22 de Julho de 2026

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Direitos da Mulher - 09/07/2026

Que país deixamos de construir quando a misoginia é tolerada?

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Foto: Reprodução/Google/Montagem Portal Mulher Amazonica

Combater essas manifestações significa impedir que a violência se fortaleça antes mesmo de chegar às formas mais extremas.

Quando uma mulher deixa de ocupar um cargo por medo, abandona um sonho para escapar da violência ou aprende desde menina que precisa viver em estado permanente de alerta, quem perde não é apenas ela. O país inteiro perde.

 

Existe um Brasil que ainda não nasceu.


Não porque lhe faltem recursos naturais, tecnologia ou capacidade de produzir riqueza. Mas porque milhões de mulheres ainda vivem condicionando seus passos ao medo. É um país onde meninas aprendem, muito cedo, que existem lugares onde não devem andar sozinhas, horários em que é melhor não sair, roupas que podem gerar julgamentos e silêncios que parecem mais seguros do que denúncias.

 

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Essa realidade não aparece apenas nas estatísticas policiais. Ela molda escolhas profissionais, interrompe carreiras, limita sonhos, altera rotinas e influencia decisões que passam despercebidas pela maioria das pessoas.A pergunta talvez não seja apenas quantas mulheres sofrem violência todos os anos. A pergunta é: quanto o Brasil deixa de crescer porque tantas mulheres precisam gastar energia apenas tentando permanecer seguras?

 

A misoginia custa muito mais do que imaginamos

 

 


Quando se fala em misoginia, muitas pessoas pensam apenas em discursos de ódio ou em casos extremos que ganham repercussão nacional. Mas especialistas em Psicologia, Sociologia e Segurança Pública explicam que ela costuma aparecer de maneira muito mais discreta. Está na piada que diminui a capacidade intelectual de uma mulher.

 

Na profissional constantemente interrompida durante reuniões.
Na candidata que recebe ataques por sua aparência em vez de suas propostas.
Na jornalista ameaçada por exercer seu trabalho.

 

Na adolescente que aprende a aceitar relacionamentos controladores porque acredita que ciúme é prova de amor.Esses episódios, vistos isoladamente, podem parecer pequenos. Somados, constroem uma cultura que normaliza a desigualdade e cria o ambiente onde formas mais graves de violência encontram espaço para acontecer. A violência física raramente começa no primeiro tapa. Antes dele, quase sempre vieram o controle, a humilhação, o isolamento, o medo e a tentativa de retirar da mulher sua autonomia.

 

O país também perde talentos

 

  


Existe outro impacto sobre o qual pouco se fala.

 

Quantas cientistas deixaram de pesquisar?
Quantas empresárias desistiram de empreender?
Quantas políticas abandonaram a vida pública depois de campanhas de ataques virtuais?
Quantas meninas trocaram um sonho por uma escolha considerada “mais segura”?

 

Não existe estatística capaz de responder essas perguntas.Mas existe uma certeza compartilhada por economistas: sociedades que desperdiçam parte do potencial de sua população crescem menos. Cada mulher impedida de desenvolver plenamente sua capacidade representa conhecimento que deixa de ser produzido, empresas que deixam de nascer, empregos que deixam de existir e inovação que nunca acontece.A misoginia não produz apenas vítimas. Ela produz atraso. A violência também é um problema econômico Durante muito tempo, a violência contra as mulheres foi tratada exclusivamente como uma questão de segurança pública.

 

Hoje, organismos internacionais demonstram que ela afeta praticamente todos os setores da economia. Segundo estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e da Organização Mundial da Saúde, a violência de gênero aumenta gastos públicos com saúde, assistência social e sistema de Justiça, reduz a produtividade, provoca afastamentos do trabalho e compromete o desenvolvimento de crianças expostas à violência doméstica. Ou seja, proteger mulheres não significa apenas reduzir estatísticas criminais. Significa diminuir custos públicos, fortalecer famílias e ampliar a capacidade produtiva do país.

 

O medo também muda cidades

 

 


Existe um efeito silencioso que raramente aparece nas pesquisas.O medo modifica a forma como mulheres ocupam os espaços urbanos. Muitas deixam de frequentar determinados locais. Mudam horários. Evitam utilizar transporte público à noite.Recusam oportunidades profissionais que exigiriam deslocamentos considerados inseguros. Compartilham a localização em tempo real. Avisam quando chegam em casa. Carregam chaves entre os dedos. Esses comportamentos se tornaram tão comuns que passaram a parecer naturais. Mas não deveriam ser. Uma cidade onde metade da população precisa reorganizar a própria rotina por medo não pode ser considerada plenamente livre.

 

A internet ampliou um problema antigoO ambiente digital trouxe novas possibilidades de participação feminina na vida pública. Também ampliou a violência. Pesquisadoras, jornalistas, parlamentares, artistas e influenciadoras relatam diariamente campanhas organizadas de intimidação, insultos e ameaças. O objetivo muitas vezes não é apenas ofender. É fazer com que mulheres desistam de ocupar espaços de influência. Especialistas chamam atenção para um aspecto importante: quando uma mulher é atacada publicamente, outras observam. E muitas deixam de se expor por receio de viver a mesma experiência. O efeito ultrapassa a vítima direta. Produz silêncio coletivo.

 

A responsabilização importa. Mas ela não basta.

 

 


Investigações rápidas, medidas protetivas eficazes e punições proporcionais fortalecem a confiança da população nas instituições. No entanto, especialistas alertam que nenhuma sociedade conseguiu reduzir significativamente a violência apenas aumentando penas. A transformação começa muito antes. Ela passa pela educação de crianças, pelo fortalecimento das famílias, pela formação de professores, pela atuação das empresas, pelo compromisso dos meios de comunicação e pela construção de modelos de masculinidade que não associem poder ao controle ou à violência. É um trabalho lento. Mas é justamente esse trabalho que produz mudanças duradouras.

 

O Brasil que ainda não existe

 

 


Talvez o maior desafio não seja imaginar um país sem violência. Seja imaginar um país onde meninas cresçam acreditando que podem ocupar qualquer espaço sem precisar provar duas vezes sua competência.

 

Onde mulheres possam fazer carreira sem transformar coragem em requisito profissional.
Onde voltar para casa seja apenas parte da rotina.
Onde respeito deixe de ser exceção para se tornar cultura.

 

Esse Brasil ainda não existe.Mas cada escola que ensina igualdade, cada empresa que combate o assédio, cada investigação conduzida com seriedade, cada denúncia acolhida e cada agressor responsabilizado ajudam a construí-lo. Porque enfrentar a misoginia não significa favorecer mulheres em detrimento dos homens. Significa remover barreiras que impedem metade da população de viver plenamente. E quando metade da sociedade deixa de caminhar com medo, a outra metade também encontra um país mais seguro, mais produtivo e mais democrático.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

 

Fotos: Reprodução/Google


O Portal Mulher Amazônica acredita que a misoginia não pode ser compreendida apenas pelos episódios de violência que ocupam as manchetes. Ela também se manifesta em práticas cotidianas que silenciam, desqualificam, intimidam e limitam a participação das mulheres na vida social, econômica e política. Combater essas manifestações significa impedir que a violência se fortaleça antes mesmo de chegar às formas mais extremas.

 
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Ao mesmo tempo, enfrentar esse desafio exige equilíbrio e compromisso com o Estado Democrático de Direito. É indispensável que denúncias sejam investigadas com rigor, que vítimas recebam proteção e acolhimento, que os responsáveis sejam responsabilizados conforme a lei e que políticas permanentes de educação e prevenção sejam fortalecidas. Construir um Brasil onde mulheres vivam sem medo não representa conceder privilégios, mas garantir um direito fundamental previsto na Constituição: o direito à dignidade, à liberdade e à segurança. Uma sociedade que protege suas mulheres amplia oportunidades, fortalece suas instituições e cria condições para que todo o país avance.

 

Fontes:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública – Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Ministério das Mulheres.
Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha).
Lei nº 13.104/2015 (Lei do Feminicídio).

 

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