Renan Santos chama ZFM de ?irracionalidade atroz? e defende acabar com incentivos e substituir indústria que faturou R$ 121,76 bilhões no primeiro semestre.
O candidato à Presidência da República Renan Santos, do Missão, voltou a atacar a Zona Franca de Manaus (ZFM) e defendeu o fim dos incentivos fiscais que sustentam o principal modelo econômico do Amazonas e da região Norte. Durante sabatina promovida pelo Estadão, Renan classificou a ZFM como o exemplo “mais anedótico” da política de incentivos do país e chamou a manutenção do modelo de “irracionalidade atroz”.
O candidato também descreveu a estrutura produtiva construída em Manaus ao longo de quase seis décadas como uma “bolha de uma economia artificial”. As declarações colocam a ZFM no centro da disputa presidencial e sinalizam que, se eleito, Santos poderá tentar desmontar ou esvaziar incentivos garantidos pela Constituição até 2073. A posição atinge diretamente mais de 550 indústrias e aproximadamente 131 mil empregos diretos mantidos pelo polo industrial da ZFM. Somente no primeiro semestre de 2026, as fábricas faturaram R$ 121,76 bilhões, segundo a Suframa.
Alternativas sem plano definido
Ao defender a retirada dos incentivos, Santos sugeriu que os trabalhadores atualmente empregados nas fábricas poderiam migrar para atividades como “logística leve”. O candidato também mencionou a possível criação de um polo petroquímico entre o Amazonas e o Amapá. Entretanto, não apresentou estudos, fontes de financiamento, prazos ou estimativas de empregos capazes de demonstrar que essas atividades substituiriam a estrutura industrial existente. A proposta representa, portanto, a troca de uma economia que já emprega milhares de trabalhadores e movimenta uma extensa cadeia nacional de fornecedores por alternativas ainda incertas. Além dos empregos diretos, o polo industrial da ZFM demanda peças, matérias-primas, transporte, tecnologia e serviços produzidos em diferentes estados brasileiros.
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Número sobre Honda sem respaldo
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Essa não foi a primeira manifestação de Santos contra o modelo. Em agosto, durante outra sabatina, o candidato afirmou que somente a Moto Honda receberia R$ 16 bilhões por ano em renúncia fiscal. O dado não foi acompanhado de fonte ou metodologia. A estimativa oficial do governo federal para 2026 aponta R$ 13,76 bilhões em gastos tributários para toda a Zona Franca de Manaus. Trata-se de valor inferior ao atribuído pelo candidato a uma única empresa.
Dados divulgados anteriormente pela Receita Federal também mostraram que a Honda acumulou cerca de R$ 460,2 milhões em benefícios relacionados à localização na ZFM entre janeiro e agosto de 2024, muito distante dos R$ 16 bilhões mencionados pelo candidato a presidente do país. Embora os números envolvam períodos e metodologias diferentes, eles evidenciam que a cifra apresentada pelo candidato precisa ser comprovada.
Proteção até 2073
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A ZFM não é um benefício que possa ser simplesmente eliminado por decisão isolada do presidente da República.A emenda constitucional 83 prorrogou sua vigência até 2073. A reforma tributária também preservou mecanismos destinados a manter o diferencial competitivo do modelo. Uma tentativa de desmonte exigiria, portanto, enfrentamento jurídico, mudanças no Congresso Nacional e ruptura de um pacto federativo estabelecido pela própria Constituição. Os incentivos compensam custos logísticos, energéticos e de infraestrutura enfrentados por uma indústria instalada no centro da maior floresta tropical do planeta e distante dos principais mercados consumidores do país.
Economia e floresta

Fotos: ReproduçãoGoogle
Ao reduzir a zona franca a uma “bolha artificial”, Santos ignora ainda a relação entre geração de empregos urbanos e preservação ambiental. O modelo concentra em Manaus uma atividade econômica de alta produtividade e menor pressão territorial do que alternativas extensivas associadas à derrubada da floresta. Isso não significa que a ZFM resolva, sozinha, os problemas ambientais da região, mas seu desmonte sem uma alternativa comprovada ampliaria a vulnerabilidade econômica e social do Amazonas. A hipótese de substituir empregos industriais por uma atividade petroquímica também expõe uma contradição ambiental na proposta do candidato: critica-se o atual modelo, associado à manutenção da floresta em pé, para sugerir uma economia ligada à expansão de combustíveis fósseis.
Silêncio também será posição
As declarações desafiam a bancada do Amazonas no Congresso e entidades da indústria do estado, como Fieam e Cieam, a responderem institucionalmente. Mais do que rebater os adjetivos utilizados pelo candidato, cabe às lideranças exigir a apresentação dos dados que fundamentam suas afirmações e explicar quais seriam os impactos da proposta sobre empregos, arrecadação, fornecedores e preservação ambiental. Em uma eleição presidencial, o que está em discussão não é apenas a opinião de Renan Santos sobre a ZFM. É o risco de transformar uma retórica desdenhosa sobre o Amazonas em programa de governo.
Fonte: com informações BNC Amazonas
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