes, coordenador do Ambulatório de Infectologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
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Para ele, portanto, qualquer coisa diferente que extrapole esses 28 dias poderia indicar um caso de covid longa. E são mais de duas dezenas de sintomas relacionados a essa condição. O infectologista me ajuda a listar os principais.
"Tem gente que continua tossindo ou amargando problemas pulmonares", diz ele, que é também consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia). "Em outros, a diminuição do olfato e do paladar não some. Alguns indivíduos passam a penar com dores de cabeça intensas, experimentam alterações bruscas de humor e depressão."

Bastante frequente, ainda, é a sensação de estar com os pensamentos sob uma neblina, com a cabeça bem mais avoada do que de costume e com dificuldade para se lembrar de um nome qualquer bem no instante em que ele seria necessário.
"Sem contar a fadiga, que talvez seja uma das reclamações mais comuns da covid longa", observa o infectologista. "A pessoa relata muita fraqueza, como se ela acordasse com uma bateria velha carregada pela metade", descreve.
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Ainda assim, segundo o doutor, são raros os casos em que a covid longa tem manifestações sérias a ponto de exigir uma reabilitação, por exemplo, ou ameaçar sobrecarregar os serviços de saúde. "Mas, de qualquer maneira, para quem tem, ela parece atrapalhar um bocado", admite.
Atenção: qualquer um que, por azar, foi contaminado pelo Sars-CoV 2 corre o risco de ficar com ou outro sintoma persistente como herança, inclusive quem mal e mal percebeu que estava com covid-19. No entanto, todos notam que a tendência de o problema se prolongar é maior naqueles pacientes que tiveram quadros moderados ou graves na fase aguda.

Daí a questão que se levanta agora, em um planeta dominado por ômicron: já que essa variante costuma provocar casos mais leves, será que ela seria menos capaz de desencadear a covid longa do que suas antecessoras?
No balaio das dúvidas, entra também a questão da vacinação. Afinal, se a vacina não impede a gente de pegar o coronavírus, mas evita que a infecção se complique, será que dá para deduzir que ela preveniria a covid longa?
O tamanho do problema

Não, ainda não há dados para responder se ômicron poderia nos poupar um pouco da covid longa. Simples: "Essa variante está circulando entre nós há cerca de dois meses apenas. É um intervalo pequeno para saber se ela pode disparar algo", diz o pediatra intensivista Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).
Mais para o final deste mês de fevereiro, e olhe lá, é que o mundo esboçará uma estimativa da proporção de pessoas que continuam sentindo qualquer coisa de errado após contraírem ômicron. Antes disso, é tudo especulação.
Mas dá para vislumbrar a dimensão do problema, tomando como ponto de partida o que acontece com quem pegou as variantes que chegaram antes. O ano de 2022 começou aquecendo esse debate graças a um levantamento realizado pelo governo britânico.
No dia 6 de janeiro, eles soltaram dados sobre a prevalência de covid longa no Reino Unido. Mais do que 1.266.000 pessoas, representando cerca de 2% da população britânica, reportaram que, apesar de curadas e livres do vírus há quatro semanas ou mais, continuavam convivendo com sintomas associados à covid-19. Aliás, quatro em cada dez desses indivíduos tinham ficado doentes um ano antes, pelo menos. Ou seja, o adjetivo "longa" caía muito bem para a sua situação.
No meio de toda essa gente, há relatos a respeito de 77 mil crianças e adolescentes entre 2 e 16 anos — que, como costuma acontecer essa faixa de idade, raramente apresentaram doença severa — e algo em torno de 134 mil jovens entre 17 e 25 anos. Isso leva a gente a refletir: ter quadros brandos de covid-19 não é 100% de garantia de que a chateação desaparecerá junto com o vírus no organismo.
Casos de covid longa por ômicron poderão ser numerosos

"Mesmo que apenas uma parte mínima dos infectados por ômicron acabe desenvolvendo a covid longa, por causa da facilidade com que essa variante é transmitida, ainda assim teremos uma quantidade impressionante de indivíduos com sintomas persistentes", calcula Max Igor Lopes.
Faz sentido. Os estudos com as antecessoras de ômicron apontam que entre 3% e 12% dos infectados ainda sentem, depois de meses, falta de ar no dia a dia, dificuldade de concentração ou outro daqueles sintomas mencionados.
Talvez você estranhe, porque entre 3% e 12% há uma boa diferença. "O problema é que cada estudo é de um jeito e usa uma metodologia diferente", explica o infectologista. "Existem pesquisas que só consideram sintomas que estão durando mais de três meses e pesquisas levam em consideração o que é registrado bem antes disso", exemplifica.
E um detalhe reforça a necessidade de cautela: "A pessoa sempre pode se referir a algo que já tinha, mas que só chamou a atenção dela e a do médico depois da covid-19, como uma depressão, quem sabe", comenta o médico. É fato. Nem tudo o que vem depois da covid-19 vem por causa da covid-19.
De todo modo, pedindo desculpa pelo lugar-comum, onde há fumaça, há fogo. E, embora a chama de ômicron pareça pequenina, podemos fazer uma conta por baixo. Pois bem: só ontem, dia 31, foram 102.616 novos casos conhecidos de covid-19. Se 3% dos infectados das últimas 24 horas tiverem a tal covid-longa, que é a porcentagem mínima nas outras variantes, serão umas 3 mil pessoas que passarão um tempo razoável com dor de cabeça ou de barriga, problemas para dormir, um cansaço que, dizem, beira o insuportável. E estamos falando só de ontem, lembre-se disso.
A saída? Completar o esquema vacinal

Fotos: Reprodução
"Quanto menos covid você tem graças à vacinação, menos risco de covid longa você tem também", opina o pediatra Renato Kfouri, membro da diretoria da SBIm e presidente do Departamento de Imunizações da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). "Claro que a vacina não impede a infecção, assim como a covid longa não está necessariamente associada a uma doença grave", sublinha. "Mas há bons estudos sugerindo que o imunizante diminuiu a probabilidade de sintomas persistentes."
Um desses trabalhos, publicado na The Lancet Infectious Diseases, acompanhou mais de 1 milhão de pacientes do Reino Unido entre dezembro de 2020, quando a vacina começou a ser aplicada, e julho do ano passado. A conclusão foi de que quem tinha se vacinado com duas doses — que então era o esquema de vacinação completo — apresentava menos de metade da probabilidade de desenvolver sintomas persistentes.
Segundo o doutor Max Igor Lopes, por trás da covid longa há alterações na coagulação, um desbalanço nas células de defesa e a sempre citada inflamação da fase aguda da infecção. "Mas, quando a pessoa vacinada contrai a covid-19, o tempo da doença é menor, porque ela elimina o vírus muito mais depressa", diz ele.
Em outras palavras, a vacina não dá tanta oportunidade para o Sars-CoV 2 agir. O que talvez explique por que apenas 5% dos britânicos completamente vacinados tiveram covid longa contra 11% dos não vacinados.
Em tempos de ômicron, o que muda: só deve se considerar com a vacinação em dia o adulto que tomou a terceira dose, aquela de reforço. "Já para crianças e adolescentes são duas doses, sendo três quando há imunossupressão", informa o pediatra Juarez Cunha.
Enquanto alguém permanece com o esquema incompleto, ômicron ganha tempo para aprontar e estender seu tormento por longos meses. Aliás, em todos os sentidos, a vacina é o caminho mais curto para nos livrarmos de tanta aflição.
Fonte: Portal Uol
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