15 de Setembro de 2026

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Especial Mulher - 28/08/2026

'Nós não somos animais de zoológico': Vanda Witoto rebate fala de Flávio Bolsonaro sobre povos indígenas

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Foto: Reprodução/Google/Montagem Portal Mulher Amazonica

Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica

Uma declaração do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) sobre povos indígenas provocou reação da ativista indígena Vanda Witoto, do Amazonas. O episódio ocorreu após o parlamentar relatar, durante entrevista ao podcast Market Makers, uma visita a uma comunidade indígena em São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas, e afirmar que uma das demandas apresentadas teria sido o acesso à internet.

 

Ao contar o episódio, Flávio Bolsonaro afirmou que os indígenas teriam pedido “Wi-Fi” porque queriam se conectar e “fazer parte da sociedade”. Na sequência, declarou que eles não queriam mais ser tratados como “animal de zoológico”, fazendo referência à imagem de comunidades indígenas como atrações para turistas.A fala rapidamente ganhou repercussão e abriu espaço para uma discussão que vai muito além da conectividade. Para Vanda Witoto, apresentar o acesso à internet como síntese das necessidades dos povos originários reduz uma realidade marcada por desafios históricos relacionados à proteção dos territórios, à saúde, à educação, ao saneamento, à água e ao respeito aos modos de vida indígenas.

 

A crítica de Witoto também questiona a forma como os povos originários são frequentemente representados no imaginário nacional. Para ela, existe uma visão colonial que ainda associa indígenas à ideia de atraso ou de isolamento, ignorando que essas populações possuem conhecimentos próprios, línguas, tecnologias, organizações sociais e cosmologias que fazem parte da construção histórica do país.

 

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Conectividade também é direito, mas não resume as necessidades

 

 

 

O debate sobre internet, no entanto, não significa que a conectividade seja uma questão secundária para os povos indígenas. O acesso à tecnologia pode ampliar a comunicação, fortalecer a educação, facilitar o acesso a serviços públicos e permitir que as próprias comunidades produzam e divulguem suas narrativas.A internet também se tornou uma ferramenta de mobilização e defesa territorial. Lideranças indígenas utilizam celulares e redes digitais para denunciar invasões, registrar situações de violência, divulgar suas culturas e ampliar a visibilidade de reivindicações que muitas vezes permanecem distantes dos grandes centros de decisão.O problema, na avaliação de Witoto, está em transformar uma dessas demandas em uma espécie de explicação total sobre o que os povos indígenas desejam. A reivindicação por conectividade pode existir ao mesmo tempo em que comunidades lutam por território protegido, atendimento de saúde, educação diferenciada, água potável e políticas públicas adequadas às diferentes realidades indígenas.

 

A disputa pelo território

 

 

Outro ponto que aparece na fala de Flávio Bolsonaro é a defesa de maior autonomia para que povos indígenas decidam sobre o uso de seus territórios. O candidato afirmou que, caso uma comunidade queira plantar, arrendar terras ou autorizar a exploração do subsolo, deveria poder fazê-lo, com recebimento de royalties e responsabilidade ambiental.

 

A questão é especialmente sensível na Amazônia, onde os territórios indígenas estão no centro de disputas envolvendo mineração, exploração econômica, infraestrutura e preservação ambiental. Para lideranças indígenas, qualquer discussão sobre desenvolvimento precisa considerar a proteção territorial e o direito das comunidades de participar efetivamente das decisões que afetam suas vidas.°A experiência histórica ajuda a explicar a resistência a modelos de exploração que chegam aos territórios sem considerar seus impactos sociais, culturais e ambientais. Do ciclo da borracha às atuais pressões econômicas sobre a floresta, diferentes povos indígenas carregam marcas de violência, doenças, deslocamentos e perda territorial.

 

“Não somos atração exótica”

 

 

A expressão utilizada por Flávio Boonaro também trouxe para o debate a maneira como os povos indígenas são vistos por parte da sociedade brasileira. Ao falar em indígenas como “animais de zoológico”, o candidato procurou criticar uma visão que, segundo ele, transforma comunidades em atrações turísticas.°Para Vanda Witoto, porém, a discussão precisa ir além da comparação. Os povos indígenas não devem ser enquadrados nem como símbolos de atraso nem como personagens exóticos de uma Amazônia idealizada. São povos contemporâneos, inseridos em diferentes realidades, que preservam suas identidades ao mesmo tempo em que utilizam tecnologias, ocupam universidades, participam da política e reivindicam espaço nas decisões sobre o país.

 

A presença de lideranças indígenas nas redes sociais e na política brasileira demonstra justamente essa transformação. Vanda Witoto é uma das vozes que passaram a ocupar espaços públicos para falar diretamente sobre as demandas de seus povos, sem depender exclusivamente da narrativa construída por terceiros.

 

Uma questão que chega à eleição de 2026

 

 

 

A troca de críticas acontece em meio à disputa eleitoral de 2026 e recoloca no centro da campanha presidencial temas que ultrapassam a polarização partidária. Conectividade, autonomia, exploração econômica, preservação ambiental e direitos territoriais fazem parte de uma mesma discussão: quem deve decidir o futuro da Amazônia e de seus povos.°Ao contestar a declaração de Flávio Bolsonaro, Vanda Witoto chama atenção para a necessidade de ouvir os povos indígenas a partir de suas próprias experiências e prioridades. A discussão, portanto, não deveria ser sobre escolher entre tecnologia e tradição, mas reconhecer que os povos originários podem querer internet, educação, saúde, desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, a preservação de seus territórios e de suas identidades.

 

A mensagem deixada pela ativista é também um alerta contra a permanência de estereótipos construídos historicamente sobre os povos indígenas. Antes de falar sobre o que eles precisam ou desejam, é necessário reconhecer sua autonomia, sua diversidade e seu direito de participar das decisões que dizem respeito ao próprio futuro.“Antes da sua visão retrógrada sobre nós, aprenda a respeitar quem estava aqui primeiro”, afirmou Vanda Witoto.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Para o Portal Mulher Amazônica, os povos indígenas não precisam ser incluídos em uma sociedade que historicamente os excluiu como se estivessem fora dela. Eles já fazem parte da sociedade brasileira e têm o direito de participar das decisões sobre seus territórios, suas culturas e seu futuro, sem abrir mão de suas identidades. Também defendemos que qualquer debate sobre desenvolvimento na Amazônia precisa considerar a proteção dos territórios indígenas, a preservação dos modos de vida e o direito das comunidades de serem efetivamente ouvidas. Não existe desenvolvimento verdadeiramente sustentável quando os povos que vivem e protegem esses territórios são tratados apenas como obstáculos ou como personagens de uma Amazônia idealizada.

 

 

A fala de Vanda Witoto merece ser considerada dentro desse debate porque coloca no centro aquilo que muitas vezes é deixado de lado: a dignidade, o território, a educação, a água, a autonomia e o direito de os povos originários contarem suas próprias histórias.  O Portal Mulher Amazônica acredita que a Amazônia precisa ser discutida com seus povos, e não apenas sobre seus povos. Respeitar quem estava aqui primeiro não é uma concessão. É reconhecer uma história, uma cultura e direitos que continuam sendo fundamentais para o presente e o futuro da região.

 
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Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica, com base em informações públicas e declarações divulgadas durante a campanha eleitoral de 2026, com abordagem jornalística voltada à valorização das vozes, dos direitos e da participação das mulheres e dos povos da Amazônia no debate público.
 

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