12 de Agosto de 2026

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Esporte - 22/07/2026

Por que a seleção argentina é majoritariamente branca? A resposta está na história, na identidade nacional e em um passado que ainda gera debates

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Foto: Reprodução/Google

Essa realidade ajuda a compreender por que a seleção argentina é majoritariamente branca

A cada Copa do Mundo, um debate reaparece nas redes sociais: por que a seleção da Argentina tem tão poucos jogadores negros quando comparada a equipes como Brasil, França ou Inglaterra?

 

As respostas costumam ser rápidas e, muitas vezes, simplistas. Há quem atribua essa característica exclusivamente ao racismo, enquanto outros afirmam que “não existem negros na Argentina”. Nenhuma dessas afirmações, isoladamente, explica a realidade. A resposta está, sobretudo, na história da formação do país.

 

E compreender essa história significa revisitar séculos de migrações, guerras, epidemias, políticas de Estado e uma construção de identidade nacional que ainda hoje desperta debates entre historiadores. Mais do que explicar a composição de uma seleção de futebol, essa discussão revela como as nações escolhem lembrar — ou esquecer — partes de sua própria história.

 

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A Argentina já teve uma população negra muito maior do que muitos imaginam Ao contrário da imagem amplamente difundida de um país essencialmente europeu, a Argentina colonial possuía uma presença africana significativa. Entre os séculos XVIII e XIX, Buenos Aires era um dos importantes portos do comércio atlântico de pessoas escravizadas. Historiadores estimam que, em determinados períodos, afrodescendentes representavam uma parcela expressiva da população da cidade, participando da economia, da cultura e da formação social argentina. Entretanto, essa presença foi diminuindo ao longo do século XIX. Esse processo não aconteceu por uma única razão, mas pela combinação de diferentes fatores históricos.

 

Guerras, epidemias e miscigenação transformaram o perfil demográfico do país

 

Um dos elementos mais citados pelos pesquisadores é a participação de afro-argentinos nas guerras de independência e, posteriormente, em conflitos como a Guerra do Paraguai (1864–1870). Durante décadas, difundiu-se a ideia de que homens negros teriam sido enviados deliberadamente às linhas de frente como estratégia de extermínio. Hoje, porém, a maior parte dos historiadores considera que, embora tenha havido elevada participação e perdas significativas, não existem evidências conclusivas de uma política oficial voltada ao extermínio da população negra por meio das guerras.

 

Outro fator importante foi a epidemia de febre amarela de 1871, que atingiu especialmente bairros mais pobres de Buenos Aires, onde viviam muitos afrodescendentes. Somam-se a isso os processos de miscigenação ocorridos ao longo das gerações. Muitos descendentes de africanos passaram a ser classificados de outras formas nos censos ou deixaram de se identificar como negros, reduzindo sua presença nas estatísticas oficiais. Nenhum desses fatores, isoladamente, explica a mudança demográfica. Juntos, ajudam a compreender por que a população afrodescendente tornou-se proporcionalmente menor ao longo do tempo.

 

O projeto de uma Argentina “europeia”

 

 

 

Talvez o aspecto menos conhecido dessa história seja o papel desempenhado pelo próprio Estado argentino na construção de uma identidade nacional. Entre o final do século XIX e o início do século XX, a Argentina recebeu milhões de imigrantes europeus, principalmente italianos e espanhóis. Esse fluxo migratório alterou profundamente a composição populacional do país. Ao mesmo tempo, intelectuais e governos da época defendiam um modelo de nação fortemente associado à Europa. A imigração europeia era vista como instrumento de modernização econômica e cultural.

 

Essa visão influenciou não apenas políticas públicas, mas também a maneira como a história argentina passou a ser contada. Ao privilegiar uma narrativa centrada na herança europeia, parte importante das contribuições de afrodescendentes e povos indígenas acabou sendo invisibilizada na memória nacional. Hoje, diversos pesquisadores consideram que esse processo de apagamento histórico é um dos elementos centrais para compreender a identidade argentina contemporânea.

 

Um mito que começa a ser revisto

 

Durante muitos anos consolidou-se a ideia de que “não existem negros na Argentina”. A realidade, entretanto, é diferente. Segundo o Censo Nacional realizado pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) em 2022, centenas de milhares de argentinos se reconhecem como afrodescendentes. Organizações representativas e pesquisadores observam, porém, que esse número pode ser maior, já que fatores históricos, culturais e processos de autoidentificação influenciam a forma como as pessoas respondem aos censos. Nos últimos anos, movimentos afro-argentinos vêm trabalhando para recuperar essa memória histórica e ampliar a visibilidade de comunidades que participaram da construção do país, mas permaneceram por muito tempo à margem da narrativa oficial. Mais do que reivindicar reconhecimento, essas iniciativas procuram mostrar que a diversidade argentina sempre existiu.

 

Então a Argentina é um país racista?

 

 

 


Nos últimos anos, episódios de discriminação envolvendo torcedores argentinos voltaram a ganhar repercussão internacional, especialmente em competições organizadas pela Conmebol e nos debates que tomaram conta das redes sociais durante a Copa do Mundo de 2026. Casos de insultos racistas dirigidos a jogadores brasileiros e de outras nacionalidades foram registrados por câmeras de transmissão, denunciados por atletas e investigados por autoridades esportivas. A ampla circulação desses vídeos nas plataformas digitais ampliou a visibilidade de comportamentos que, por muito tempo, permaneciam restritos às arquibancadas, transformando-os em um debate público acompanhado por milhões de pessoas em toda a América Latina.

 

Esses episódios, no entanto, não autorizam concluir que toda a sociedade argentina seja racista. O mais adequado é reconhecer que a Argentina, assim como praticamente todos os países das Américas, convive com desafios relacionados ao racismo estrutural e à discriminação contra afrodescendentes, povos indígenas e outros grupos historicamente marginalizados. A diferença é que, hoje, essas manifestações são filmadas, compartilhadas em tempo real e confrontadas por atletas, jornalistas, entidades esportivas e movimentos antirracistas, aumentando a pressão por punições mais rigorosas e por uma mudança cultural dentro do futebol sul-americano.

 

Ao mesmo tempo, universidades, pesquisadores, organizações afro-argentinas e instituições culturais têm ampliado os estudos sobre a presença histórica de afrodescendentes e povos indígenas no país. Esse movimento busca recuperar memórias que permaneceram invisibilizadas por décadas e reforça que a identidade nacional está em constante revisão.

 

O que o futebol revela sobre a sociedade argentina?

 

 

 

O futebol raramente está separado da história de um país. As seleções nacionais costumam refletir, ainda que de forma indireta, características demográficas, processos migratórios e transformações sociais vividas ao longo dos séculos. O Brasil, por exemplo, possui uma das maiores populações negras e pardas do mundo, realidade naturalmente representada em sua seleção. A França reúne descendentes de diferentes fluxos migratórios vindos da África, do Caribe e do Oriente Médio. Já a Argentina apresenta uma composição populacional distinta, marcada pela intensa imigração europeia entre o fim do século XIX e o início do século XX e por uma proporção significativamente menor de afrodescendentes.

 

Essa realidade ajuda a compreender por que a seleção argentina é majoritariamente branca. Isso não significa ausência completa de diversidade no futebol do país, mas demonstra que a composição da equipe acompanha, em grande medida, a estrutura demográfica da população argentina.
Mais do que explicar a formação de uma seleção, essa análise mostra como o esporte também funciona como um espelho da história. Dentro de campo, aparecem não apenas talentos individuais, mas os reflexos de processos sociais, escolhas políticas e narrativas construídas ao longo de gerações.

 

Maradona e as raízes indígenas

 

Outro aspecto frequentemente lembrado nesse debate envolve Diego Maradona. O ídolo argentino manifestou, em diferentes entrevistas, orgulho de suas origens indígenas, e diversas reportagens mencionam uma possível ascendência associada ao povo guarani. Entretanto, historiadores observam que não existe documentação genealógica conclusiva que permita afirmar, como fato histórico comprovado, que Maradona fosse descendente direto de um guarani. Ainda assim, sua identificação pública com essa herança tornou-se um símbolo importante ao desafiar a ideia de uma identidade argentina exclusivamente europeia.

 

Mais do que futebol, uma reflexão sobre memória

 

 

Fotos: Reprodução/Google


Talvez a principal lição dessa discussão seja compreender que o esporte raramente existe separado da sociedade. As seleções nacionais carregam muito mais do que esquemas táticos ou talentos individuais. Elas refletem processos históricos, movimentos migratórios, políticas públicas, construções culturais e escolhas sobre quais histórias permanecem vivas na memória coletiva.

 

Questionar por que uma seleção é formada majoritariamente por atletas de determinada origem não significa apenas falar de futebol. Significa perguntar como um país foi construído, quem participou dessa construção e por que algumas dessas trajetórias ficaram invisíveis durante tanto tempo.Entender a Argentina sob essa perspectiva é também um convite para que toda a América Latina olhe para a própria história com mais profundidade. Porque sociedades não são definidas apenas pelo que lembram. Também são moldadas pelo que escolhem esquecer.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

No Portal Mulher Amazônica, acreditamos que o jornalismo deve contribuir para ampliar o conhecimento histórico e promover debates responsáveis, especialmente quando temas ligados à identidade, diversidade e memória coletiva ganham visibilidade em eventos de alcance mundial. Explicações simplistas raramente dão conta da complexidade da formação dos povos latino-americanos. Por isso, compreender a composição da seleção argentina exige olhar para processos históricos, demográficos e culturais que ultrapassam o universo esportivo e ajudam a entender como as identidades nacionais são construídas e, muitas vezes, como determinadas populações são invisibilizadas ao longo do tempo.

 
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Fonte:
Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC)
Fonte oficial do governo argentino utilizada para os dados demográficos e de autoidentificação da população afrodescendente.
George Reid Andrews
The Afro-Argentines of Buenos Aires, 1800–1900
University of Wisconsin Press, 1980.

Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica com base em documentos oficiais, pesquisas acadêmicas, dados demográficos, publicações de organismos internacionais e estudos especializados sobre história da América Latina, formação populacional, afrodescendência, povos indígenas e identidade nacional.

 

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