Mas reduzir Kusama às suas bolinhas é perder justamente o que existe de mais interessante em sua trajetória. Por trás da repetição havia uma necessidade
Por trás das bolinhas, espelhos e instalações que parecem infinitas, existe uma artista que transformou experiências pessoais, conflitos, feminilidade, solidão e a própria percepção do universo em uma das obras mais reconhecidas da arte contemporânea. Durante muito tempo, Yayoi Kusama foi apresentada ao grande público como a artista das bolinhas. A imagem é fácil de reconhecer: superfícies cobertas por pontos, abóboras amarelas, salas de espelhos, luzes que parecem não ter fim e instalações nas quais o visitante deixa de saber exatamente onde termina o próprio corpo e começa a obra.
Mas reduzir Kusama às suas bolinhas é perder justamente o que existe de mais interessante em sua trajetória. Por trás da repetição havia uma necessidade. Por trás do infinito havia uma pergunta sobre a existência. E por trás de uma estética que poderia parecer divertida e pop havia uma artista que passou décadas transformando experiências profundamente pessoais em uma linguagem capaz de alcançar milhões de pessoas.
Yayoi Kusama nasceu em 1929, em Matsumoto, no Japão, e começou a produzir desenhos ainda criança. Desde muito cedo, relatava experiências visuais e auditivas que influenciariam profundamente sua produção artística. Os pontos, redes e padrões que mais tarde se tornariam sua marca nasceram também dessa maneira particular de perceber o mundo.
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As bolinhas não eram apenas bolinhas

Talvez seja essa a primeira coisa que precisamos desaprender quando olhamos para uma obra de Kusama. Seus pontos não foram criados apenas para decorar superfícies. A repetição era parte de uma experiência artística e existencial. Em suas chamadas Infinity Nets, as redes são construídas por pequenos movimentos repetidos, sem um centro evidente, criando a sensação de que a pintura poderia continuar indefinidamente. O Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, explica que Kusama desenvolveu esse motivo ainda no início de sua trajetória em Nova York, utilizando a repetição para explorar a ideia de espaço infinito. A própria artista relacionava esse processo à sensação de desaparecer dentro da repetição, conceito que chamou de “self-obliteration”, ou autoapagamento. É uma ideia poderosa: diante de algo infinitamente maior do que nós, o indivíduo deixa de ocupar o centro. A pessoa se torna um ponto. E o ponto, sozinho, parece pequeno. Mas milhões de pontos podem formar um universo.
Uma mulher japonesa em um mundo da arte dominado por homens
Existe ainda uma dimensão da história de Kusama que não pode ser separada de sua obra: ela era uma mulher asiática tentando construir uma carreira em um ambiente artístico internacional dominado por homens e marcado pela centralidade dos Estados Unidos e da Europa. Em 1957, ela deixou o Japão e foi para os Estados Unidos. No ano seguinte, estabelecida em Nova York, começou a apresentar as pinturas que dariam origem às suas famosas redes infinitas. Ela chegou a uma cena artística em que nomes masculinos ocupavam grande parte do espaço e construiu uma linguagem que não se encaixava facilmente nas categorias existentes. Kusama não se limitou à pintura. Produziu esculturas, instalações, performances, filmes, escritos e happenings. Também realizou manifestações de caráter político e ações de protesto contra a Guerra do Vietnã durante os anos 1960. Sua presença naquele ambiente não era apenas artística. Era também uma forma de resistência.
Quando o corpo feminino deixou de ser apenas objeto

Uma parte menos conhecida de sua produção está nas esculturas que criou no início dos anos 1960. Em Accumulation No. 1, de 1962, Kusama cobriu uma poltrona com dezenas de formas que ela própria identificava como falos, produzidas manualmente e repetidas até transformar completamente o objeto doméstico. O MoMA classifica essa obra como parte de uma série de esculturas de caráter feminista. A artista pegou um símbolo historicamente associado ao poder masculino e o reproduziu obsessivamente até que ele se tornasse quase absurdo. Não era apenas provocação. Era também uma maneira de questionar o poder, a sexualidade e a posição da mulher em uma sociedade em que o corpo feminino frequentemente aparecia como objeto de representação, enquanto o homem permanecia muito mais frequentemente na posição de autor, observador e sujeito. Kusama inverteu essa lógica. Ela não pediu licença para falar sobre o corpo. Ela colocou o corpo, o desejo, o desconforto e a sexualidade dentro da própria linguagem artística.
O infinito como resposta ao medo de desaparecer
As instalações de espelhos levariam essa ideia ainda mais longe. Nas chamadas Infinity Mirror Rooms, o visitante entra em um ambiente no qual espelhos, luzes e objetos repetidos criam a sensação de um espaço que não termina. A pessoa olha para o próprio reflexo e, em vez de encontrar apenas a si mesma, encontra inúmeras versões de si. É uma experiência aparentemente encantadora, mas também inquietante. O Smithsonian explica que, nessas instalações, o corpo do visitante participa da obra e simultaneamente parece desaparecer dentro daquele espaço infinito. Algumas dessas obras estão diretamente relacionadas às reflexões de Kusama sobre a transitoriedade da vida e a inevitabilidade da morte. Talvez seja por isso que suas instalações provoquem uma reação tão particular. Primeiro queremos fotografar. Depois começamos a perceber que estamos olhando para nós mesmos. E então surge uma pergunta muito menos confortável: quem somos quando deixamos de ser o centro?
A arte como maneira de sobreviver

Seria fácil transformar a trajetória de Kusama em uma história romantizada sobre sofrimento e genialidade. Mas sua relação com a própria arte é mais complexa. Ela encontrou na criação artística uma forma de organizar experiências que muitas vezes eram difíceis de suportar. Os padrões, pontos e redes que apareciam em suas percepções foram transformados em matéria, cor, espaço e repetição. A própria artista descreveu a produção como uma forma de enfrentar essas experiências. Isso não significa que sua arte possa ser reduzida à saúde mental. Kusama foi muito mais do que suas experiências psicológicas. Ela foi uma artista, escritora, performer e mulher que construiu uma linguagem própria durante décadas. Talvez o mais importante seja justamente não transformar sua dor em espetáculo. O que ela fez foi transformar aquilo que poderia permanecer apenas como sofrimento em criação.
Uma mulher que decidiu não desaparecer
Depois de retornar ao Japão em 1973, Kusama continuou trabalhando e, a partir de 1977, passou a viver voluntariamente em uma instituição psiquiátrica em Tóquio, mantendo um estúdio próximo onde continuou produzindo. Sua carreira, porém, estava longe de terminar. Nas décadas seguintes, sua obra ganhou reconhecimento internacional cada vez maior. Museus passaram a dedicar grandes exposições ao seu trabalho. Suas instalações chegaram a diferentes países. Suas abóboras se tornaram imagens reconhecidas mundialmente. E as salas de espelhos transformaram a relação entre arte e público. O que antes poderia ser visto como estranho, excessivo ou difícil de classificar tornou-se uma das linguagens visuais mais populares da arte contemporânea. E existe uma ironia bonita nisso. A artista que passou boa parte da vida falando sobre desaparecer acabou criando obras nas quais ninguém consegue deixar de olhar para si mesmo.
O que Yayoi Kusama dizia ao mundo?

Fotos: Reprodução/Google
Talvez Kusama nunca tenha oferecido uma única resposta. Sua obra não funciona como um cartaz com uma mensagem simples. Ela provoca. Os pontos podem falar sobre infinitude. As redes podem falar sobre repetição. Os espelhos podem falar sobre identidade. O apagamento pode falar sobre a dissolução do ego. As esculturas podem questionar sexualidade e poder. As instalações podem colocar o indivíduo diante da própria pequenez. E a repetição pode ser, ao mesmo tempo, obsessão, disciplina, resistência e criação. Existe algo profundamente humano nessa contradição. Queremos ser vistos, mas também queremos desaparecer. Queremos pertencer, mas temos medo de perder nossa individualidade. Queremos controlar a vida, embora saibamos que não podemos controlar o tempo. Queremos entender o universo, embora sejamos apenas um pequeno ponto dentro dele. Talvez seja justamente por isso que a obra de Kusama tenha ultrapassado os limites do mundo da arte.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
Para o Portal Mulher Amazônica, Yayoi Kusama não deixou apenas uma estética reconhecível. Deixou uma maneira diferente de pensar a relação entre arte, identidade, corpo, infinito, existência e percepção. Sua obra atravessou diferentes movimentos da arte contemporânea, como o expressionismo abstrato, o minimalismo, a pop art e a arte feminista, sem se deixar encaixar completamente em nenhum deles. Mas talvez seu legado esteja justamente naquilo que não pode ser reduzido a uma classificação artística. Kusama transformou experiências pessoais, inquietações e sua própria maneira de perceber o mundo em uma linguagem que ultrapassou fronteiras e gerações. E há uma razão para que suas obras continuem provocando tanta gente: elas não dizem apenas “olhe para mim”. Elas parecem fazer uma pergunta muito mais profunda: “O que você vê quando olha para si mesmo?” Essa pergunta talvez seja uma das maiores heranças de Kusama. Porque, diante de seus espelhos, pontos e espaços infinitos, o espectador deixa de ser apenas alguém que observa uma obra e passa a fazer parte dela. E talvez seja justamente aí que a arte deixa de ser apenas aquilo que vemos e passa a revelar aquilo que somos.
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Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica com base em informações biográficas, registros de museus, acervos de instituições de arte e documentos relacionados à trajetória e à produção artística de Yayoi Kusama, com abordagem jornalística voltada à arte, à trajetória das mulheres e às diferentes formas de expressão feminina no mundo.
Fontes:
Yayoi Kusama Official Website
The Museum of Modern Art (MoMA)
Museum of American Art e Yayoi Kusama Museum
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