30 de Abril de 2026

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Colunistas - 12/12/2025

A Zona franca de Manaus sob a ótica dos patrões

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Foto: Reprodução/Google/Montagem Portal Mulher Amazonica

Como estamos tratando de concepção, dispenso a fulanização, pois a ideia de um empresário (capitalista) reflete o pensamento dominante do sistema econômico.

Por Lúcio Carril - O patronato nem esperou o temporal de domingo passado para retrucar meu artigo sobre as disparidades entre o faturamento do distrito industrial e a pobreza imperante na capital do Amazonas. Tratou de entrar na microeconomia e na negação dos números para tentar camuflar o óbvio.

 

Como estamos tratando de concepção, dispenso a fulanização, pois a ideia de um empresário (capitalista) reflete o pensamento dominante do sistema econômico. Para sair do debate sobre a relação capital/trabalho, a escolha é e sempre foi pelo caminho da lamúria com os gastos com salários, os custos de operação, a logística, etc. Uma conversa pequena para não encarar a questão fundamental.

 

Um desses empresários chega a dizer que a média salarial do PIM é de 3.400 reais e esse valor "situa-se entre os setores que melhor remuneram na economia amazonense". Uma comparação rasa, tendo como referência a mais-valia absoluta, como aquela que domina o comércio varejista de Manaus. Pouco mais de dois salários mínimos como sinal de "bom pagamento" é a cara da exploração exacerbada e cínica.

 

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Ainda no artigo publicado pelo patrão, para tentar justificar o "boom" no faturamento do PIM em 2025 e a injustificável pobreza de mais de 60% da população manauara, o problema social é jogado para a política. Não acho que seja por ignorância, mas se trata de um recurso discursivo para encobrir a desigualdade provocada por relações profundas de exploração do trabalhador do distrito industrial e de outros ramos da economia amazonense.

 

O problema é econômico. Isso está na economia clássica, desde Adam Smith. O empresário sabe disso. Está na relação capital/trabalho, no lucro excessivo obtido a partir da força de trabalho do operário e de todo trabalhador. A política é um aporte do sistema econômico, pronto para lhe oferecer benesses, incentivos e isenções fiscais. Na visão capitalista clássica é assim, mas o sistema não foi criado para se manter imutável. O capital tem que ter outras funções, que não seja a da busca tresloucada pelo lucro, senão "um dia a cada cai".

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Outro empresário, este do ramo da manipulação digital de dados, enveredou pelo caminho que já percorre há décadas e que lhe rendeu fortuna: Negar as estatísticas e manipular os números. Não fui eu que disse que Manaus tem o pior rendimento familiar per capita entre todas as capitais do Brasil, foi o IBGE e com farta divulgação pela mídia. Também não fui eu que disse que Manaus tem a 4ª e a 7ª maiores favelas do país, foi o Censo 2022 do IBGE. Cidade de Deus/Alfredo Nascimento tem 55.851 moradores e a Comunidade São Lucas tem 53.674 moradores. A Rocinha, no Rio de Janeiro, é a maior do Brasil, com 72.021 moradores. Não sou eu que tenho o hábito de deformar estatísticas.

 

Os resultados do Censo 2022, do IBGE, continuam sendo publicados. Não é exclusividade minha conhecer os números, mas não me venham negar os dados, numa tentativa pueril de camuflar um problema que é resultado da extrema desigualdade social no país, provocada pela concentração de renda. Sei que faturamento não é lucro, mas não me venham dizer que dos 200 bilhões faturados pelas empresas do distrito industrial de Manaus, poucas centenas de patrões não vão embolsar pelo menos 10% desse valor, ou seja, 20 bilhões de reais.A ótica do patronato é aquela de que emprego é dádiva do empresariado e não um recurso para lhe gerar lucro. A oferta de 130 mil empregos, com salário médio de 3.400 reais, e o faturamento de mais de 200 bilhões de reais das empresas é a prova de que o trabalhador fica apenas com o valor de duas ou três horas trabalhadas por dia. O restante das horas (5,6 horas) vira lucro para o dono da indústria. Isso é exploração extrema. Bem que o trabalhador poderia receber um salário por mais horas trabalhadas, numa jornada 5x2, no mínimo.

 
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Concluo, agradecendo as inúmeras mensagens, comentários em redes sociais, ligações que recebi me parabenizando pelo texto corajoso de meter o dedo na ferida, já que políticos, acadêmicos e líderes sindicais permanecem calados, sem discutir qual modelo econômico pode gerar mais qualidade de vida para nossa gente. Do jeito que está, o Polo Industrial de Manaus apenas reproduz pobreza.

 

Lúcio Carril
Sociologo 

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