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Elas nos inspiram - 16/09/2025

Como Fafá de Belém Move a Amazônia Rumo À COP30

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Foto: Reprodução/Google

Entre a criação do Fórum Varanda da Amazônia e a preparação de Belém para receber a COP30, ela articula vozes plurais da região e cobra reconhecimento histórico para os povos e saberes do norte

No coração de Belém, onde o Teatro da Paz ergue suas colunas desde 1879 e os cheiros de jambu e tucupi perfumam as manhãs, Fafá de Belém tece uma rede de vozes que o Brasil ainda não aprendeu a escutar. Em uma longa entrevista à Forbes, entre suas famosas risadas largas que são uma marca registrada – e muita disposição para contar sobre aquilo que acredita –, ela teceu os detalhes de uma jornada que não começou ontem.

 

Há três anos, a cantora criou o Fórum Varanda da Amazônia, um encontro que nasceu de uma indignação visceral: estar em Nova York, numa reunião do Pacto Global sobre a COP30, e perceber que “não tinha pensador amazônico, não tinha artista amazônico, não tinha poeta amazônico, não tinha professor, pesquisador, não tinha pensador, não tinha fotógrafo, só existiam três meninas fantasiadas de indígenas como se nós só prestássemos para alegoria de festa”.

 

A artista não hesitou. Ligou para Eugênio Pontos, do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), e perguntou: “A gente consegue fazer um fórum onde tenha pensadores amazônicos?” Era menos de um mês antes da Varanda de Nazaré, seu festival que há 15 anos movimenta Belém no período do Círio. “E fizemos o primeiro fórum, onde era recebido as pessoas que têm interesse, pesquisadores, conhecedores de fora da Amazônia, para debatem com pessoas que vivem lá.”

 

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O que começou como uma resposta urgente ao apagamento amazônico se transformou no maior espaço de debate sobre a região no país. “Ano passado foi uma loucura, porque tinha coletivo de mulheres, de ribeirinhos, de quilombolas, coletivo trans discutindo o lugar na Amazônia com coletivos trans daqui”, conta Fafá, se referindo ao resto do país. O fórum, realizado em parceria com a Universidade Federal do Pará, já registra mais de mil inscritos para a edição de 2025, que acontece em outubro, nos dias 7 e 8, antecedendo o Círio de Nazaré. Neste ano, o tema é O Futuro da Amazônia é Agrora!. “Os alunos ganham ponto matéria extracurricular. Esses inscritos participam num debate, se colocam durante o debate, fazem perguntas, enfim. É muito vivo.”

 

Para Fafa, a pluralidade é o DNA desse encontro e é como ele tem sido pensado e construído. “Como não é fórum chapa branca, pode se falar de tudo e nós podemos colocar contrários quebrando pau, que é o que eu mais gosto”, afirma Fafá. Este ano, o painel mais desafiador será o de abertura do fórum sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, com defensores e opositores em debate mediado. “Todas muito preparadas e todas muito embasadas princípios e estudos para serem contras, para serem a favor, porque não adianta você ouvir só os seus ou só os outros, você não chega, você não caminha.”

 

Outros painéis vão abordar temas como os povos da floresta e futuro da Amazônia, a biodiversidade viva aliada ao conhecimento tradicional, o turismo consciente como base comunitária, a ciência e a educação na formação de líderes, a gastronomia como valorização do território, os eventos climáticos e os desafios pós-COP30. Esse é um tema caro para ela. Quando a COP30 foi confirmada para Belém, Fafá viu mais que uma conferência climática chegando à cidade. Enxergou a chance de um reconhecimento histórico que a Amazônia aguarda há décadas. “Nosso apagamento, o apagamento da Amazônia começa quando aderimos à República. Fomos lentamente tirados dos centros dos acontecimentos e viraram de costas para nós. O sudeste virou de costas para nós.”

 

A cantora relembra que Belém já foi uma das capitais culturais do Brasil, dividindo seu protagonismo com o Rio de Janeiro na época da borracha. “As grandes famílias do Marajó mandavam as roupas serem lavadas na Europa. Porque a água é barrenta. Belém é francesa, Belém é italiana e Belém é fundamentalmente portuguesa.” Esse passado de importância econômica e cultural contrasta com o abandono posterior. “Quando saí de Belém há 50 anos, àquela altura, o Brasil existia até a Bahia. Hoje ele chega até perto de Pernambuco. Mas a Amazônia continua sendo território desconhecido e como se fosse inapropriado.”

 

 

 

A crítica se estende aos artistas internacionais que falam da Amazônia sem conhecê-la. “Há uns três anos, quando o Coldplay esteve aqui, tinha imagem da Amazônia no show. Era o lugar, o Coldplay, a Amazônia. Eles tinham que fazer essa turnê dentro da Amazônia.” Para Fafá, solidariedade real significa presença física e investimento local: “Então tragam pessoas e apoiem, descubram as pessoas que eles possam apoiar.”

 

Com a COP30 logo ali, para ela, esse acontecimento representa uma oportunidade única de mudança e coloca um norte. “Acho que o tema mais quente é o reconhecimento do cidadão amazônico. Não tem nada mais quente do que isso. A Amazônia só terá solução a partir de ouvirem desde o homem simples, que não pode mais tomar banho de rio porque foi poluído, aos grandes pesquisadores.” A diferença desta COP, segundo ela, é geográfica e simbólica: “No caso de Belém, a COP acontece numa cidade que tem uma saída só. Só tem uma entrada de carro. A COP está na cidade.”

 

A cultura como ponte entre mundos

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 


Aos 69 anos e com 50 de carreira, Fafá de Belém se tornou muito mais que uma intérprete de sucessos como “Vermelho” e trilhas de novelas. Ela é uma guardiã da cultura amazônica e uma articuladora incansável de talentos regionais. “Não tenho conhecimento erudito ou acadêmico da Amazônia, tenho a vida na Amazônia“, define-se. É dessa vivência que nasce sua autoridade para falar sobre preservação cultural e ambiental. A Varanda de Nazaré, seu festival anual que deu origem ao fórum, se transformou numa vitrine da produção local. Nos primeiros anos, 90% dos artistas vinham de fora de Belém. Hoje, 95% são paraenses. A mudança mostra uma escolha consciente de valorização do talento local. “Cada espetáculo que eu fizer durante o período da COP, como faço há 15 anos na Varanda, levo essas pessoas. Pessoas que vivem de Belém e fazem a arte acontecer em Belém.”

 

A preocupação com a autenticidade cultural permeia todo o trabalho de Fafá como proposta de vida e de missõa. Ela conta sobre um artesão que fazia urnas tapajônicas no Santarém: “Encontrei com grande amigo, chamado Paulo Chaves Fernandes, que foi secretário de cultura e falei que era preciso preservar isso, antes que chegue de plástico da China.” A preservação não é nostálgica, mas urgente e uma atitude em relação ao artista. “Se esse menino que ajudava o avô dele a amassar e trabalhar as urnas, de repente é cooptado para ser outra coisa, ele abandona porque aquela urna não vende mais.”

 
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Nessa caminhada, e não por acaso, para Fafá, a música é o instrumento mais poderoso de transformação e no qual essa é mestre. “A música abre qualquer caminho. A música, quebra resistências, une corações, quebra a barreira da língua. A música é estado de magia.” Essa convicção move o fórum e a varanda, sempre emoldurados por apresentações musicais que vão do erudito ao tecnobrega, do carimbó às aparelhagens. “A gente chama para a reflexão, né? Mas nada é muito pesado.” O fato é que seu legado se constrói na teimosia de mostrar que a Amazônia não é apenas floresta ou alegoria. “Temos grupos que fazem cultura a sério. Cada espetáculo, Belém está lá sem qualquer tipo fantasiado de pena com uma delas de LED enfiada no ouvido.”

 

Fonte: com informações Forbes

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