Valores aprendidos em uma sociedade desigual também podem ser reproduzidos por mulheres, revelando como padrões machistas atravessam gerações e afetam a forma como elas se relacionam entre si
Por décadas, a luta das mulheres por respeito, igualdade e dignidade esteve voltada para o enfrentamento de estruturas historicamente construídas por uma sociedade patriarcal. No entanto, existe uma realidade que frequentemente provoca desconforto e que precisa ser discutida com maturidade: quando o machismo é reproduzido por mulheres, suas consequências podem ser igualmente dolorosas.
Entre os estudos sobre desigualdade de gênero, pesquisadores discutem como o machismo internalizado pode levar pessoas, inclusive mulheres, a reproduzir discursos e comportamentos que desvalorizam outras mulheres.
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Ninguém nasce machista. O machismo é aprendido.

Aprende-se em casa, nas relações familiares, nos espaços religiosos, nas escolas, nas instituições e também através das experiências culturais transmitidas de geração em geração. Quando uma mulher diz que outra “mereceu” a violência por causa da roupa que usava, quando desacredita o relato de uma vítima de abuso, quando julga a maternidade, a aparência física ou a capacidade profissional de outra mulher com critérios que não aplicaria aos homens, está reproduzindo padrões construídos por uma cultura desigual.
O problema não está apenas nas palavras. Está no impacto que elas produzem Quando o machismo é reproduzido entre mulheres Muitas mulheres cresceram ouvindo frases como:
“Mulher direita não faz isso.”
“Se apanhou, alguma coisa fez.”
“Ela provocou.”
“Mulher tem que saber o seu lugar.”
“Homem é assim mesmo.”
Essas frases não surgiram do acaso. Elas fazem parte de uma cultura que, durante séculos, ensinou que homens e mulheres ocupavam lugares diferentes na sociedade. Quando uma mulher repete esse discurso, ela não está necessariamente agindo por maldade. Muitas vezes, está reproduzindo aquilo que aprendeu como verdade absoluta. Por isso, o enfrentamento desse problema exige educação, diálogo e consciência crítica, e não simplesmente acusações.
A realidade brasileira

O Brasil ainda convive com índices alarmantes de violência contra mulheres. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Atlas da Violência demonstram que a violência de gênero permanece como um dos maiores desafios sociais do país. Os dados revelam que fatores culturais e sociais continuam influenciando a naturalização da violência e das desigualdades entre homens e mulheres.
Além da violência física, existe uma violência simbólica, silenciosa e cotidiana, manifestada em julgamentos, discriminações e culpabilizações que recaem sobre as mulheres. Muitas vítimas relatam que, após sofrerem agressões ou abusos, ouviram questionamentos mais severos de outras mulheres do que dos próprios homens. Isso ajuda a explicar por que tantas vítimas ainda sentem medo de denunciar e vergonha de expor suas histórias. Pesquisas mostram que fatores culturais, familiares e sociais influenciam diretamente a subnotificação dos casos de violência doméstica e familiar.
O desafio na Região Norte

Na Amazônia brasileira, a situação apresenta características próprias. A vasta extensão territorial, as dificuldades de acesso aos serviços públicos, as desigualdades socioeconômicas e as barreiras culturais tornam ainda mais complexa a proteção das mulheres. Em muitas comunidades urbanas, ribeirinhas e rurais, persistem padrões tradicionais que atribuem à mulher papéis rígidos dentro da família e da sociedade. Isso não significa que a Região Norte seja mais machista que outras regiões, mas que enfrenta desafios específicos decorrentes de sua realidade geográfica, econômica e cultural.
Ao mesmo tempo, a Amazônia também tem produzido exemplos extraordinários de resistência feminina. Mulheres indígenas, ribeirinhas, quilombolas, empreendedoras, lideranças comunitárias, pesquisadoras e defensoras dos direitos humanos vêm transformando suas comunidades e rompendo ciclos históricos de desigualdade. São vozes que mostram que tradição e transformação podem caminhar juntas.
Quando a rivalidade substitui a sororidade
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Um dos efeitos mais perversos do machismo internalizado é a competição entre mulheres. Ao invés da cooperação, instala-se a rivalidade. Ao invés da empatia, surge o julgamento. Ao invés do acolhimento, aparece a condenação. Isso pode ser observado em ambientes profissionais, religiosos, políticos e até familiares.
A mulher que conquista um cargo de liderança é frequentemente questionada de forma mais intensa do que um homem. A vítima de violência muitas vezes precisa provar sua inocência. A mãe é julgada por suas escolhas. A mulher sem filhos também. A jovem é criticada por ser “moderna demais”. A mais velha por não agir conforme as expectativas sociais. Trata-se de uma cobrança permanente que revela o quanto ainda precisamos avançar como sociedade.
O caminho da transformação
Combater o machismo não é uma tarefa exclusiva dos homens. Também exige que mulheres reflitam sobre crenças, discursos e comportamentos herdados ao longo das gerações. Reconhecer essa realidade não enfraquece o movimento de defesa das mulheres. Pelo contrário. Fortalece. Somente quando identificamos as raízes de um problema conseguimos transformá-lo. O verdadeiro empoderamento feminino não acontece quando mulheres passam a competir entre si. Ele acontece quando aprendem a construir redes de apoio, acolhimento e fortalecimento mútuo. Uma sociedade mais justa nasce quando homens e mulheres compreendem que igualdade não é privilégio, mas condição básica de dignidade humana.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
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Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica entende que o enfrentamento ao machismo exige coragem para reconhecer todas as formas pelas quais ele se manifesta. Defendemos que mulheres jamais sejam responsabilizadas pela violência que sofrem. Defendemos o fortalecimento das políticas públicas de proteção, acolhimento e autonomia feminina. Defendemos a educação como instrumento de transformação cultural.
Também acreditamos que a construção de uma sociedade mais igualitária passa pela capacidade de mulheres apoiarem outras mulheres, rompendo ciclos históricos de julgamento, culpabilização e rivalidade. A sororidade não significa concordar com tudo. Significa reconhecer a humanidade da outra mulher, sua dignidade e seu direito de existir sem violência, preconceito ou discriminação. O futuro que desejamos para a Amazônia e para o Brasil é aquele em que nenhuma mulher precise lutar sozinha.
Fontes:
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) – Violência contra a Mulher?
Atlas da Violência 2024 – IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança Pública?
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)?
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