Esse lugar de destaque não é simbólico. Trata-se de um conjunto de políticas públicas, práticas empresariais e cultura social que, juntas, produzem efeitos mensuráveis na economia, no mercado de trabalho e no tecido social do país.
A Islândia vem liderando rankings internacionais de igualdade por anos. No Relatório Global sobre a Lacuna de Gênero do Fórum Econômico Mundial a Islândia aparece no topo por mais de uma década e é a única economia que já fechou mais de 90% da sua lacuna de gênero, um indicador que mede diferenças em saúde, educação, participação política e oportunidades econômicas. Esse lugar de destaque não é simbólico. Trata-se de um conjunto de políticas públicas, práticas empresariais e cultura social que, juntas, produzem efeitos mensuráveis na economia, no mercado de trabalho e no tecido social do país.
A combinação de Estado de bem-estar robusto, legislação ativa e práticas institucionais tornou o avanço possível. Entre as medidas mais importantes estão leis de igualdade salarial que exigem certificação de empresas para comprovar políticas de remuneração igualitária, licenças parentais generosas e divididas entre mães e pais, políticas públicas de cuidado infantil e forte negociação coletiva que reduz disparidades salariais.
A legislação de 2018 que tornou a igualdade salarial obrigatória em empresas com 25 ou mais empregados é um exemplo de norma com efeitos práticos e fiscalizadores. Essas medidas criam incentivos para que tanto homens quanto mulheres participem de forma mais plena do mercado de trabalho e da vida pública.
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Impactos econômicos concretos
A igualdade ampliada tem vários canais pelos quais fortalece a economia. Primeiro, ao aumentar a participação feminina no mercado de trabalho e reduzir o hiato salarial, a Islândia amplia o pool de talento efetivamente utilizado, elevando a produtividade agregada. Segundo políticas que facilitam a conciliação entre trabalho e família, como creches acessíveis e licenças parentais partilhadas, reduzem saídas e interrupções na carreira feminina, melhorando o retorno sobre educação e experiência. Estudos sobre os países nórdicos mostram ainda que uma coordenação salarial forte e compressão dos salários contribui para menor desigualdade de renda, o que estabiliza consumo e reduz volatilidade macroeconômica. Em suma, igualdade gera crescimento mais inclusivo e resiliente.
Efeitos sociais: coesão, saúde e participação cívica
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Além da economia, a igualdade impacta indicadores sociais. Menor desigualdade costuma estar associada a melhores desfechos em saúde pública, menores taxas de pobreza relativa e maior coesão social. Quando as mulheres têm representação política e presença em cargos de decisão, as agendas públicas tendem a ampliar investimentos em serviços sociais, educação e saúde, beneficiando a população como um todo. A Islândia também coleciona marcos simbólicos que reforçam cultura e política: ações coletivas históricas, alta representação feminina na política e na gestão empresarial criaram um ciclo de normalização da igualdade. Esses ganhos sociais não são automáticos, exigem manutenção institucional e vigilância pública.
Limites e desafios persistentes
Mesmo no topo dos rankings, a Islândia enfrenta desafios. Há evidências de que lacunas persistem em determinados setores e níveis salariais, e que questões como violência de gênero e segregação ocupacional ainda exigem atenção. A igualdade legal e estatística não elimina instantaneamente preconceitos culturais ou resultados desiguais em profissões altamente remuneradas. Por isso a experiência islandesa é frequentemente apresentada não como um destino final, mas como um processo contínuo de políticas, cultura e fiscalização.
Lições para outros países
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Fotos: Reprodução/Google
O caso islandês aponta lições práticas: políticas públicas integradas são mais eficazes do que medidas isoladas; a participação masculina nas políticas de cuidado é crucial para equilibrar responsabilidades familiares; transparência salarial e mecanismos de certificação/fiscalização ajudam a transformar normas em práticas reais; e a negociação coletiva ou estruturas de mercado de trabalho influenciam fortemente a distribuição salarial. No entanto, as instituições e o contexto social dos países importam, e não existe uma “receita única”. Países que desejem reduzir desigualdades devem adaptar instrumentos ao seu arranjo institucional, sempre combinando normas, incentivos e investimentos em serviços.
A Islândia mostra que reduzir desigualdades é possível e traz benefícios palpáveis à economia e à sociedade. Igualdade não é apenas uma meta moral, é uma política econômica inteligente que amplia participação, aumenta produtividade, reduz vulnerabilidades sociais e melhora indicadores de bem-estar. Ao olhar para a Islândia, governos e empresas encontram tanto respostas pragmáticas quanto um lembrete: construir igualdade exige políticas contínuas, fiscalização e mudanças culturais sustentadas.
Fontes:
World Economic Forum Global Gender Gap Report 2024 e materiais correlatos.
Artigos e reportagens sobre a lei de igualdade salarial na Islândia (2018).
OECD Economic Survey: Iceland 2023.
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