Analistas especializados não acreditam em volatilidade elevada dos preços da commoditie por causa da ação militar deflagrada por Donald Trump no país que detém a maior reserva de óleo do mundo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou evidente a intenção do país com a retirada de Nicolás Maduro do poder na Venezuela e o controle de um governo provisório: explorar as reservas de petróleo da região, que são as maiores do mundo e ganham, inclusive, de nações do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Irã. Durante a coletiva realizada ainda no dia em que os ataques foram deflagrados no país sul-americano, o republicano disse que o governo vai incentivar as grandes empresas de petróleo norte-americanas a atuar no local. "(Vamos) arrumar a infraestrutura do petróleo, que está quebrada, e começar a levar dinheiro para o país", afirmou.
Apesar de deter a maior reserva petrolífera do planeta, a produção, na Venezuela, é muito inferior ao potencial que do país. Atualmente, o país é apenas o 15º produtor global, de acordo com dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A principal empresa venezuelana, a estatal PDVSA, possui uma infraestrutura sucateada há anos, que reduziu a capacidade técnica de operação na região. Com a chegada das empresas norte-americanas, Trump quer, inclusive, reduzir a influência da China no país, já que 80% do petróleo venezuelano é exportado para o gigante asiático.
A professora de relações internacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Regiane Bressan acredita que o petróleo é a principal razão, desde o início, para a entrada de Trump na Venezuela, e que a acusação de envolvimento da cúpula de governo com o narcotráfico foi apenas um pretexto para reduzir as resistências ao ataque. "A gente sabe que a Venezuela é um país autoritário, mas tampouco, não me parece que o governo dos EUA esteja querendo restabelecer a democracia", destaca a especialista.
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"Se fosse assim, nós poderíamos pensar que, imediatamente, os EUA defenderiam um novo pleito democrático, ou mesmo, que assumisse Edmundo González, vencedor das eleições passadas. Então, realmente, a prioridade é o petróleo. A destituição do governo venezuelano está ligada ao domínio da commoditie, porque a Venezuela passou a exportar esse bem para a China. E um governo autoritário detendo uma riqueza como essa constitui, para os EUA, uma ameaça", acrescenta Bressan.
"Efeito marginal"

Apesar de ser uma região estratégica para o mercado global de petróleo, analistas consultados pelo Correio acreditam que não deve haver um movimento brusco e substancial no preço da commoditie a médio ou longo prazo, mesmo com a entrada das empresas norte-americanas na região. O diretor de Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados, José Pimenta, acredita que pode haver apenas um efeito "marginal", mas, a depender dos novos capítulos que envolvem essa tensão geopolítica, ainda pode haver um forte viés de incerteza no longo prazo.
"No curto prazo, é um efeito importante, mas marginal, porque a Venezuela não figura nem entre os maiores produtores de petróleo no mundo. Agora, no longo prazo, a depender do que vai acontecer com a produção venezuelana de petróleo, isso sim, é que gera esse viés de incerteza, a entender como isso vai se desenrolar para saber se vai aumentar, diminuir ou paralisar a produção. Enfim, mais volatilidade e incerteza no sistema internacional", destaca Pimenta.
O analista de investimentos e especialista no setor de petróleo e gás Pedro Galdi também não acredita em um movimento radical. "Eu não estou convencido de que isso vai ser determinante para o preço do barril voltar a US$ 70, US$ 80. Pode ser que eu queime a língua. Eu acho que (a cotação) pode até subir um pouco na segunda-feira (hoje), mas é muito prematuro tudo isso", avalia Galdi, que acredita que o comércio ilegal de petróleo na região deve acabar ou reduzir consideravelmente — nesse caso, poderia causar um impacto mais substancial na dinâmica de preços. "Então, se o mercado falava que tinha superoferta, não vai ter queda, aí pode subir um pouco. Por isso que eu acho que vai mais nessa linha. Então, o preço sobe um pouco", comenta.

Galdi também acredita que as empresas dos Estados Unidos não devem ter tanta facilidade para começar a produzir no país sul-americano e considera o sucateamento atual da infraestrutura como um dos maiores empecilhos. "Não dá para você estalar o dedo e a Venezuela começa a exportar com nota fiscal direitinho do dia para a noite, até porque aquilo está tudo sucateado. O governo vendia gasolina internamente a centavos, há muito tempo, as empresas petroleiras estão destruídas financeiramente, então até arrumar demora tempo", considera o analista.
Produtores

Fotos: ReproduçãoGoogle
A Venezuela integra desde 1960 o seleto grupo de países-membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que também é composta por Argélia, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O grupo formado por nações que detêm grandes reservas da commoditie é conhecido por ser um dos mais influentes na formação dos preços. Ontem durante a manhã, a organização promoveu a primeira reunião periódica de 2026 e manteve a previsão de produção de petróleo inalterada. Os países evitaram discutir as crises políticas que afetam membros do grupo, inclusive, a Venezuela. Em queda, a commoditie desvalorizou 18% no ano passado.
Uma das medidas que Trump pode emplacar em um possível governo provisório na Venezuela é a saída do país sul-americano da Opep. Mesmo diante desse cenário, o professor de economia internacional da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Masimo Della Justina acredita em uma estabilidade de preços a longo prazo. "Isso dá uma calmaria no sentido de que a Opep perde forças para forçar a diminuição da oferta do petróleo e o aumento do preço no futuro. Em conclusão, mantendo-se estável o preço do petróleo, não haveria efeitos colaterais negativos de imediato na economia mundial", avalia o professor.
Além disso, o especialista não acredita em uma desvalorização das cotações do petróleo. "Em termos de logística global, uma presença maior dos Estados Unidos no nível militar e nos negócios no mundo do petróleo na América Latina é parte dessa reconfiguração global. O petróleo do Oriente Médio fica mais próximo da Ásia, e o petróleo da África e da América Latina fica mais próximo dos Estados Unidos. Considerando isso, além da perda de força da Opep e da produção da Venezuela, você teria uma acomodação do preço do petróleo", conclui Della Justina.
Fonte: Com informaões Correio Braziliense
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