09 de Outubro de 2026

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Comportamento - 08/09/2026

Mãe 'chata': por que dizer 'não' pode ser uma das formas mais difíceis de amar

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Foto: Reprodução/Google

A mudança, porém, não deveria significar o desaparecimento dos limites. Abandonar o autoritarismo é diferente de abandonar a autoridade.

Em uma época em que muitos pais tentam proteger os filhos de qualquer frustração, especialistas reforçam que estabelecer limites não significa ser autoritário. O desafio está em educar sem violência, mas também sem abrir mão da responsabilidade adulta. Durante muito tempo, educar esteve associado a regras rígidas, castigos e pouca abertura para o diálogo. Hoje, sabemos que violência física, humilhação, ameaça e medo não são ferramentas educativas saudáveis. A mudança, porém, não deveria significar o desaparecimento dos limites. Abandonar o autoritarismo é diferente de abandonar a autoridade.

 

A Organização Mundial da Saúde recomenda que pais e cuidadores estabeleçam regras familiares claras, acompanhem o comportamento dos filhos, mantenham comunicação adequada e utilizem estratégias disciplinares não violentas. Isso significa que dizer “não”, estabelecer horários, cobrar responsabilidades e definir consequências não constitui, por si só, uma forma de violência.

 

O limite passa a ser um problema quando vem acompanhado de agressão, humilhação ou intimidação. A própria OMS alerta que punições corporais não produzem benefícios para as crianças e estão associadas a consequências físicas, emocionais, cognitivas e comportamentais. Práticas psicológicas que ridicularizam, ameaçam ou assustam também podem causar danos.

 

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Criança precisa de acolhimento, mas também precisa de referência

 

 

 

Talvez um dos pontos menos discutidos seja que limite e vínculo não são opostos. A criança não precisa escolher entre ter pais que a acolhem e pais que estabelecem regras. Precisa das duas coisas. Estudos da Universidade Harvard, destacam a importância das relações responsivas entre crianças e adultos. A presença de um cuidador que percebe as necessidades da criança, responde a elas e mantém interações consistentes contribui para o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivas. Isso significa que uma criança pode ser ouvida sem ser colocada no comando da família. Pode expressar raiva sem ter autorização para agredir. Pode discordar sem deixar de cumprir uma responsabilidade. Pode ter autonomia crescente sem precisar decidir tudo sozinha. Educar não é eliminar todas as frustrações da infância. É ajudar a criança a aprender a atravessá-las.

 

Entre o autoritarismo e a permissividade

 

A discussão costuma apresentar dois extremos. De um lado, o modelo autoritário, no qual o adulto exige obediência pelo medo. Do outro, a permissividade, quando o responsável evita qualquer conflito, cede constantemente e transforma a criança em protagonista de decisões que ainda deveriam estar sob responsabilidade dos adultos. Nenhum dos dois extremos oferece uma resposta simples para os desafios da parentalidade. O UNICEF Brasil defende práticas de parentalidade positiva, educação não violenta e comunicação respeitosa, mas isso não deve ser confundido com deixar tudo permitido. A proposta é substituir violência e punição degradante por diálogo, orientação, acompanhamento e estratégias que ajudem a criança a compreender limites e consequências.

 

A criança não precisa ser governada pelo medo. Mas também não precisa governar a casa. É justamente nessa fronteira que a autoridade parental ganha outro significado. Autoridade não é gritar mais alto. É assumir a responsabilidade de tomar decisões que nem sempre serão populares.

 

O “não” que protege

 

 

 

A mãe que determina a hora de dormir provavelmente não será a pessoa mais querida da casa quando o celular precisa ser desligado. A que cobra o dever de casa pode ouvir reclamações. A que exige respeito, organização e responsabilidade pode ser chamada de exagerada. Mas parentalidade não é uma competição de popularidade. Crianças precisam aprender que desejos não são direitos, que escolhas produzem consequências e que convivência exige consideração pelo outro. Essas aprendizagens não acontecem apenas quando tudo está bem. Elas também surgem nos momentos em que a criança escuta um “agora não”, “isso não pode” ou “você precisa cumprir sua responsabilidade”. O limite, nesse sentido, não é necessariamente uma barreira contra a criança. Pode ser justamente a estrutura que permite que ela desenvolva autonomia com segurança.

 

Por que tantas mães têm medo de dizer não?

 

Existe ainda uma dimensão pouco discutida: a culpa materna. A maternidade contemporânea é atravessada por uma expectativa quase impossível de perfeição. A mulher deve ser acolhedora, paciente, presente, profissionalmente ativa, emocionalmente equilibrada e capaz de criar filhos felizes, enquanto ainda administra as inúmeras exigências da vida cotidiana.Nesse cenário, estabelecer limites pode despertar dúvidas: “Estou  sendo rígida demais?”, “Será que estou traumatizando meu filho?”, “Será que deveria fazer diferente?”. A questão é que uma criança não precisa de uma mãe perfeita. Precisa de um adulto responsável e presente, capaz de acolher, orientar, corrigir, negociar quando possível e sustentar um limite quando necessário. A própria OMS inclui, em programas de parentalidade, estratégias relacionadas à regulação emocional dos pais, comunicação e resolução de problemas. Isso revela algo importante: educar uma criança também exige que o adulto aprenda a lidar com as próprias emoções.

 

A verdadeira mãe “chata”

 

 

 

Talvez seja hora de mudar o significado da expressão. A mãe “chata” não é a que grita, humilha ou bate. Pode ser aquela que pergunta se a tarefa foi feita, lembra da higiene, ensina a organizar os próprios objetos, estabelece horários, cobra respeito e explica que liberdade vem acompanhada de responsabilidade. Pode ser também aquela que não tenta compensar a ausência com presentes, que não permite que uma birra determine todas as decisões da casa e que consegue dizer “eu te amo” enquanto explica que determinada atitude está errada. Ela pode não ser a mais popular naquele momento. Mas talvez esteja fazendo algo que a infância precisa: preparando uma pessoa para um mundo que não será organizado permanentemente em torno de suas vontades.

 

Limite também é uma forma de cuidado

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 


Existe uma diferença importante entre obedecer por medo e aprender, progressivamente, a compreender regras, responsabilidades e consequências. A primeira experiência pode produzir submissão; a segunda pode contribuir para a construção da autonomia. Por isso, defender limites não significa defender a volta de uma educação baseada em violência ou autoritarismo. Significa reconhecer que crianças precisam de adultos que ocupem o lugar de adultos. A autoridade que protege não precisa ferir. A disciplina que ensina não precisa humilhar. E o “não” não precisa diminuir o amor. Talvez seja essa a verdadeira provocação por trás da expressão “mãe chata”. O problema não está em uma mãe contrariar o filho. Está quando, por medo de frustrá-lo, ela deixa de ensiná-lo a lidar com a frustração. No fim, educar não é construir uma infância sem limites, conflitos ou decepções. É oferecer às crianças condições para compreender esses sentimentos e aprender, pouco a pouco, a enfrentá-los. Porque, algumas vezes, dizer “não” também é dizer “eu me importo com você”.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 


O Portal Mulher Amazônica entende que falar sobre maternidade também significa falar sobre a pressão colocada sobre as mulheres para acertarem o tempo inteiro. Defendemos uma educação livre de violência, mas isso não significa uma educação sem limites. Crianças precisam de afeto, escuta, proteção e respeito, mas também precisam de adultos capazes de orientar, estabelecer regras e assumir responsabilidades.
Ser uma mãe presente não significa ser uma mãe perfeita ou uma mãe que diz “sim” para tudo. Significa compreender que educar é também preparar os filhos para a vida, inclusive para aquilo que eles ainda não conseguem compreender.

 
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Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica, com base em orientações da Organização Mundial da Saúde, UNICEF e estudos da Universidade Harvard, sobre desenvolvimento infantil, parentalidade e disciplina não violenta.

 

Fontes:
Organização Mundial da Saúde (OMS)
UNICEF Brasil
Harvard University
 

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