Quando as curtidas não vêm, entra em cena a vitimização: terceiriza-se a culpa, a frustração e até a responsabilidade pela própria vida.
A recente repercussão do vídeo do youtuber Felca, que denunciou a adultização precoce de crianças, trouxe à tona um problema urgente e legítimo. Mas, ao virar a câmera, percebemos um fenômeno paralelo e igualmente preocupante: a infantilização dos adultos.
Vivemos uma era em que homens e mulheres adultos se comportam como adolescentes em busca de aprovação constante. Gente grande pedindo colo do algoritmo, fazendo dancinhas coreografadas, usando filtros de unicórnio e moldando opiniões para caber no feed. Não se trata apenas de entretenimento inocente — é uma estratégia calculada para ganhar palminhas digitais. Quando as curtidas não vêm, entra em cena a vitimização: terceiriza-se a culpa, a frustração e até a responsabilidade pela própria vida.
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O infantilismo corporativo
Nas empresas, o cenário é igualmente ilustrativo. Reuniões se transformam em assembleias para decidir o óbvio. Profissionais evitam tomar decisões alegando “não estar prontos”. Gestores hesitam em dar feedback sem antes buscar uma espécie de “manual de aplauso”. Muitos exigem direitos infantis enquanto fogem dos deveres adultos. KPI virou palavra mágica para mascarar insegurança e falta de coragem, e a ética se tornou tão flexível quanto gelatina.
Relações líquidas, compromissos frágeis
Fotos: Reprodução/Google
No campo afetivo, o padrão se repete. Relações tratadas como aplicativos: instala-se, usa-se, desinstala-se. Responsabilidade emocional virou um item opcional. Crescer exige esforço — e esforço não dá like.
Proteger crianças da adultização exige, antes, impedir que adultos regridam. A saída está em resgatar práticas simples: silenciar o ruído, reunir-se à volta de uma fogueira — metafórica ou literal —, olhar nos olhos, ouvir mais do que falar. Reconstruir a lógica básica de causa, efeito e consequência.
Ser adulto não é apenas uma questão de idade no RG; é uma postura de vida. É colocar a responsabilidade acima da plateia. É entender que liberdade custa caro — e que a moeda de troca é o compromisso. Se quisermos uma sociedade menos vulnerável e mais sólida, precisamos de menos performance e mais caráter. Menos avatar, mais gente.
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