A iniciativa reúne propostas relacionadas à participação feminina na política, enfrentamento à violência, autonomia econômica, divisão do trabalho de cuidado e mudanças climáticas
Documento da ONU Mulheres reúne propostas sobre violência, participação política, autonomia econômica, trabalho de cuidado e mudanças climáticas e aponta o que pode ser cobrado de candidaturas e eleitores.
A ONU Mulheres coloca no centro do debate uma pergunta que interessa diretamente a milhões de brasileiras: o que as candidaturas pretendem fazer, de fato, para melhorar a vida das mulheres?
A organização apresentou o documento “10 Propostas pela Vida das Mulheres”, dirigido a candidatas e candidatos, partidos políticos, instituições públicas e à sociedade. A iniciativa reúne propostas relacionadas à participação feminina na política, enfrentamento à violência, autonomia econômica, divisão do trabalho de cuidado e mudanças climáticas.
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O debate ganha dimensão ainda maior quando se observa o tamanho do eleitorado feminino. Em 2026, 83,9 milhões de mulheres estão aptas a votar, o equivalente a 52,84% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Mas ser maioria entre quem vota ainda não significa ocupar os espaços de decisão na mesma proporção.
O TSE reconhece que a sub-representação feminina e a violência política de gênero continuam entre os obstáculos à participação plena das mulheres na política. Nas eleições de 2022, apenas quatro mulheres foram eleitas para o Senado e 91 para a Câmara dos Deputados.
Em 2026, as mulheres representam 34,85% das candidaturas consideradas pelo TSE no cálculo utilizado para a destinação dos recursos públicos de campanha. São 7.165 candidatas em um universo de 20.560 candidaturas analisadas nesse recorte.
Da violência à autonomia econômica

A agenda da ONU Mulheres parte de problemas que estão presentes na vida cotidiana.
A violência é um deles. O documento chama atenção para a dimensão da violência contra as mulheres e para a necessidade de políticas que não se limitem à punição dos agressores, mas também fortaleçam prevenção, proteção, atendimento e autonomia.
A desigualdade econômica também aparece entre as prioridades. Salários menores, dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e a sobrecarga do cuidado interferem diretamente na independência financeira das mulheres e nas possibilidades de construção de suas próprias trajetórias.
O trabalho doméstico e o cuidado, muitas vezes invisíveis, também entram nessa conta. Quando uma mulher dedica grande parte do seu tempo ao cuidado de filhos, idosos, pessoas doentes ou à própria manutenção da casa, sobra menos tempo para estudar, trabalhar, descansar, participar da política e construir autonomia econômica.
É uma discussão que ultrapassa a esfera privada. Quem cuida? Quem trabalha? Quem recebe? Quem decide? São perguntas diferentes, mas que acabam se encontrando quando se fala sobre igualdade.
Mulheres também precisam estar nas decisões sobre o clima

A agenda apresentada pela ONU Mulheres também relaciona participação feminina e mudanças climáticas.
Para as mulheres que vivem em territórios vulneráveis, os efeitos das mudanças climáticas podem atingir diretamente segurança alimentar, renda, moradia, saúde e acesso a serviços.
Na Amazônia, essa discussão ganha uma dimensão própria. Mulheres indígenas, ribeirinhas, agricultoras e moradoras de áreas afetadas por eventos extremos convivem com impactos que não podem ser tratados apenas como questões ambientais.
Quando decisões sobre clima, território e desenvolvimento são tomadas sem a participação das pessoas diretamente afetadas, parte da realidade fica fora da mesa de decisões.
O que as propostas querem colocar no debate eleitoral

As dez propostas apresentadas pela ONU Mulheres atravessam diferentes dimensões da vida feminina, mas têm um ponto em comum: transformar problemas conhecidos em compromissos que possam ser cobrados de quem disputa uma eleição.
A organização afirma que a iniciativa não apoia candidaturas ou partidos. A proposta é oferecer elementos para qualificar o debate público e permitir que eleitoras e eleitores questionem candidatos sobre suas posições e compromissos.
E essa talvez seja uma das questões mais importantes em uma eleição. Não basta perguntar quem está pedindo o voto das mulheres. É preciso perguntar o que será feito com esse voto depois que a eleição terminar.
Quais políticas serão defendidas para combater a violência? Como ampliar a autonomia econômica? O que será feito para reduzir a desigualdade? Como garantir que o trabalho de cuidado não continue recaindo de forma desproporcional sobre as mulheres? Como ampliar a presença feminina nos espaços de decisão? E quais políticas considerarão as mulheres que vivem em diferentes territórios do país?
São perguntas que podem ser feitas independentemente de partido ou posição ideológica.
O voto feminino também é poder de cobrança

As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros. Isso significa que o voto feminino possui peso expressivo na definição dos representantes.
Mas participação eleitoral não termina no dia da votação. Também significa acompanhar propostas, observar trajetórias, verificar compromissos assumidos e cobrar resultados.
A eleição pode escolher representantes. A cidadania continua depois dela.
Para as mulheres amazônidas, esse acompanhamento precisa considerar uma realidade marcada por grandes distâncias territoriais, desigualdades de acesso a serviços públicos e diferentes formas de viver e trabalhar.
Uma política pensada para a mulher brasileira também precisa enxergar as mulheres que vivem na Amazônia. As indígenas, ribeirinhas, negras, agricultoras, empreendedoras, trabalhadoras, mães, estudantes, idosas e tantas outras que vivem realidades diferentes, mas compartilham direitos que precisam ser respeitados.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
O Portal Mulher Amazônica entende que discutir eleições também significa discutir a vida concreta das mulheres.
Violência, renda, trabalho, cuidado, saúde, participação política e mudanças climáticas não são temas isolados. Eles atravessam a rotina de mulheres em diferentes territórios e interferem diretamente em sua autonomia e qualidade de vida.
Em um país onde as mulheres são maioria do eleitorado, o voto feminino não pode ser tratado apenas como número eleitoral. Ele representa participação, escolha e também possibilidade de cobrança.
Por isso, toda candidatura que busca o voto das mulheres deve estar preparada para responder a perguntas concretas sobre a vida delas. Não se trata de dizer às mulheres em quem votar. Trata-se de garantir que elas tenham elementos para decidir.
Porque pedir o voto das mulheres é fácil. Mais importante é dizer, com clareza, o que será feito por elas quando a urna fechar.
Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica, com base em dados e propostas apresentados pela ONU Mulheres e informações oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.
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