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Ciência e Tecnologia - 24/08/2026

O que está por trás da tela? Meninas e meninos enfrentam riscos diferentes no mundo digital

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Foto: Reprodução/Google

A adolescência sempre foi uma fase de comparação.

Enquanto meninas aparecem mais expostas ao uso problemático das redes sociais, meninos apresentam maior risco de uso problemático de jogos digitais. O desafio para as famílias não é apenas controlar o tempo de tela, mas perceber o que o mundo digital está ocupando no lugar da vida fora dele. O celular sobre a mesa durante o jantar, o videogame ligado no quarto, a adolescente que passa boa parte do dia alternando entre vídeos e redes sociais. Há alguns anos, essas cenas poderiam despertar preocupação imediata. Hoje, tornaram-se tão comuns que muitas famílias já não sabem exatamente onde termina um hábito da vida contemporânea e começa um comportamento que merece atenção.

 

É justamente aí que a discussão sobre crianças e adolescentes conectados precisa mudar de direção. O problema não pode ser reduzido a uma contagem de horas diante de uma tela, porque a mesma tecnologia pode ocupar lugares muito diferentes na vida de meninos e meninas. Enquanto as meninas aparecem mais expostas ao uso problemático das redes sociais, os meninos apresentam índices maiores de risco relacionado aos jogos digitais. A diferença não significa que meninas não joguem ou que meninos não sofram nas redes. Ela mostra que os ambientes digitais podem produzir experiências distintas conforme o sexo, a idade, o contexto social e a maneira como cada adolescente se relaciona com a tecnologia.

 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), obtidos no estudo internacional Health Behaviour in School-aged Children, que reuniu quase 280 mil jovens de 11, 13 e 15 anos em 44 países e regiões da Europa, Ásia Central e Canadá, ajudam a dimensionar essa diferença. Em 2022, 13% das meninas apresentaram sinais de uso problemático das redes sociais, contra 9% dos meninos. Entre os jogos digitais, a proporção se inverteu: 16% dos meninos estavam em risco de uso problemático de videogames, contra 7% das meninas. A informação mais importante, porém, talvez esteja escondida atrás dos percentuais: não existe uma única maneira de uma criança ou adolescente ficar vulnerável às telas.

 

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Meninas e a pressão de estar sempre conectada

 

 

 


Para muitas meninas, a rede social não funciona apenas como entretenimento. Ela também se transforma em um espaço de pertencimento, comparação, reconhecimento e construção da própria identidade. Isso pode tornar a experiência digital especialmente intensa durante a adolescência, período em que a percepção sobre aparência, aceitação social e opinião dos pares ganha importância. A OMS encontrou maior frequência de uso problemático das redes entre meninas e também identificou níveis elevados de contato online contínuo entre elas. Entre as adolescentes de 15 anos, 44% relataram contato constante com amigos pela internet. A questão começa quando a conexão deixa de ser uma parte da vida e passa a determinar como a adolescente se sente sobre si mesma. É uma mudança importante em relação às experiências de gerações anteriores. O adolescente não precisa mais voltar para casa para escapar de determinado grupo social. O grupo pode entrar no quarto junto com ele.

 

Quando a comparação não termina

 

A adolescência sempre foi uma fase de comparação. A diferença é que, agora, boa parte dessa comparação é alimentada por imagens cuidadosamente selecionadas, filtros, métricas de popularidade e algoritmos que decidem o que aparece na tela seguinte. A APA chama atenção para recursos como botão de curtida, recomendações automáticas, notificações e rolagem infinita, especialmente porque adolescentes ainda estão desenvolvendo capacidades relacionadas ao controle de impulsos. A entidade recomenda que esses recursos sejam pensados de acordo com o desenvolvimento cognitivo e social dos jovens.

 

Isso ajuda a explicar por que simplesmente dizer “é só desligar” pode ser uma orientação insuficiente.Não se trata apenas de força de vontade. Há um ambiente construído para facilitar o retorno. A próxima publicação já está esperando. O próximo vídeo começa automaticamente. Uma nova notificação aparece. Um conteúdo recomendado parece feito sob medida. A recompensa pode vir em segundos, enquanto atividades importantes da vida real exigem tempo para produzir resultados.

 

E os meninos? O quarto também pode virar uma fronteira

 

 

 

Quando a discussão sobre saúde mental de adolescentes se concentra nas redes sociais, existe o risco de deixar uma parcela importante do problema fora do radar: os meninos. O estudo da OMS mostra que eles apresentam mais que o dobro da proporção de risco de uso problemático de jogos digitais observada entre meninas, 16% contra 7%. O relatório também registrou que 34% dos adolescentes pesquisados jogavam diariamente e que mais de um quinto dos que jogavam passava pelo menos quatro horas em jogos nos dias em que jogava.

 

Isso não significa que jogar videogame seja prejudicial. Jogos podem proporcionar diversão, socialização, desenvolvimento de habilidades e experiências positivas. O problema aparece quando a atividade deixa de caber na rotina e começa a expulsar outras partes importantes dela.O adolescente deixa de sair porque prefere jogar. Dorme cada vez mais tarde. Não entrega atividades escolares. Interrompe práticas esportivas. Evita encontros familiares. Fica irritado quando precisa interromper o jogo. Perde interesse por atividades que anteriormente despertavam entusiasmo.

 

Nesse momento, a pergunta mais útil não é “quantas horas ele joga?”. É “o que ele deixou de fazer porque está jogando?” Essa mudança de pergunta é fundamental. Quatro horas de jogo em um sábado, depois de uma semana equilibrada, não representam necessariamente a mesma situação que quatro horas todos os dias, acompanhadas de privação de sono, queda no desempenho escolar, isolamento e perda de controle. A própria classificação utilizada pela OMS considera aspectos relacionados à dificuldade de controlar o comportamento e às consequências negativas, e não apenas uma quantidade fixa de horas.

 

A mesma tela pode ser, para uma adolescente, fonte de pressão e, para outra, fonte de apoio.

 

É justamente por isso que respostas automáticas são perigosas. O menino que passa horas jogando pode estar dizendo algo sem conseguir dizer.Também é necessário olhar para os meninos para além do estereótipo de que “menino gosta de videogame”. Em alguns casos, o jogo pode funcionar como espaço de pertencimento, competição e reconhecimento. Pode ser o lugar onde o adolescente se sente competente quando enfrenta dificuldades em outras áreas da vida. Pode também ser uma maneira de evitar frustrações. Na escola, ele pode não se sentir capaz. Na convivência social, pode ter dificuldades. Em casa, pode não conseguir falar sobre o que sente. No jogo, entretanto, existe uma lógica clara: vencer, melhorar, subir de nível, conquistar uma habilidade. Isso não permite concluir que todo uso intenso de videogame seja uma forma de sofrimento emocional. Mas mostra por que simplesmente retirar o aparelho pode não resolver o problema. Se a tela está ocupando um espaço emocional importante, é preciso descobrir qual espaço é esse.

 

O que os pais precisam observar antes de simplesmente proibir

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

A proibição pode fazer parte de uma estratégia familiar, especialmente quando existe risco ou perda significativa de controle. Mas, isoladamente, ela pode apenas transformar a tela em objeto de disputa. Mais importante é observar mudanças. Uma criança que antes gostava de brincar e deixa de demonstrar interesse por qualquer outra atividade merece atenção. Um adolescente que passa a dormir cada vez mais tarde por causa do celular também. Queda repentina no rendimento escolar, abandono de atividades, isolamento, irritação intensa quando o acesso é interrompido e incapacidade de reduzir o uso são sinais que justificam uma conversa mais cuidadosa.

 

A APA recomenda, especialmente no início da adolescência, acompanhamento contínuo dos adultos, com diálogo sobre o conteúdo consumido e orientação compatível com a idade. A entidade defende que a autonomia seja ampliada gradualmente conforme o adolescente desenvolve maturidade e habilidades de uso responsável. Isso significa que acompanhar não é necessariamente vigiar. É conhecer.

 

Saber quem são os amigos digitais. Entender quais jogos fazem parte da rotina. Perguntar que tipo de conteúdo aparece no feed. Perceber quando uma publicação mudou o humor do filho. E, sobretudo, manter aberta a possibilidade de conversa. Meninas e meninos não estão vivendo exatamente a mesma experiência digital. E reconhecer essa diferença não significa criar regras diferentes para cada sexo. Significa olhar para cada criança como ela realmente é, entender o que está acontecendo do outro lado da tela e perceber quando a tecnologia deixou de ser ferramenta para começar a ocupar o lugar da própria vida.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

O Portal Mulher Amazônica defende que falar sobre crianças e adolescentes no ambiente digital exige abandonar respostas simplistas e considerar as diferentes experiências que meninos e meninas podem vivenciar diante das telas. Para o Portal, proteger a infância não significa demonizar a tecnologia, mas garantir que o mundo digital não substitua o sono, o brincar, a convivência familiar, as amizades, a atividade física, a aprendizagem e o desenvolvimento da autonomia. A responsabilidade também não pode ser colocada exclusivamente sobre as famílias. Plataformas digitais, escolas, poder público e sociedade precisam participar da construção de ambientes digitais mais seguros e adequados às diferentes fases do desenvolvimento.

 
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Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica com base em dados da Organização Mundial da Saúde, pesquisas internacionais sobre comportamento adolescente, recomendações da Associação Americana de Psicologia e informações oficiais sobre saúde mental de crianças e adolescentes.

 

Fontes:
Organização Mundial da Saúde (OMS) — estudo Health Behaviour in School-aged Children sobre uso de redes sociais, jogos digitais e comportamento de adolescentes em 44 países e regiões.
American Psychological Association (APA) — recomendações sobre redes sociais, desenvolvimento adolescente, mecanismos de plataforma, acompanhamento parental e uso saudável da tecnologia.

 

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