Acompanhamos um dia na rotina de Verônica Pimentel, CEO da Oryx Capital, que repassa a trajetória da infância traumática ao topo da Faria Lima
Quem vê Verônica Pimentel cruzando a Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal centro financeiro do país, dificilmente imagina os obstáculos que enfrentou até chegar ali. Aos 29 anos, a paulistana ocupa uma posição rara em seu meio: é a fundadora e CEO mais jovem de uma gestora de recursos no Brasil, a Oryx Capital. Era o início da tarde de uma quinta-feira nublada em São Paulo quando ela reservou o horário de almoço para encontrar a reportagem de Marie Claire em um restaurante próximo ao seu escritório.
Vestindo um conjunto azul de alfaiataria, chegou alguns minutos atrasada, pediu desculpas e comentou sobre a rotina que já havia começado horas antes. “É uma loucura, reunião o dia inteiro”, disse, com um sorriso tímido. A economista conta que a escolha pela profissão veio da facilidade com números e do desejo de construir uma carreira de longo prazo. “Coloquei no Google ‘profissões que dão mais dinheiro’ e vi: Direito, Medicina e Economia”, admite ela, que descartou os dois primeiros porque viu mais sentido na terceira opção. O primeiro contato com a área ocorreu quando cursou Administração na Etec. Na época, já sonhava com a independência financeira e teve o primeiro emprego produzindo banners e cartões empresariais.
Mais tarde, formou-se em Economia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde estudou como bolsista e ingressou no mercado financeiro ainda durante a graduação. Após acumular experiências no setor no Brasil e no exterior, participou, em 2022, do Programa de Desenvolvimento de Liderança da Harvard Business School. Foi durante esse curso que estruturou o projeto de sua empresa, especializada em conectar investidores locais a ativos internacionais. Mas a trajetória que a levou ao topo corporativo começou longe dali. Nascida em Limeira, no interior de São Paulo, em uma família de classe média baixa, Pimentel se mudou para a capital aos 16 anos. A mudança foi também uma tentativa de se afastar de um ambiente que considerava nocivo. “Eu tinha uma influência lá que não era adequada”, recorda.
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Caçula de três irmãs, ela foi criada pela mãe, técnica de enfermagem, que sustentava sozinha a casa. Desde a infância, conviveu de perto com a dependência química de uma das irmãs. “Quando eu era criança, ela me buscou e me levou numa barroca, um buraco no meio do mato onde ficam usando crack. Eu ia lá direto, mas na época não sabia o que era. A polícia foi lá uma vez, me retirou, fui no colo do policial. Essas histórias eram recorrentes.” À medida que crescia, passou a entender a dimensão da situação e seus impactos na rotina familiar. “Todos os meus celulares foram roubados, tudo que era da minha casa foi levado. Ela chegou a vender o meu cachorro quando eu tinha 16 anos. Minha família tentou muito ajudá-la, colocou em clínicas de reabilitação, mas ela sumia”, relembra.
Hoje, a economista compreende que a dependência da irmã vem de um trauma compartilhado entre elas. Quando Verônica ainda era criança, precisou morar temporariamente na casa dos avós, onde as três irmãs sofreram abusos do avô materno. “Esta história toda foi muito difícil para mim. Somente aos 14 anos abri a ‘caixinha preta’ da minha mente. Eu não lembrava, mas aquilo estava me afetando no dia a dia, na minha sexualidade, no fato de começar a sair com pessoas muito mais velhas aos 11, 12 anos. Atualmente, olho para alguém dessa idade e vejo uma criança. Eu não me via assim na época”, desabafa. Aquele foi o momento em que buscou a terapia. O processo para lidar com a violência aconteceu aos poucos, com o suporte de sua psicóloga. “Não foi uma coisa que passou do nada e com a qual eu consegui lidar facilmente. Fiz terapia por muito tempo. Hoje sou uma pessoa adulta que consegue falar: ‘Não foi minha culpa, não foi culpa da minha mãe, não foi culpa das minhas irmãs. Foi culpa dele.’”
A correria de uma CEO
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Pouco antes das 14h, Pimentel precisa correr. Antes de encarar os compromissos oficiais da tarde, tem horário marcado com o personal trainer na academia do prédio, a poucos minutos de carro dali. “Fiz isso justamente para me ‘obrigar’ a ir. Senão, não tenho tempo”, diz. A pausa para o treino é cuidadosamente calculada. Às 15h, a rotina de executiva já é retomada no banco de trás de um Uber, de onde ela participa de uma reunião de alinhamento com advogados enquanto segue em direção à empresa. Ao desembarcar, a pressa é evidente: veste as roupas de ginástica e carrega na bolsa o look de trabalho, que pretende trocar apenas ao chegar ao destino.
O escritório da Oryx Capital ocupa um espaço discreto, com três salas, cozinha e banheiro. A equipe presente no dia é enxuta, com quatro funcionários, embora a operação reúna cerca de 20 colaboradores. As paredes de cimento queimado contrastam com elementos que quebram a formalidade típica do ambiente. Na sala de reuniões, de estética clean, um jogo de “roda a roda” com desafios como “1 shot” e “3 shots” chama atenção em meio à decoração sóbria. É nesse cenário que a dualidade da paulistana se torna evidente. Ao mesmo tempo em que conduz chamadas estratégicas e toma decisões que envolvem milhões de reais, carrega na bolsa da Louis Vuitton — o primeiro item de luxo comprado com o próprio dinheiro — um chaveiro de ursinho de pelúcia vermelho. “Muita gente me vê como essa ‘girlboss’, mas esquece que eu sou só uma garota de 29 anos”, diz.
Nos últimos anos, ela diz ter encontrado apoio em outras mulheres que também ocupam espaços tradicionalmente masculinos. “Ter amigas que estão nesses lugares me dá uma base de saúde mental que me ajuda bastante, porque consigo conversar sobre tudo: desde paqueras, vida amorosa, roupas e hobbies até questões de trabalho.” As histórias divididas pelo grupo costumam guardar pontos em comum. Uma delas é pilota e teve que largar o emprego em um jatinho particular porque o chefe passou um ano a assediando. Outra é líder de equipe e foi chamada de “histérica” e “louca” por funcionários homens ao expor uma opinião. “A gente se junta e desabafa. Isso me dá um conforto emocional gigante.”
A única mulher na sala
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Às 16h, um novo compromisso ocupa a agenda: a apresentação para um potencial cliente. Mais uma vez, Pimentel é a única mulher na sala. O investidor, um homem consideravelmente mais velho, acumula mais anos de experiência em vendas do que a economista tem de vida. “As únicas mulheres que eu via nas minhas reuniões eram do meu próprio time”, observa. A percepção encontra respaldo nos dados. Segundo um levantamento de 2025 da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), as mulheres representam 35,4% dos profissionais do mercado financeiro e ocupam apenas 5,4% das posições de liderança máxima. Mesmo sendo a CEO da empresa, ela tem poucos momentos de fala durante a reunião. Boa parte é conduzida pelo seu sócio e o diretor, que parecem ter a maior atenção também do cliente.
“Sempre tive a sensação de que precisava estar um passo à frente para conseguir exatamente a mesma coisa que um homem conseguia naturalmente”, desabafa. O mesmo acontece em decisões corporativas. Ela compartilha um dilema que enfrentava naquela semana: participar sozinha ou acompanhada por um colega homem de um almoço de negócios com o executivo de uma das maiores empresas da América Latina. “Quando vou sozinha, acontecem duas coisas. A primeira é que o cliente às vezes sente a liberdade de tentar uma aproximação que não é profissional, confundindo trabalho com um encontro. A segunda é o preconceito velado: olham para mim, veem uma mulher nova e não me enxergam como alguém experiente, embora eu saiba muito bem o que estou fazendo”, explica.
Ela conta que às vezes é melhor levar um homem a esses encontros porque o cliente “sente mais confiança para investir o dinheiro”. “É bizarro, mas é uma discussão frequente que tenho com o time.” Para Pimentel, o desequilíbrio de gênero no mercado financeiro faz com que seus hobbies sejam alvo de julgamentos que dificilmente recairiam a seus colegas do sexo masculino. Um dos exemplos é o pole dance, prática que exerce desde 2014 e considera sua maior paixão fora do ambiente de trabalho, mas que desperta comentários e questionamentos com frequência. “Toda vez que os homens do trabalho descobriam meu Instagram pessoal, achavam que eu era ‘puta’, que tinham mais liberdade comigo, que eu era mais fácil por conta do pole dance. Tive que parar de postar”, comenta.
O machismo corporativo
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Para entrar no “jogo corporativo” sem comprometer relações comerciais, ela desenvolveu o que define como um “exercício constante de diplomacia”. “Tenho uma tolerância alta, já me acostumei. Não dá para bater de frente, senão eu perco o negócio ou saio como a ‘rude’ com quem ninguém quer trabalhar. Se começam a perguntar da vida pessoal, respondo superficialmente e vou puxando a conversa de volta para as metas.” A tática nem sempre é bem-sucedida em evitar situações invasivas. Há poucas semanas, durante um jantar após um evento corporativo, um cliente insistia em abraçá-la repetidamente sem permissão. “Eu ficava dando um passinho para o lado, fingindo que estava tudo bem e me afastando, e a pessoa vindo atrás. Por isso tento sempre trazer um homem de vendas comigo. Infelizmente, é o que intimida.”
Em muitos momentos, Pimentel reconhece que tenta suavizar traços da própria feminilidade para reduzir resistências. Evita salto alto, prefere blazers fechados e costuma esconder discretamente as tatuagens dos braços durante as apresentações. “Já tem um monte de fator para a pessoa ficar com o pé atrás por eu ser mulher, e há quem ache que tatuagem não é profissional. Antes de ter minha própria empresa, eu tinha que ocultar tudo. Até precisei fazer remoção a laser de desenhos nos dedos e passar maquiagem nas mãos para trabalhar”, conta.
Um ciclo que se retroalimenta

Fotos: Reprodução
O último compromisso do dia terminou por volta das 20h e se estendeu para um bar a pedido dos clientes. São nesses encontros informais onde muitas negociações da Faria Lima se desenrolam. “Eu estava com os rapazes e vieram me falar que estavam sem jeito de dizer que queriam ir para o puteiro”, conta. Depois de anos no mercado financeiro, Pimentel diz ter aprendido a lidar com situações como essa. Em muitos casos, delega a continuidade desses “encontros” a integrantes homens da equipe. “Eu não quero me colocar naquela situação, mas, ao mesmo tempo, preciso fechar o acordo. E eu sei que, normalmente, tudo acontece na conversa depois, fora do escritório.” Diferentemente da dos homens que a acompanhavam, a noite da CEO terminou no conforto de casa. Embora nem sempre tenha acesso aos mesmos espaços ocupados por seus colegas, ela vê a situação com certo bom humor.
“Até fiquei feliz por isso, porque já era tarde e eu estava procurando uma deixa para ir embora.” É também por isso que ela acredita ser importante abrir caminhos para as mulheres no mercado financeiro. “Já que os homens têm o ‘clube do Bolinha’ deles, eu gostaria que tivéssemos o nosso. O ideal seria que todo mundo coexistisse normalmente, se relacionasse de forma natural, só que isso ainda está fora da realidade.” O cenário ideal para a executiva seria ampliar a diversidade dentro de sua própria empresa, mas ela vê a escassez de profissionais mulheres em posições estratégicas como consequência de décadas de exclusão.
Segundo a CEO, recrutar candidatas para cargos de entrada não costuma ser um problema. O desafio começa nas posições mais seniores, aquelas que exigem anos de bagagem prévia, criando um ciclo que se retroalimenta. “Quando aparece uma mulher, muitas vezes ela não tem a experiência de que eu preciso. E por que ela não tem? Porque provavelmente enfrentou barreiras antes. Um problema vai desencadeando outro e vira uma bola de neve.” Recentemente, ao abrir uma vaga para a diretoria de portfólio — um dos cargos mais altos dentro da gestora —, a intenção inicial era contratar uma mulher, mas não houve candidatas. “Eu pensei: ‘Seria muito legal trazer uma mulher para essa posição’. Mas não encontrei. Na verdade, acho que não recebi nenhuma candidatura feminina pelo LinkedIn. As poucas que estão no mercado ou estão igual a mim, tentando sobreviver no ambiente, ou não tiveram oportunidades nas empresas anteriores para ascender”, afirma.
Fonte: com informações da Revista Marie Claire
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