Influenciadores pretos como Cardi B, Tems e Doechii, que têm incorporado o acessório a seus estilos em eventos de moda internacionais
A boina está de volta e com força total. Vista com broches, personalizada ou combinada a looks streetwear ou de grife, o acessório foi destaque na semana de alta-costura Outono/Inverno 2025/26 em Paris, e tem conquistado pessoas de todos os gêneros. Tradicionalmente feita de lã, ela reaparece no Brasil em versões mais leves, como o algodão, adaptando-se ao clima e aos novos estilos. Mais do que um item de moda, a boina se firma como símbolo de estilo e resistência, especialmente entre quem se inspira em artistas pretos. Em julho deste ano, Cardi B desfilou com uma boina preta em Paris, enquanto Tems brilhou com o acessório no desfile da Dior.
Já Doechii tem adotado o item como parte essencial de sua estética visual negra e ousada. Mas afinal, o que está por trás da retomada de um item aparentemente simples, mas cheio de camadas culturais e políticas?Segundo o pesquisador em teoria da moda Brunno Almeida Maia, “foi apenas no século XIX, com o avanço da industrialização, que a boina começou a ser fabricada em grande escala e ganhou popularidade.” Nesse período, o acessório destacou-se entre camponeses franceses e militares. Já no século XX, Coco Chanel adotou a peça como símbolo de modernidade, enquanto artistas como Picasso consolidaram seu status de ícone vanguardista.
A imagem de Che Guevara com a boina preta bordada por uma estrela se tornou um dos ícones máximos da luta anticolonial. Para Brunno, “a adoção da boina por grupos revolucionários, como o Che, está profundamente ligada à ideia de classe trabalhadora e à representação do campesinato, que carregam um forte simbolismo de luta e emancipação.
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”Nos Estados Unidos, a boina se torna ainda mais politizada a partir de 1966, quando o Partido dos Panteras Negras incorpora o acessório ao uniforme de seus integrantes. Fundado por Huey P. Newton e Bobby Seale, o movimento defendia o fim da brutalidade policial contra a população negra e promovia políticas de autodefesa, alimentação, saúde e educação em comunidades marginalizadas. Com forte inspiração nos guerrilheiros da Resistência Francesa e em líderes como Che Guevara, os Panteras transformaram a boina preta em um símbolo de disciplina, unidade e resistência.
Outras organizações, como os Young Lords e os Brown Berets, também adotaram versões da boina em suas lutas por justiça social. No Brasil, o dono da “chapelaria”, Denis Linhares, percebeu o aumento da procura pelas boinas impulsionado pelo estilo de artistas populares da música brasileira e pelo sucesso de séries como a britânica Peaky Blinders.Segundo ele, o acessório é o mais vendido em sua loja no Centro do Rio. “Boina é uma coisa contemporânea mesmo. Jorge Aragão, Djavan e Milton Nascimento usam boinas e as pessoas seguem esse caminho do artista.” Assim como acontece entre criadores negros da nova geração, a boina ressurge como símbolo de identidade, atravessando gerações e contextos.
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Fotos: Reprodução/Google
Essa contextualização passa também por vivências individuais. O ator Lorre Motta vê na boina uma ferramenta de reinvenção estética e ancestralidade. “Acho que dá pra brincar com esse estilo que mistura a vanguarda com o agora”, diz ele. Conta que começou a usar boinas recentemente, como alternativa prática nos dias em que prefere não mostrar o cabelo. “Especialmente sendo uma pessoa preta com cabelo crespo, é uma tecnologia de proteção, inclusive simbólica — do Ori.”
Com artistas negras com a boina ganha novos sentidos. “Há um deslocamento simbólico quando pessoas negras se apropriam da peça”, diz Brunno. Hoje, a tendência ultrapassa o visual. Ela veste história. E, quando essa história é contada por corpos negros, ela ganha camadas. Não de lã, mas de memória, resistência e estilo.
Fonte: com informações O Globo
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