15 de Setembro de 2026

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Especial Mulher - 27/08/2026

Nellie Bly e a violência contra mulheres: a jornalista que entrou em um manicômio para revelar uma realidade escondida

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Foto: Reprodução/Google

Para as mulheres que conseguiam entrar nas redações, as possibilidades costumavam ser limitadas a assuntos considerados adequados ao universo feminino.

No século XIX, quando mulheres internadas em instituições psiquiátricas tinham pouca voz e quase nenhuma possibilidade de denunciar abusos, uma jornalista decidiu fazer algo radical: entrar naquele lugar e viver, por dez dias, a realidade que queria revelar.

 

Antes de o jornalismo investigativo contar com câmeras escondidas, gravações digitais, grandes bancos de dados e equipes especializadas, uma mulher decidiu que, para contar uma história que ninguém queria enxergar, talvez fosse necessário atravessar a porta que separava o público daquilo que acontecia longe dos olhos da sociedade. Seu nome era Elizabeth Jane Cochran, mas o mundo conheceria sua assinatura como Nellie Bly.

 

No final do século XIX, o jornalismo ainda era um território predominantemente masculino. Para as mulheres que conseguiam entrar nas redações, as possibilidades costumavam ser limitadas a assuntos considerados adequados ao universo feminino. Bly não aceitou esse lugar. Ela queria investigar. E, em 1887, sua investigação a levaria para dentro de um manicômio feminino em Nova York.

 

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A jornalista que decidiu não ficar do lado de fora

 

 

 

Nascida em 1864, na Pensilvânia, Bly iniciou sua carreira no Pittsburgh Dispatch depois de escrever uma resposta contundente a um artigo que criticava mulheres que buscavam trabalhar fora de casa. O texto chamou a atenção da redação e abriu para ela a possibilidade de trabalhar como jornalista. Bly rapidamente começou a tratar de assuntos que ultrapassavam os limites impostos às mulheres de sua época. Escreveu sobre condições de trabalho, pobreza, divórcio e situações sociais que raramente recebiam atenção de uma imprensa ainda profundamente marcada pela Sua característica mais importante, porém, começava a aparecer: ela não queria apenas ouvir sobre um problema. Queria chegar até ele. Foi essa disposição que a levou ao New York World, jornal de Joseph Pulitzer.

 

Dez dias dentro de um manicômio

 

A missão recebida por Bly parecia improvável. Ela deveria investigar as condições enfrentadas pelas mulheres internadas no Women’s Lunatic Asylum, instituição localizada em Blackwell’s Island, atual Roosevelt Island, em Nova York. Mas havia um problema: jornalistas não tinham acesso livre ao interior da instituição. Então Bly decidiu entrar como paciente.

 

Ela simulou sintomas de doença mental e conseguiu ser internada. A partir daquele momento, deixou de observar a instituição como repórter e passou a experimentar, na própria pele, a rotina das mulheres que estavam ali. Durante dez dias, conviveu com as pacientes e testemunhou condições que posteriormente descreveria em suas reportagens. Havia negligência, alimentação inadequada, roupas insuficientes e tratamentos abusivos. A instituição que deveria oferecer cuidado se transformava, na experiência relatada por Bly, em um ambiente de sofrimento e desamparo. E havia algo ainda mais grave: aquelas mulheres tinham pouca possibilidade de fazer sua própria denúncia chegar ao mundo exterior. Foi nesse silêncio que o jornalismo de Bly entrou.

 

Quando ninguém acreditava nas mulheres

 

 

 

Talvez esse seja o aspecto mais importante da investigação e um dos menos lembrados quando a história de Nellie Bly é contada. A reportagem não tratava apenas das condições de um manicômio. Ela revelava uma estrutura na qual mulheres estavam submetidas a uma instituição e tinham sua voz praticamente anulada. Uma vez internada, a mulher passava a depender da própria instituição para ser ouvida. E como denunciar abusos quando ninguém está disposto a acreditar em você? Essa pergunta continua atual, mas tinha uma dimensão ainda mais cruel no século XIX. A mulher considerada “louca” podia perder não apenas sua liberdade, mas também sua credibilidade perante a sociedade. Bly percebeu que, para tornar aquela realidade pública, seria necessário produzir uma prova que pudesse ser lida por quem estava do lado de fora. Ela própria se tornou testemunha.

 

A reportagem que atravessou os muros

 

O resultado da experiência foi publicado pelo New York World em uma série de reportagens que posteriormente deu origem ao livro Ten Days in a Mad-House. A repercussão foi enorme. O trabalho de Bly ajudou a provocar discussões sobre as condições das instituições de assistência e contribuiu para pressionar autoridades a promover mudanças e ampliar recursos destinados ao atendimento. Mais do que denunciar um manicômio específico, a reportagem mostrou o que poderia acontecer quando uma instituição fechada funcionava longe dos olhos do público. Bly fez aquilo que hoje reconhecemos como uma das marcas do jornalismo investigativo: entrou onde a informação não estava disponível para descobrir o que acontecia quando ninguém estava olhando.

 

A violência também pode estar escondida atrás de uma instituição

 

 

Existe uma dimensão importante nessa história quando olhamos para ela a partir da perspectiva das mulheres. Nem toda violência aparece como uma agressão visível. Pode existir na negligência, na privação, na humilhação, na ausência de escuta, no abuso de autoridade e na retirada da autonomia. O caso investigado por Bly mostra justamente como uma instituição pode se tornar um espaço de violência quando aqueles que estão sob seus cuidados deixam de ser tratados como sujeitos de direitos. As mulheres internadas não tinham apenas seus corpos dentro daqueles muros. Tinham também suas vozes, suas histórias e sua autonomia submetidas a uma estrutura que decidia por elas. A grande contribuição de Bly foi fazer com que essas mulheres deixassem de ser invisíveis.

 

O que Nellie Bly ainda pode ensinar ao jornalismo

 

Mais de um século depois, a tecnologia mudou completamente a forma de produzir notícias. Mas uma coisa permaneceu: algumas histórias continuam escondidas porque existe alguém interessado em mantê-las fora do olhar público. Bly mostrou que investigar não é simplesmente reunir informações. É perceber onde existe uma ausência.

 

Quem não está sendo ouvido? Quem não consegue denunciar? Quem está atrás de uma porta que ninguém pode atravessar? Quem está sendo tratado como problema quando deveria ser tratado como pessoa? Essas perguntas ajudam a entender por que a reportagem de Bly continua relevante. Ela não entrou naquele manicômio apenas para produzir uma história extraordinária. Ela entrou porque havia mulheres vivendo uma realidade que o lado de fora não conhecia. E decidiu que aquilo precisava ser contado. Ainda hoje, mulheres que denunciam violência, abuso ou negligência muitas vezes precisam enfrentar uma segunda batalha: provar que aquilo realmente aconteceu.

 

A história de Bly lembra que o jornalismo pode cumprir um papel fundamental nesse processo quando se recusa a aceitar o silêncio como resposta. Sua história permanece porque há algo profundamente atual em sua atitude: quando uma realidade é invisibilizada, alguém precisa decidir que ela merece ser vista. E talvez essa seja uma das maiores perguntas deixadas por Nellie Bly ao jornalismo contemporâneo: quantas histórias de mulheres continuam escondidas porque ainda não encontramos coragem para atravessar a porta?

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

Fotos: Reprodução/Gooogle

 

O Portal Mulher Amazônica defende que contar histórias de mulheres também é uma forma de enfrentar os silêncios que historicamente ajudaram a manter diferentes formas de violência longe do olhar público. A trajetória de Nellie Bly mostra que o jornalismo pode ir além de registrar acontecimentos. Pode investigar estruturas, questionar instituições e dar visibilidade a pessoas cuja voz foi ignorada. Para nós, lembrar Nellie Bly é também lembrar que mulheres não devem ser apenas personagens das histórias que o jornalismo conta. Elas precisam ser ouvidas, reconhecidas como fontes, investigadoras, produtoras de conhecimento e protagonistas da própria narrativa. A violência contra as mulheres nem sempre acontece diante das câmeras. Muitas vezes está escondida dentro de instituições, relações de poder, ambientes familiares, espaços de trabalho e estruturas que dificultam a denúncia. É por isso que histórias como a de Bly continuam necessárias. Porque quando o silêncio protege quem abusa, contar a verdade também pode ser uma forma de romper esse silêncio.

 
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Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica com base em documentos históricos, registros da Library of Congress, arquivos jornalísticos e informações de instituições especializadas na preservação da história do jornalismo e das mulheres, com abordagem voltada à trajetória de Nellie Bly, ao jornalismo investigativo e à visibilidade da violência e dos abusos sofridos por mulheres em instituições.

 

Fontes: Library of Congress
Chronicling America, National Women’s Hall of Fame e registros históricos sobre a trajetória profissional de Nellie Bly.
 

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