Isso representa 67% de todo o território amazônico, indicando que o crime organizado já é a principal força em vastas áreas da floresta tropical.
Um relatório inédito da Amazon Underworld revela um cenário alarmante: 662 dos 987 municípios amazônicos, distribuídos entre Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, estão sob influência direta de facções criminosas e grupos armados. Isso representa 67% de todo o território amazônico, indicando que o crime organizado já é a principal força em vastas áreas da floresta tropical.
A expansão das facções transformou a Amazônia em uma zona de conflito silencioso. Em muitas comunidades, especialmente nas regiões de fronteira, a violência e a exploração ilegal substituíram o Estado. Jovens são recrutados por redes de garimpo e narcotráfico, atraídos por pagamentos que superam qualquer oportunidade econômica local. Quem tenta resistir enfrenta ameaças ou a morte.
Segundo o relatório, 32% dos municípios afetados já convivem com mais de um grupo armado atuando simultaneamente. Ao todo, sete grandes organizações criminosas operam em mais de um país da região: Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC), Comandos de la Frontera, Segunda Marquetalia, Estado Mayor Central (EMC), Exército de Libertação Nacional (ELN) e Los Choneros.
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Nas áreas dominadas, as facções determinam toques de recolher, controlam rios e estradas e aplicam punições violentas a quem desobedece a suas ordens. Moradores são obrigados a portar “documentos” emitidos pelos próprios grupos, e práticas de “limpeza social” se tornaram comuns. Em muitas cidades amazônicas, o colapso institucional se reflete na superlotação das prisões e no avanço do consumo de drogas.
Alianças e fronteiras do crime

As alianças criminosas ultrapassam fronteiras nacionais. Grupos colombianos cooperam com facções brasileiras originárias de São Paulo e Rio de Janeiro. Em alguns casos, autoridades venezuelanas e forças de segurança locais colaboram com guerrilhas colombianas em operações de mineração ilegal de ouro. A instabilidade dessas alianças é constante. Em agosto de 2025, uma ruptura entre o ELN e a Frente Acácio Medina (dissidência das Farc) resultou em ataques mútuos na fronteira entre Venezuela e Colômbia, expondo a fragilidade das relações no submundo amazônico.
A ameaça global
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Mais do que um problema regional, o avanço do crime na Amazônia é uma ameaça direta à estabilidade climática global. A floresta armazena cerca de 34 bilhões de toneladas de carbono, mas com o desmatamento já atingindo 17% de sua cobertura original, o limite crítico de 20 a 25% — que tornaria a floresta uma fonte de carbono em vez de um sumidouro — está perigosamente próximo.
As comunidades indígenas, historicamente as mais comprometidas com a preservação ambiental, se tornaram alvos diretos das facções, pois suas práticas coletivas e sistemas de vigilância territorial dificultam o avanço das economias ilícitas.
Expansão do crime no Brasil
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No Brasil, a disputa pelo controle da Amazônia se intensificou nas últimas duas décadas. Após a fragmentação da Família do Norte, o Comando Vermelho (CV-AM) consolidou domínio sobre a tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, controlando rotas de tráfico e produção de cocaína. Já o PCC expandiu sua influência sobre a Rota Caipira, conectando a Bolívia aos portos brasileiros, especialmente o de Santos (SP), principal corredor de exportação de cocaína para a Europa, África e Ásia.
A facção paulista também se infiltrou no garimpo ilegal em Roraima, utilizando migrantes venezuelanos em atividades de mineração, segurança e prostituição forçada. Estima-se que o PCC tenha atualmente mais de 600 membros ativos na Venezuela e 150 na Bolívia, além de operar em Guianas e fronteiras amazônicas brasileiras.
Portos brasileiros e o tráfico internacional
O Brasil se tornou um eixo estratégico do tráfico global. 473 municípios amazônicos já apresentam presença confirmada de CV e/ou PCC, sendo 71% de todas as localidades analisadas pela Amazon Underworld. As duas facções transformaram portos brasileiros em plataformas essenciais para o comércio de cocaína, que abastece o mercado europeu avaliado em 11 bilhões de euros.
O maior carregamento de cocaína da história do país foi apreendido em Vila do Conde (Barcarena, Pará). Em Manaus, o Rio Solimões serve de principal rota de entrada da droga, que segue pelo Rio Amazonas rumo à exportação. Investigações apontam que o PCC penetrou em setores privados e logísticos, inclusive na cadeia de fornecimento de combustível e em instituições financeiras, o que lhe garantiu menções no Departamento do Tesouro dos EUA por envolvimento no comércio internacional de drogas.
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Fotos: Reprodução/Google
A Amazônia está sob ataque — não apenas ambiental, mas também social, político e criminal. Se o avanço das facções continuar nesse ritmo, a região poderá se transformar em uma zona de governança paralela, onde a lei é ditada por armas e economias ilícitas. A preservação da floresta e a segurança de seus povos exigem cooperação internacional imediata, com foco em políticas de segurança integradas, combate à lavagem de dinheiro e proteção aos defensores ambientais.
Fontes:
• Relatório Amazon Underworld 2025
• BBC News (edição internacional)
• Observatório de Criminalidade Transnacional na Amazônia
• ONU Meio Ambiente
• Human Rights Watch
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