A comparação rapidamente deixou de ser apenas um meme político e passou a alimentar uma discussão muito mais ampla sobre misoginia, violência política de gênero e os limites que ainda cercam a participação feminina nos espaços de poder.
Por Carla Martins- Bastou a divulgação de um desentendimento envolvendo Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro para que as redes sociais recorressem a uma das personagens mais emblemáticas da literatura contemporânea: Serena Joy, de O Conto da Aia. A comparação rapidamente deixou de ser apenas um meme político e passou a alimentar uma discussão muito mais ampla sobre misoginia, violência política de gênero e os limites que ainda cercam a participação feminina nos espaços de poder.
Segundo Michelle Bolsonaro, durante uma discussão sobre articulações políticas no Ceará, ela teria ouvido que “não entendia nada de política”. O episódio ganhou grande repercussão e levou milhares de internautas a relacionarem sua situação à trajetória de Serena Joy, personagem criada pela escritora Margaret Atwood.
A comparação, naturalmente, desperta opiniões divergentes. Mas talvez a questão mais importante não seja saber se ela é justa ou exagerada. O verdadeiro debate começa quando percebemos por que tantas pessoas enxergaram esse paralelo. A pergunta que emerge não é apenas sobre Michelle Bolsonaro. É sobre todas as mulheres que, ao conquistarem espaço, ainda precisam provar repetidamente que são capazes de ocupá-lo.
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Por que Serena Joy?

Na obra de Margaret Atwood, Serena Joy é uma personagem marcada por profundas contradições. Antes da criação do regime totalitário de Gilead, ela defendia publicamente uma sociedade baseada em papéis rígidos para homens e mulheres. Tornou-se uma das vozes que ajudaram a legitimar aquele modelo conservador. Entretanto, quando o regime finalmente se consolida, Serena percebe que as regras que ajudou a defender também passam a limitar sua própria existência.
Ela deixa de participar das decisões.
Perde autonomia.
Tem sua voz reduzida.
Descobre que, mesmo ocupando uma posição privilegiada dentro daquele sistema, o poder permanece concentrado nas mãos masculinas. É justamente essa trajetória que muitos usuários das redes sociais utilizaram como metáfora para interpretar o episódio envolvendo Michelle Bolsonaro. Não porque as situações sejam equivalentes, mas porque a literatura frequentemente oferece símbolos capazes de traduzir conflitos contemporâneos. Grandes obras sobrevivem ao tempo justamente porque ajudam diferentes gerações a compreender relações humanas que continuam se repetindo.
Quando a mulher descobre que o poder também pode silenciá-la

Independentemente da posição ideológica de cada pessoa, uma questão permanece.
Por que ainda causa estranhamento quando uma mulher reivindica protagonismo político?
Por que tantas lideranças femininas relatam momentos em que sua inteligência, preparo ou capacidade estratégica são colocados sob suspeita antes mesmo de serem avaliados?
A frase atribuída a Flávio Bolsonaro repercutiu justamente porque toca em uma experiência compartilhada por inúmeras mulheres.
Ela não se restringe aos partidos políticos.
Está presente nas empresas, nas universidades, nas igrejas, nos sindicatos, nas associações e em diferentes ambientes profissionais. Quantas mulheres já ouviram, de maneira explícita ou velada, que determinado assunto seria “complexo demais” para elas? Quantas tiveram suas opiniões ignoradas até serem repetidas por um homem e, somente então, reconhecidas como válidas? Esse tipo de experiência não pertence a um único grupo político. Faz parte de uma realidade muito mais ampla.
O apagamento da voz feminina atravessa ideologias

Especialistas denominam esse fenômeno de violência política de gênero quando ele ocorre no ambiente público. Ela se manifesta por meio de constrangimentos, intimidações, desqualificações ou tentativas de limitar a atuação política de uma mulher em razão do seu gênero. Não importa se ela pertence à esquerda, ao centro ou à direita.
O fenômeno atravessa partidos.
Governos.
Movimentos sociais.
Instituições.
Em diferentes contextos, mulheres continuam enfrentando questionamentos que raramente são dirigidos aos homens nas mesmas condições. No Brasil, embora representem a maioria do eleitorado, ainda ocupam uma parcela significativamente menor dos espaços de decisão política.Quando chegam a esses cargos, frequentemente veem sua aparência, emoções ou vida pessoal receberem mais atenção do que suas propostas e competências.
A misoginia nem sempre grita

Ao falar em misoginia, muitas pessoas imaginam apenas ofensas explícitas ou agressões diretas. Entretanto, pesquisadores que estudam relações de gênero alertam que ela também pode surgir de maneira silenciosa e cotidiana. Ela aparece quando a opinião de uma mulher é considerada automaticamente menos qualificada. Quando sua autoridade precisa ser constantemente comprovada. Quando sua atuação é reduzida a características emocionais. Quando sua competência é colocada em dúvida antes mesmo que seu trabalho seja conhecido.
São comportamentos muitas vezes naturalizados, mas que ajudam a perpetuar estruturas históricas de desigualdade.
O simbolismo por trás da comparação
Nos últimos anos, Michelle Bolsonaro consolidou sua imagem pública junto ao eleitorado conservador, feminino e evangélico. Também ampliou sua participação nas articulações do Partido Liberal, tornando-se uma das principais lideranças femininas da direita brasileira. Talvez por isso a comparação com Serena Joy tenha provocado tanta repercussão. Ela suscita uma reflexão que ultrapassa personagens e partidos.
É possível que uma mulher ocupe posição de destaque dentro de uma estrutura política e, ainda assim, encontre barreiras impostas por relações tradicionais de poder?
Até que ponto o reconhecimento público significa autonomia real?
Quando uma mulher deixa de ser apenas apoiadora e passa a disputar protagonismo, ela encontra as mesmas oportunidades que seus colegas homens?
Essas perguntas não pretendem oferecer respostas definitivas.
Elas convidam à reflexão.

Fotos: Reprodução/Google
Reduzir esse episódio a um conflito familiar ou a uma disputa interna talvez seja simplificar uma discussão muito mais profunda. O caso reacende um tema recorrente na sociedade brasileira: as dificuldades enfrentadas por mulheres que ocupam espaços tradicionalmente dominados por homens. A questão não diz respeito apenas a Michelle Bolsonaro. Também não se limita à direita ou à esquerda.
Ela alcança prefeitas, vereadoras, deputadas, ministras, empresárias, professoras, líderes religiosas e tantas outras mulheres que, diariamente, precisam reafirmar sua legitimidade para ocupar lugares de decisão. A democracia não se fortalece quando algumas mulheres conseguem romper barreiras individualmente. Ela amadurece quando nenhuma mulher precisa pedir autorização para exercer plenamente sua liderança. Entendo que este debate ultrapassa disputas eleitorais e diferenças ideológicas.
Defender a participação feminina nos espaços de poder significa fortalecer os princípios democráticos que garantem igualdade de oportunidades e espeito à pluralidade de vozes. Porque a democracia deixa de ser plena sempre que a voz de uma mulher depende da autorização de alguém para ser ouvida. E uma sociedade verdadeiramente democrática não escolhe quais mulheres merecem voz. Ela assegura que todas tenham o direito de falar, participar e decidir.
Fontes:
The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, obra que inspirou a série homônima e fundamenta o simbolismo discutido no debate público.
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