Na nossa Amazônia, as distâncias geográficas tornam o combate à violência um desafio ainda maior para ribeirinhas, indígenas e quilombolas. O Estado precisa chegar a todos os cantos da floresta
Por Maria Santana Souza - Por gerações, a sociedade brasileira repetiu o perigoso e omisso ditado de que "em briga de marido e mulher não se mete a colher". Essa cultura do silêncio, que tentava confinar as agressões físicas e psicológicas ao ambiente estritamente privado, custou e ainda custa a vida de milhares de brasileiras. No entanto, o ordenamento jurídico do nosso país é categórico ao derrubar esse mito: a violência doméstica e familiar contra a mulher não é um problema de foro íntimo; é uma das formas mais brutais de violação dos Direitos Humanos.
Essa premissa ganha força máxima no Artigo 6º da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que reconhece explicitamente essa dimensão transindividual da violência de gênero. Ao elevar a proteção da mulher ao patamar dos direitos humanos, a legislação reforça o dever inegociável do Estado de prevenir, proteger e enfrentar essas violações. O texto legal retira o peso da invisibilidade dos ombros das vítimas e o transforma em uma responsabilidade coletiva e institucional.
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Para nós, que pautamos o debate público a partir do Portal Mulher Amazônica, a aplicação prática do Artigo 6º carrega desafios estruturais imensos. Se nos grandes centros urbanos romper o ciclo da violência já é uma tarefa complexa, nas vastidões da nossa região as barreiras geográficas e o isolamento social tornam o cenário ainda mais severo.
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Mulheres indígenas, ribeirinhas, quilombolas e extrativistas enfrentam a distância física das delegacias especializadas, a escassez de redes de acolhimento e a falta de canais de denúncia acessíveis às suas realidades. Na Amazônia, o cumprimento do dever do Estado de "prevenir e proteger" exige barcos-patrulha, equipes multidisciplinares itinerantes e o fortalecimento de lideranças comunitárias femininas, que muitas vezes são o único ponto de apoio de uma vítima no coração da floresta.
O Dever do Estado e a Vigilância Social

Tratar a violência doméstica como uma afronta aos direitos humanos significa entender que o feminicídio é o destino final de um ciclo que começa muito antes, com o controle, o insulto e o isolamento econômico. Quando o Estado falha em criar redes de apoio eficientes ou quando o Judiciário adota uma postura de lentidão, a própria estrutura democrática é fragilizada.
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Fotos: Reprodução
O Artigo 6º da Lei Maria da Penha funciona como um escudo e, ao mesmo tempo, como uma cobrança permanente. Ele exige do poder público um orçamento robusto para políticas de gênero, capacitação de agentes de segurança para evitar a revitimização e o suporte financeiro para que as mulheres possam alcançar a independência e reconstruir suas vidas com dignidade.
A violência contra a mulher atinge a base de toda a sociedade. Não podemos falar em desenvolvimento sustentável, preservação de territórios ou soberania na Amazônia se metade da nossa população viver sob a sombra do medo dentro de suas próprias casas. Meter a colher, denunciar e exigir a presença vigorosa do Estado é o nosso dever diário na construção de um futuro onde a floresta e as mulheres possam, finalmente, viver em paz.
Maria Santana Souza,
Editora Executiva e Analista Política do Portal Mulher Amazônica.
Fontes:
Artigo 6º da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006)
Institulo Maria da Penha - A lei na íntegra e comentada
Observatória da Mulher do Senado Federal
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