24 de Maio de 2026

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Diversidade - 24/05/2026

Projeto em Manaus ensina alunos cegos a fazer cinema com base nos sons

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Foto: Divulgação

Iniciativa propõe uma experiência inédita na capital amazonense ao ensinar cinema e produção audiovisual a partir da percepção sonora, da memória afetiva e das experiências sensoriais dos participantes

Em uma sala da Biblioteca Braille do Amazonas, celulares, gravações de áudio, sons da cidade e exercícios de escuta ajudam pessoas cegas e com baixa visão a construir suas próprias narrativas no audiovisual. O projeto “Vozes Visuais” propõe uma experiência inédita na capital amazonense ao ensinar cinema e produção audiovisual a partir da percepção sonora, da memória afetiva e das experiências sensoriais dos participantes. As aulas acontecem na própria Biblioteca Braille do Amazonas, localizada no Bloco C do Sambódromo, na avenida Pedro Teixeira, bairro Flores, zona Centro-Sul de Manaus.

 

A iniciativa é conduzida pela produtora cultural e psicóloga Keylla Gomes, de 43 anos, que já desenvolveu projetos culturais voltados para pessoas com deficiência, especialmente oficinas de teatro e cinema para pessoas surdas. “A ideia do ‘Vozes Visuais’ surgiu muito da minha trajetória pessoal dentro da cultura e da inclusão aqui em Manaus”, afirma Keylla em entrevista à reportagem de A CRÍTICA. Segundo ela, o projeto nasceu de uma inquietação sobre a presença de pessoas cegas nos espaços de produção audiovisual. “Durante esses projetos, comecei a me perguntar: ‘e as pessoas cegas, como estão ocupando os espaços do audiovisual?’”, relata a produtora cultural.

 

Cinema além da imagem

 

A proposta do curso parte de uma visão diferente da percepção tradicional do cinema, normalmente associada apenas à imagem. “Sempre ouvi que cinema é imagem, mas para mim cinema também é som, emoção, memória e sensação”, conta Keylla. Segundo a professora, a experiência busca transformar o som em protagonista das narrativas. “No ‘Vozes Visuais’, o som deixa de ser apenas um apoio da imagem e passa a ser protagonista da narrativa”, explica a idealizadora do projeto. Durante as aulas, os alunos trabalham com sons do cotidiano, vozes, objetos, silêncio, vento e chuva para construir cenas e atmosferas cinematográficas.

 

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“Os alunos começam a construir cenas através dos sons da cidade, da natureza, das vozes, dos passos, do vento, da chuva, do silêncio e dos objetos do dia a dia. Tudo vira linguagem cinematográfica”, ressalta. Para o aluno Andres Oliveira, de 44 anos, o curso também ajuda a ampliar a forma como pessoas cegas são vistas socialmente. “Esse é o outro lado audiovisual, onde a gente pode transmitir as nossas vozes através dos vídeos, cinemas, e onde as pessoas possam ter mais contato e entender cada vez mais o nosso dia a dia, os nossos problemas, que nós não somos invisíveis, nós somos visíveis”, afirma Oliveira. Segundo ele, o projeto mudou sua relação com o próprio cinema. “Através do projeto eu consigo escutar mais o cinema, identificar as coisas que estão passando, as imagens e tudo, através das vozes, e isso me ajuda bastante”, relata o aluno.

 

Desafios e adaptação

 

Fotos: Divulgação

 

Para a realização das oficinas, o curso precisou adaptar a forma tradicional de ensinar audiovisual. “O maior desafio é justamente quebrar uma lógica muito visual que existe no ensino tradicional do audiovisual. A gente precisou reaprender a ensinar cinema de uma forma mais sensorial e acessível”, pontua a produtora cultural. As aulas são pensadas a partir da escuta, da orientação espacial, do toque e da percepção dos ambientes. “Cada aula é construída pensando na escuta, na orientação espacial, no toque, na percepção dos ambientes e no trabalho coletivo”, explica a educadora audiovisual. Ela destaca ainda que o processo também envolve adaptações técnicas no uso de celulares e equipamentos de gravação.

 

“Também existe uma adaptação técnica importante no uso dos celulares, na captação de áudio e na forma de conduzir os exercícios”, declara. A engenheira Marcelha Kauper, de 48 anos, conta que sempre gostou de cinema, mas não imaginava que poderia participar da produção audiovisual após perder a visão. “Para mim, eu sempre fui apaixonada por cinema. Tanto é que eu tenho a carteirinha lá do Cinemark. Então, para mim, quando eu fiquei cega, porque eu sou cega total, eu não achava que era possível”, relata a engenheira. Ela afirma que a proposta do curso inicialmente causou surpresa, mas a experiência ajudou a mudar essa percepção.

 

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Inclusão

 

De acordo com a psicóloga, a experiência tem provocado mudanças na autoestima e no sentimento de pertencimento dos participantes. “Muitos alunos chegam inseguros, porque cresceram ouvindo que certos espaços não foram pensados para eles. E aos poucos eles começam a perceber que conseguem criar, dirigir, gravar, pensar cenas e construir narrativas próprias”, relata a professora. O projeto também representa uma oportunidade de inclusão profissional, como afirma Sibele Alves, de 59 anos. “A importância do Vozes Visuais é dar inclusão das pessoas cegas e com baixa visão no mercado, o novo mercado de trabalho”, afirma Alves. Ela também destaca a importância da oportunidade oferecida pelo curso. “Nós somos capazes, só precisamos ter oportunidade. E essa é uma grande oportunidade que surgiu e a gente vai abraçar com unhas e dentes”, diz.

 

Fonte: com informações do Portal acrítica.com 

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