No Brasil, a proteção legal aos animais está prevista desde a Constituição Federal, que no artigo 225 impõe ao poder público o dever de proteger a fauna e vedar práticas que submetam animais à crueldade.
Por Carla Martins - Um episódio de extrema crueldade contra um animal doméstico chocou moradores da capital catarinense e espalhou indignação por todo o Brasil. Um cão conhecido como Orelha foi vítima de tortura praticada por quatro jovens, em um caso que a Polícia Civil classificou como brutal e que acendeu o debate sobre a necessidade de punições mais rigorosas e educação ética na formação de crianças e adolescentes.
O cão sofreu agressões que, segundo investigadores, configuram maus-tratos qualificados, crime previsto tanto na legislação ambiental quanto na Lei nº 14.064/2020, conhecida como Lei Sansão, que agravou as penas para crimes cometidos contra cães e gatos no país.
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Investigação da Polícia Civil

A Polícia Civil de Santa Catarina instaurou inquérito para apurar com prioridade o caso da agressão que resultou na morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis (SC). O delegado-geral Ulisses Gabriel, responsável pela coordenação das investigações, detalhou o andamento das diligências e frisou a gravidade do ato. Segundo ele, trata-se de um crime cruel contra um animal querido pela comunidade local, e a polícia trabalha para reunir provas, colher depoimentos e adotar todas as medidas necessárias para responsabilizar os envolvidos de acordo com a lei. Ulisses Gabriel ressaltou ainda que a legislação brasileira prevê penas severas para crimes de maus-tratos e que atos dessa natureza não podem ser tolerados em uma sociedade que se preze.
Revolta nas redes sociais e mobilização cidadã
Nas horas seguintes à divulgação do caso, internautas em todo o Brasil expressaram revolta, tristeza e repulsa nas redes sociais. Hashtags como #JustiçaPorOrelha e #ProteçãoAnimalJá viralizaram, com usuários cobrando penas mais duras e imediatas para os responsáveis. Comentários de usuários destacaram que a violência contra animais é um sintoma de problemas sociais mais profundos, reflexo de uma falha na educação e na transmissão de valores éticos dentro do ambiente familiar. Organizações de defesa dos direitos dos animais também aderiram às manifestações digitais, exigindo respostas rápidas do poder público e mais investimentos em políticas de prevenção e fiscalização.
Quando a educação falha, quem sofre é a sociedade
“O caso do cachorro Orelha escancara algo que vai muito além de um episódio isolado de crueldade. Ele revela uma falha grave na formação humana. Quando pais e responsáveis falham na educação ética, emocional e moral de seus filhos, quem sofre não é apenas a vítima direta — é toda a sociedade. Jovens que são capazes de torturar um ser indefeso aprenderam, em algum momento, que a dor do outro não importa. Isso não nasce do nada — é reflexo de uma educação que negligencia valores básicos como empatia, responsabilidade e respeito à vida. A violência contra animais nunca é um fato isolado. Ela é um sinal de alerta. Um indicativo de que algo está profundamente errado no tecido social. Quando a crueldade é tolerada, relativizada ou silenciada dentro de casa, ela transborda para as ruas. Justiça para Orelha é mais do que punição. É um chamado urgente para que famílias, Estado e sociedade assumam seu papel na formação de cidadãos que entendam que violência não é entretenimento, tortura não é brincadeira e que toda vida importa.” — Carla Martins
Leis de proteção animal no Brasil — avanços e desafios

Fotos: Reprodução/Google
No Brasil, a proteção legal aos animais está prevista desde a Constituição Federal, que no artigo 225 impõe ao poder público o dever de proteger a fauna e vedar práticas que submetam animais à crueldade. A Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais) criminaliza maus-tratos, com penas que incluem detenção e multa. No caso de cães e gatos, a Lei Sansão agravou essas penas, podendo chegar a até cinco anos de prisão, além de multa e proibição da guarda.
Especialistas em direitos animais, no entanto, alertam que o grande desafio não é apenas a existência de leis, mas sua fiscalização e aplicação efetiva, pois muitos casos acabam com penalidades brandas ou aplicadas de forma inadequada, o que desestimula a denúncia e o combate à crueldade. No Congresso, ainda tramitam propostas de lei que visam fortalecer o arcabouço legal, como projetos que aumentam penas, ampliam definições de maus-tratos e criam mecanismos de registro e acompanhamento de casos.
Proteção animal no mundo — exemplos de legislação e tendências
A mobilização pelo bem-estar animal não é exclusiva do Brasil. Vários países adotam leis rígidas para punir crueldade e promover tratamento digno aos animais:
• Alemanha e outros países europeus contam com leis nacionais que proíbem causar sofrimento injustificado a animais, com penas que podem chegar a anos de prisão ou multas substanciais.
• Taiwan proíbe maus-tratos e impõe penalidades de prisão e multas significativas, incluindo proibição histórica do consumo de carne de cachorro e gato no país.
• Reino Unido adotou o Animal Welfare (Sentience) Act 2022, reconhecendo legalmente a senciência dos animais, e leis que permitem penas altas para crueldade grave.
• Bélgica e outros estados europeus incorporaram o bem-estar animal em constituições ou códigos legais, reforçando o compromisso institucional com a vida não humana.
• Austrália (Austrália do Sul) aprovou penalidades que podem chegar a até 10 anos de prisão para crimes de abuso animal, uma das leis mais duras globalmente.
Esses exemplos demonstram uma tendência global de rigor crescente e de reconhecimento legal da senciência animal como base para políticas públicas de proteção. O caso de Orelha acabou se tornando símbolo de uma luta maior: a porção da sociedade que se recusa a aceitar que violência e crueldade sejam naturalizadas ou minimizadas. A repercussão nacional mostra que, para muitos brasileiros, proteger os animais é proteger nossa própria humanidade. A cobrança é clara: penas efetivas para criminosos, mais educação ética desde a infância e políticas públicas que valorizem o respeito à vida em todas as suas formas.
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