09 de Outubro de 2026

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Política - 15/09/2026

Dino expõe dinheiro público na rede do filme de Bolsonaro

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Foto: ReproduçãoGoogle

Investigação sobre emendas alcança produtora de ?Dark horse? e abala versão de Flávio Bolsonaro; dinheiro público da previdência de estados também entrou no banco Master

O filme “Dark horse”, apresentado como uma produção privada sobre Bolsonaro (PL), tornou-se apenas a parte mais visível de uma rede financeira e política que atravessa emendas parlamentares, contratos públicos, organizações privadas, o banco Master e um fundo constituído nos Estados Unidos. A frente mais concreta dessa teia está nas mãos do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Diferentemente das suspeitas ainda não comprovadas sobre o destino final do dinheiro colocado na produção, a investigação conduzida por Dino parte de um fato objetivo: emendas parlamentares destinaram recursos públicos a entidades e empresas ligadas ao mesmo núcleo empresarial responsável pelo filme.

 

Essa constatação não prova, por si só, que as emendas pagaram diretamente as filmagens. Entretanto, derruba a tentativa política de apresentar “Dark horse” como uma operação totalmente isolada do dinheiro público. A produtora Go Up Entertainment e sua proprietária, Karina Ferreira da Gama, estão inseridas em uma estrutura que recebeu emendas e contratos governamentais e realizou transferências internas ainda sob investigação. O material reunido contém suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, emissão de documentos fiscais irregulares e desvio de finalidade. Como as apurações ainda estão em andamento, as responsabilidades individuais não estão definitivamente estabelecidas.

 

Dino segue o caminho das emendas

 

Flávio Dino determinou inicialmente a abertura de uma apuração separada para investigar emendas destinadas a organizações relacionadas à Go Up. Neste mês, autorizou a operação Make Up, executada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União. O foco é a possível destinação irregular de recursos indicados pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), roteirista do filme e ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro. As diligências alcançaram Karina Gama, a Go Up e entidades controladas ou presididas pela empresária. Documentos tornados públicos por Dino somam aproximadamente 5 mil páginas.

 

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A investigação trabalha com a hipótese de que Frias ocupava posição de liderança em uma “arquitetura criminosa” montada para captar e movimentar dinheiro público. Trata-se, contudo, de uma hipótese policial, sujeita ao contraditório e ainda não transformada em condenação. Duas emendas indicadas pelo parlamentar financiaram projetos formalmente destinados a artes marciais e à formação de jovens empreendedores. A Go Up recebeu R$ 645 mil no fim de 2025. A proprietária afirma que o valor foi usado exclusivamente no pagamento de funcionários e nega qualquer repasse ao filme. A defesa sustenta que “Dark horse” foi financiado com recursos privados. A questão aberta pela investigação é se o dinheiro público que circulou entre organizações do mesmo grupo pode ter sido misturado, direta ou indiretamente, com as despesas da produção.

 

Contrato de R$ 157 milhões

 

 

Outro braço da apuração envolve o Instituto Conhecer Brasil (ICB), também presidido por Karina Gama. A entidade firmou contrato de R$ 157 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar 5 mil pontos públicos de internet. Investigadores apontaram que o instituto não possuía experiência compatível com a dimensão do contrato. Dos 5 mil pontos previstos, cerca de 3,2 mil teriam sido entregues. A polícia encontrou indícios de notas fiscais irregulares, serviços simulados e possível desvio de aproximadamente R$ 26 milhões. A Prefeitura de São Paulo afirma que não identificou irregularidades na contratação. Parte do dinheiro recebido pelo instituto teria sido transferida para outras organizações ligadas a Karina, entre elas a Academia Nacional de Cultura. A Polícia Federal ainda tenta identificar o destino de cerca de R$ 6,2 milhões movimentados por essa entidade. Esse circuito é importante porque demonstra que a produtora não estava sozinha em uma relação comercial privada. Ela integrava um conjunto de organizações alimentado por contratos e emendas públicas.

 

O outro tentáculo chega aos Estados Unidos

 

 

Enquanto Dino investiga o caminho das emendas, outro inquérito no STF acompanha o dinheiro enviado ao exterior por pessoas relacionadas ao banco Master. Segundo a Polícia Federal, Daniel Vorcaro poderia destinar até US$ 24 milhões (aproximadamente R$ 122 milhões na cotação adotada pela investigação) ao fundo norte-americano Havengate Development. O fundo, sediado no Texas, é ligado ao advogado Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro. Um colaborador da investigação declarou ter realizado sete transferências, que totalizaram US$ 12,3 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 69 milhões na época. O dinheiro teria sido movimentado a pedido de Vorcaro. Mensagens examinadas pela PF indicam que Eduardo Bolsonaro participou de orientações sobre a administração desses recursos nos Estados Unidos. A investigação procura descobrir se todo o dinheiro foi realmente usado na produção ou se houve desvio para outras finalidades, entre elas o financiamento da permanência e das atividades políticas de Eduardo nos Estados Unidos.

 

Pedido de Flávio Bolsonaro liga campanha ao caso

 

 

Flávio Bolsonaro aparece na investigação porque teria procurado Vorcaro para obter financiamento para o filme. Essa relação passou a produzir efeitos diretos na campanha presidencial de 2026. O candidato da extrema direita tenta preservar duas versões simultâneas: a de que o longa foi financiado exclusivamente por investidores privados e a de que sua participação se limitou à busca legítima de patrocinadores. A investigação de Dino não demonstra, até agora, que uma emenda entrou diretamente no caixa das filmagens. Mas mostra que a empresa responsável pelo projeto recebeu dinheiro proveniente de emendas e estava conectada a entidades abastecidas por contratos públicos. Portanto, a declaração de que todo o empreendimento pertence a um ambiente exclusivamente privado deixou de ser uma certeza e passou a ser uma alegação da defesa que precisa ser confrontada com o rastreamento bancário.

 

Estados abasteceram o Master

 

 

A dimensão pública do caso alcança diretamente vários estados e seus fundos previdenciários de servidores públicos, entre os quais, o Amazonas. A Polícia Federal investiga indícios de corrupção relacionados a essas operações. De acordo com a apuração, gestores teriam ignorado alertas técnicos e recomendações contrárias aos investimentos. A PF considera a movimentação compatível com a hipótese de pagamento de propina. Os investigados têm direito de defesa, e ainda não existe decisão judicial definitiva sobre o caso. O elo documental, portanto, é que dinheiro pertencente à previdência dos servidores estaduais foi entregue ao banco de Vorcaro. Assim, esses recursos previdenciários do Amazonas e outros estados, e também municípios, ajudaram a capitalizar uma instituição situada no centro da rede investigada, embora o percurso entre esse aporte específico e o filme não esteja demonstrado.

 

Chegada do filme aos cinemas é incógnita

 

 

Também é necessário fazer uma distinção sobre a existência de “Dark horse”. Há registros de filmagens, elenco, imagens de bastidores e material promocional. Jim Caviezel foi apresentado no papel de Bolsonaro, e cenas foram gravadas no Brasil. O que não está comprovado publicamente é a conclusão de uma versão pronta para distribuição comercial. A estreia havia sido anunciada para este 11 de setembro, mas a produtora informou que adiou o lançamento para depois das eleições e que enfrenta dificuldades para fechar contrato com uma distribuidora. Dessa forma, não é correto afirmar que o filme nunca existiu. A dúvida legítima recai sobre seu estágio de conclusão, o custo verdadeiro, o destino integral dos recursos enviados ao exterior e a possibilidade de lançamento comercial.

 

Investigação atinge coração da campanha

 

Fotos: ReproduçãoGoogle

 

O impacto eleitoral supera a discussão sobre uma obra cinematográfica. “Dark horse” foi concebido para reconstruir Bolsonaro como herói político e transferir esse capital simbólico ao filho que disputa a Presidência. A estreia durante a campanha poderia funcionar como uma peça de propaganda de escala internacional. Agora, o projeto produz o efeito inverso. Obriga Flávio Bolsonaro a explicar por que pediu dinheiro a Vorcaro, qual foi sua participação nas tratativas, quanto chegou efetivamente à produção e como se separavam as contas do filme, da Go Up e das entidades abastecidas por recursos públicos.

 

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O caso também oferece à campanha de Lula um eixo político de confronto: o candidato que se apresenta como adversário do uso eleitoral do Estado está ligado a um projeto desenvolvido dentro de uma rede que recebeu emendas, contratos governamentais e dinheiro de um banqueiro abastecido por fundos previdenciários públicos. Esse será o ponto central da disputa. A investigação ainda não autoriza dizer que dinheiro das previdências estaduais pagou o filme. Mas já impede que a produção seja tratada como uma iniciativa privada simples, transparente e desconectada dos cofres públicos. O longa pode ser apenas a ponta do iceberg. Abaixo dele, as apurações já encontraram emendas parlamentares, contratos milionários, entidades interligadas, operações bancárias suspeitas, fundos no exterior e integrantes da família Bolsonaro.

 

Fonte: com informações BNC Amazonas 

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