Atualmente, o Brasil possui 88 facções ativas, sendo que apenas o PCC e o Comando Vermelho têm ramificações fora do país
Nos últimos meses, o Brasil registrou uma série de assassinatos brutais motivados por gestos simples que, em algumas regiões, são interpretados como códigos de facções criminosas. De acordo com dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), esses grupos não apenas disputam territórios, mas também se apropriam de símbolos culturais e gestos, transformando-os em marcas de poder. A falta de conhecimento sobre essas associações têm colocado jovens e até crianças em situações de extremo perigo. Especialistas são unânimes ao afirmar que as ações das facções criminosas no país vêm aumentando a cada ano e que a expansão de suas atividades ocorre, em parte, pela insuficiência de ações do Estado.
Os símbolos utilizados por facções criminosas no Brasil, como o "V", do Comando Vermelho (CV), e o gesto de três dedos associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), são marcas de poder e identidade dentro e fora dos territórios controlados por essas organizações. O "V", que simboliza vitória, foi apropriado pelo CV para representar sua força e presença, enquanto o gesto de três dedos é utilizado pelo PCC como uma forma de reconhecimento interno entre seus membros. Embora pareçam inofensivos, esses gestos carregam significados profundos nas áreas dominadas pelas facções e, quando utilizados inadvertidamente, podem ser vistos como provocações, colocando vidas em risco. A disseminação desses símbolos tem amplificado os perigos.
Na sexta-feira, um homem de 40 anos foi morto na comunidade do Catiri, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. De acordo com testemunhas, ele foi confundido por traficantes com um miliciano porque vestia uma roupa preta.
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Foto: Reprodução/Google
O professor Maurício Stegemann, especialista em Direito Penal e Criminologia da Universidade de São Paulo (USP), destaca que a urbanização excludente das grandes cidades brasileiras é um dos fatores que contribuem para a territorialização dos espaços marginalizados. Segundo ele, essa dinâmica cria fronteiras que favorecem vínculos de solidariedade mecânica entre os moradores dessas áreas. "Esses vínculos são reforçados por símbolos próprios, utilizados como forma de identificação entre os membros de cada grupo ou facção", explica Stegemann, ao apontar que os símbolos utilizados pelas facções não são apenas marcas de pertencimento, mas também ferramentas de diferenciação.
O sociólogo Marcelo Senise ressalta que a utilização de símbolos pelas facções criminosas é um fenômeno contemporâneo, mas com raízes históricas. "Os símbolos, antes vistos como comuns, são transformados em ferramentas de controle social. É como um marketing que legitima sua presença territorial e intimida quem não faz parte do grupo", afirma o sociólogo.
O especialista ressalta que a apropriação de gestos simples, como o "V de vitória" e outros sinais, é também uma estratégia midiática das facções. "Essas ações têm um objetivo claro de ganhar as páginas de jornal, reafirmar a presença do grupo e demonstrar poder tanto para a sociedade quanto para facções rivais", analisa.
Gabriel Ferreira, criminalista e mestre em Direitos Humanos, reforça que a apropriação de práticas culturais, como cortes de cabelo e riscos na sobrancelha, reflete o domínio simbólico das facções. "Hoje, qualquer escolha estética ou gestual pode ser perigosa dependendo da região onde você está", afirma, ressaltando que essa apropriação cultural demonstra a ausência do Estado em áreas vulneráveis.
Fonte: com informações do Correio Braziliense
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