04 de Maio de 2026

NOTÍCIAS
Especial Mulher - 28/04/2025

Três mulheres, símbolos da Resistência contra o Silenciamento Feminino na Literatura

Compartilhar:
Foto: Reprodução/Google/Montagem Portal Mulher Amazonica

Poderíamos escrever e citar dezenas de mulheres que se firmaram na literatura brasileira depois dessas três intrépidas e talentosas representantes da força feminina, mas fica aqui nosso respeito e lembrança a elas.

Por Maria Santana Souza - Júlia Lopes de Almeida, nascida na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro, foi escritora, cronista, teatróloga e militante abolicionista. De talento reconhecido, foi a única mulher a participar do grupo que idealizou a Academia Brasileira de Letras, mas foi impedida de participar de ocupar uma de suas cadeiras porque era mulher e na Académie Française de Lettres, modelo para a ABL, não eram aceitas mulheres. Simples assim, como numa clonagem de um paralelepípedo.

 

No seu lugar, a Academia deu uma cadeira ao seu marido, o escritor Filinto de Almeida. Júlia, além de ser mulher, era republicana, defendia os direitos civis, o divórcio, a educação formal de mulheres e lutava contra a escravidão. Sua luta e indignação são retratadas nas suas obras. Nasceu e viveu numa época de total silenciamento feminino, onde o ofício de escrever era chamado de "coisa de homem".

 

80 anos depois da fundação da ABL, um mulher séria empossada na academia: a escritora Rachel de Queiroz, cuja carreira de romancista começou em 1930, com o livro O Quinze.

 

Veja também 

 

Mulheres ganham 20,9% a menos que os homens no Brasil, aponta relatório do governo

Conselho de Administração do Banco do Nordeste elege a primeira mulher como presidente

Júlia Lopes de Almeida

 

Até meados do século XIX, a mulher não tinha direito a educação formal e sequer era alfabetizada. Quando passou a frequentar a escola, não era aceita no sistema público, ainda incipiente, e apenas aquelas cujas famílias podiam e aceitavam pagar uma escolar particular podiam ter acesso às primeiras letras.

 

Esse silenciamento opressor e indigno perdurou por séculos no Brasil, trancafiando a voz e a escrita feminina em lares infelizes, prisões permitidas pela moral vilipendiosa e pelo patriarcado edificado sobre a estrutura da desigualdade. Lendo o artigo Mulheres Brasileiras na Literatura: a Importância do Resgate, de Lara Berruezo, me deparei com uma pérola do grande escritor brasileiro, Olavo Bilac, em carta escrita à sua noiva Amélia Oliveira.

 

 

"Minha Amélia Antes de tudo, quero dizer-te que te amo, agora mais do que nunca, que não me sais um minuto do pensamento, que és a minha preocupação eterna, que vivo louco de saudade, (...) Não me agradou ver um soneto teu (...) desagradou-me a sua publicação. Previ logo que andava naquilo o dedo do Bernardo ou do Alberto. Tu, criteriosa como és, não o farias por tua própria vontade (...).

 

Há uma frase de Ramalho Ortigão, que é uma das maiores verdades que tenho lido. " - o primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida" - Não é uma grande verdade? (...) há em Portugal e Brasil cem ou mais mulheres que escrevem. Não há nenhuma delas de quem não se fale mal, com ou sem razão (...) Não quer isto dizer que não faças versos, pelo contrário. Quero que os faça, muitos, para os teus irmãos, para as tuas amigas, e principalmente para mim, - mas nunca para o público (...). Teu noivo Olavo Bilac São Paulo, 7 de fevereiro de 1888".

 

Essa era a conduta da sociedade nos séculos anteriores e décadas após, até a semana da arte moderna escancarar o talento artístico de mulheres que mantinham viva a sua arte e o seu pensamento emancipador. Foi assim que saíram da invisibilidade escritoras como Carolina Maria de Jesus, primeira escritora negra do Brasil, favelada em São Paulo, empregada doméstica, que escrevia em pedaços de papel achados no lixo, de onde saiu sua obra Quarto de Despejo, um relato da vida na favela. Em 1955, Carolina escrevia:

 

 

Carolina Maria de Jesus

 

"Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.

 

 

Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi em 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se."

 

A resistência à invisibilidade na literatura como escritora se deu através dessas mulheres. Muitas escreviam com codinomes masculinos, para fugir da perseguição e da exclusão social. Outras, enfrentaram a dureza machista do seu tempo, desafiando valores morais, sociais e políticos dominantes.

 

 

Maria Firmina dos Reis

 

Maria Firmina dos Reis, professora, abolicionista, publicou em 1859 o primeiro romance abolicionista brasileiro, Úrsula, com personagens negras, que contratavam o regime escravocrata. Criou, no mesmo período, a primeira escola mista do país, com meninas e meninos estudando no mesmo espaço. Como as mulheres eram reprimidas como escrituras, seus escritos, mesmo seus diários, eram destruídos e hoje ainda sabemos pouco sobre a vida de Maria Firmina.

 

 

Poderíamos escrever e citar dezenas de mulheres que se firmaram na literatura brasileira depois dessas três intrépidas e talentosas representantes da força feminina, mas fica aqui nosso respeito e lembrança a elas.

 

Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no FacebookTwitter e no Instagram

Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.

 

Maria Santana Souza é Jornalista, sob o nº 001487/AM, diretora-presidente do Portal Mulher Amazônica e apresentadora do podcast Ela.

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.