Mais do que assistirem partos, elas desempenham um papel social, cultural e afetivo fundamental na vida das comunidades.
No interior da Amazônia, onde rios substituem estradas e a floresta impõe seus próprios ritmos, ainda existem mulheres que exercem um dos ofícios mais antigos da humanidade: ajudar outras mulheres a dar à luz. São as parteiras tradicionais — guardiãs de saberes ancestrais que atravessam gerações e continuam sendo essenciais em muitas comunidades ribeirinhas e rurais da região amazônica.
Em localidades distantes dos centros urbanos, onde o acesso a hospitais pode exigir horas ou até dias de viagem de barco, essas mulheres representam segurança, cuidado e esperança. Mais do que assistirem partos, elas desempenham um papel social, cultural e afetivo fundamental na vida das comunidades.
No contexto amazônico, o nascimento raramente é apenas um evento médico. Ele carrega significados coletivos, familiares e espirituais. E, muitas vezes, é conduzido pelas mãos experientes de parteiras que aprenderam o ofício observando suas mães, avós ou outras mulheres mais velhas da comunidade.
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Saberes que nascem da tradição

A atuação das parteiras tradicionais na Amazônia combina conhecimento empírico, práticas culturais e uma profunda conexão com a natureza. Muitas utilizam ervas medicinais, técnicas de massagem e métodos próprios para acompanhar a gestação e preparar a mulher para o parto. Esses conhecimentos, transmitidos oralmente ao longo de gerações, fazem parte do patrimônio cultural das populações amazônicas. Em muitas comunidades, a parteira conhece cada família, acompanha a gravidez desde o início e permanece ao lado da mulher durante todo o trabalho de parto.
Mais do que uma assistência técnica, existe uma relação de confiança construída ao longo do tempo. As parteiras são vistas como conselheiras, cuidadoras e, muitas vezes, líderes respeitadas dentro das comunidades.
Distância, desafios e resistência

Apesar da importância do trabalho dessas mulheres, a realidade das parteiras amazônicas é marcada por inúmeros desafios. A distância geográfica é um dos principais. Em várias regiões do Amazonas, o deslocamento até a unidade de saúde mais próxima pode levar muitas horas de barco. Durante o período de cheia ou seca dos rios, essas viagens podem se tornar ainda mais difíceis.
Diante desse cenário, muitas famílias recorrem às parteiras não apenas por tradição, mas também por necessidade. Elas estão presentes quando o parto acontece de madrugada, durante uma forte chuva ou quando não há transporte disponível para levar a gestante até uma cidade. Outro desafio é o reconhecimento institucional. Durante décadas, o trabalho dessas mulheres permaneceu invisível para grande parte das políticas públicas de saúde. Nos últimos anos, porém, programas de capacitação e iniciativas de integração entre parteiras tradicionais e o sistema de saúde começaram a surgir em algumas regiões da Amazônia.
Entre a tradição e a saúde pública
Diversos pesquisadores e profissionais da área de saúde têm defendido que o conhecimento das parteiras não deve ser ignorado, mas integrado às políticas de saúde materna. Estudos apontam que o diálogo entre medicina tradicional e medicina institucional pode melhorar a assistência às gestantes em áreas remotas. Algumas iniciativas promovem cursos de formação, distribuição de kits de parto e orientações sobre sinais de risco durante a gestação. Essas ações não buscam substituir o saber tradicional, mas fortalecer a segurança das mães e dos bebês. Além disso, o reconhecimento do trabalho das parteiras também representa um passo importante para valorizar o papel das mulheres nas comunidades amazônicas.
Guardiãs da vida e da memória
Em muitas comunidades da Amazônia, existem crianças, jovens e adultos que nasceram pelas mãos de uma parteira. Algumas dessas mulheres já ajudaram a trazer ao mundo três ou quatro gerações da mesma família. Esse vínculo cria uma memória coletiva poderosa. A parteira não é apenas alguém que participou de um nascimento. Ela faz parte da história de vida de cada pessoa que ajudou a nascer. Em um território marcado por distâncias, desafios logísticos e desigualdades sociais, essas mulheres continuam exercendo um papel silencioso e fundamental: garantir que novas vidas cheguem ao mundo com cuidado, dignidade e proteção.
Reconhecer o trabalho das parteiras amazônicas é também reconhecer a força das mulheres da floresta — mulheres que, mesmo diante de limitações estruturais, seguem cuidando da vida no coração da Amazônia. Mais do que uma prática tradicional, o trabalho dessas parteiras representa um encontro entre cultura, solidariedade e resistência. Em cada nascimento que acompanham, elas reafirmam um saber ancestral que continua pulsando nos rios e comunidades da maior floresta tropical do planeta.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
Para o Portal Mulher Amazônica, reconhecer o papel das parteiras amazônicas é também valorizar uma tradição que sustenta a vida em territórios muitas vezes esquecidos pelas políticas públicas. Essas mulheres representam resistência, sabedoria e compromisso comunitário. Elas carregam histórias que conectam passado, presente e futuro das populações ribeirinhas.
Enquanto o mundo discute inovação e tecnologia na medicina, nas margens silenciosas da Amazônia existem mulheres que continuam exercendo um dos ofícios mais antigos da humanidade: ajudar a trazer vidas ao mundo. E em cada nascimento acompanhado por essas parteiras existe mais do que um momento biológico — existe a continuidade de uma cultura, de uma comunidade e de uma forma única de viver na floresta.
Fontes:
Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS.
Fiocruz Amazônia. Pesquisas sobre parteiras tradicionais na região amazônica.
Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Estudos sobre saúde materna em comunidades ribeirinhas.
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Relatórios sobre saúde materna em áreas rurais da América Latina.
Instituto Socioambiental (ISA). Estudos sobre saberes tradicionais e comunidades amazônicas.
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