Quando mulheres governam, a política muda ? e os dados comprovam
Por Maria Santana Souza - Durante as eleições municipais de 2024, o Portal Mulher Amazônica lançou a campanha #CicloDeForça, uma iniciativa editorial e política que deu visibilidade a diversas candidatas a vereadora de Manaus por meio de entrevistas no Ela Podcast. As conversas apresentaram propostas concretas para a cidade, abordaram os desafios enfrentados por mulheres na política local e alimentaram uma expectativa coletiva: a de que a nova legislatura finalmente ampliaria a presença feminina na Câmara Municipal.
A aposta, no entanto, não se confirmou nas urnas
Apesar de mais de 200 mulheres terem se candidatado ao cargo de vereadora em Manaus — número que cumpre e até ultrapassa a cota legal de gênero prevista na legislação eleitoral — apenas três mulheres foram eleitas para ocupar as 41 cadeiras da Câmara Municipal. Na legislatura anterior, a Casa chegou a contar com quatro vereadoras, o que já representava menos de 10% do total. O resultado de 2024, portanto, não apenas frustrou expectativas: representou um retrocesso na representação feminina.
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O cenário escancara um problema estrutural da política brasileira e, em especial, da realidade local: as mulheres entram na disputa, mas não chegam ao poder. A queda no número de vereadoras eleitas evidencia que o entrave não está na falta de candidaturas qualificadas, mas na desigualdade de condições de campanha, no acesso limitado a recursos financeiros, no pouco apoio partidário e na força de redes políticas masculinas historicamente consolidadas em Manaus.
Quando mulheres governam, a política muda — e os dados comprovam

Estudos nacionais e internacionais demonstram que a presença de mulheres nos parlamentos locais está diretamente associada à ampliação de políticas públicas voltadas ao bem-estar social. Pesquisas da ONU Mulheres, do Banco Mundial e de universidades brasileiras indicam que mulheres eleitas tendem a priorizar áreas como:
- saúde básica e atenção primária;
- educação e políticas para a infância;
- assistência social e combate à pobreza;
- enfrentamento à violência contra mulheres;
- políticas de cuidado, mobilidade urbana e inclusão social.
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No Brasil, levantamentos do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e do Instituto Patrícia Galvão apontam que câmaras municipais com maior presença feminina aprovam mais projetos relacionados à proteção de mulheres, crianças e populações vulnerabilizadas, além de exercerem maior fiscalização sobre o orçamento público destinado a políticas sociais.
No contexto amazônico, essa presença se torna ainda mais estratégica. Mulheres parlamentares costumam atuar com maior atenção às desigualdades territoriais, ao acesso a serviços públicos nas periferias, às políticas de cuidado e à defesa de direitos humanos — temas centrais para uma cidade marcada por desigualdades históricas, crescimento urbano desordenado e vulnerabilidades sociais como Manaus.
A redução da presença feminina na Câmara Municipal, portanto, não é apenas um dado estatístico. É a perda concreta de vozes que tensionam prioridades, ampliam agendas e conectam o poder legislativo às demandas reais da população.
O que defendem as vereadoras eleitas em Manaus

As três vereadoras atualmente eleitas para a Câmara Municipal de Manaus concentram sua atuação em pautas historicamente negligenciadas pelo poder local, como:
- enfrentamento à violência contra a mulher;
- fortalecimento da atenção básica em saúde, com foco em mulheres e famílias;
- políticas de assistência social voltadas às periferias;
- defesa dos direitos humanos e do acesso a serviços públicos nos bairros mais vulnerabilizados.
Essas agendas, embora fundamentais para a vida cotidiana da população, costumam enfrentar resistência política e menor prioridade orçamentária. A baixa presença feminina faz com que essas pautas dependam de poucas vozes para avançar, sobrecarregando as parlamentares eleitas e limitando o alcance de políticas públicas que poderiam transformar a cidade de forma mais ampla e estruturante.
O paradoxo democrático das eleições locais

As eleições municipais são, em tese, o espaço mais próximo da população. É nelas que se decidem políticas que impactam diretamente o cotidiano: transporte, saúde, educação, assistência social, urbanismo e segurança comunitária. Ainda assim, é justamente nesse nível que a representação feminina costuma ser menor.
Em Manaus, o paradoxo é evidente: mulheres participam, se candidatam, constroem propostas e dialogam com a população, mas continuam encontrando um sistema político que não lhes oferece igualdade de condições para vencer.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: ReproduçãoGoogle
Para o Portal Mulher Amazônica, a experiência da campanha #CicloDeForça revelou uma contradição profunda da democracia local. As mulheres falam, se organizam, se qualificam, se candidatam e apresentam propostas consistentes — mas seguem sendo barradas no momento decisivo do voto, da estrutura partidária e do financiamento eleitoral.
Os resultados das eleições municipais de 2024 em Manaus demonstram que apostar apenas na ampliação do número de candidaturas femininas não é suficiente. É indispensável garantir financiamento justo, divisão equitativa do tempo de propaganda, combate efetivo à violência política de gênero e compromisso real dos partidos com a eleição de mulheres — e não apenas com o cumprimento formal das cotas.
A sub-representação feminina não prejudica apenas as mulheres. Ela empobrece a democracia, limita a diversidade de agendas e impacta diretamente a qualidade das políticas públicas oferecidas à população.

Fotos: Reprodução Portal Mulher Amazônica
Democracia não é apenas permitir que mulheres concorram.
Democracia é garantir que elas tenham condições reais de vencer, legislar e governar.
O Portal Mulher Amazônica reafirma seu compromisso de seguir acompanhando, cobrando e dando visibilidade às mulheres que insistem em ocupar a política institucional — porque quando mulheres governam, a cidade inteira avança.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Estatísticas eleitorais e dados de candidaturas e eleitos (eleições municipais de 2024)
ONU Mulheres — Relatórios sobre participação política feminina e governança local
Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) — Estudos sobre financiamento de campanha, gênero e representação política
Instituto Patrícia Galvão — Pesquisas e análises sobre mulheres na política e políticas públicas
Observatórios de gênero e democracia (Brasil) — Relatórios sobre violência política de gênero e desigualdades eleitorais
Câmara Municipal de Manaus — Composição da legislatura e perfis parlamentares
Portal Mulher Amazônica — Campanha #CicloDeForça (2024) e entrevistas do Ela Podcast
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