08 de Dezembro de 2025

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Especial Mulher - 25/11/2025

As mães esquecidas da ginecologia: a história de Anarcha, Lucy e Betsey, as mulheres escravizadas que transformaram a medicina

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Foto: Reprodução/Google

Hoje, graças ao trabalho de historiadores e pesquisadores, essas mulheres estão finalmente sendo reconhecidas como protagonistas involuntárias de um capítulo crucial da medicina moderna.

 Durante o século XIX, no sul dos Estados Unidos, três mulheres negras escravizadas — Anarcha, Lucy e Betsey — foram submetidas a dezenas de procedimentos ginecológicos dolorosos e não consentidos pelo médico J. Marion Sims, frequentemente chamado de “pai da ginecologia moderna”. Por muito tempo, a história exaltou seus avanços técnicos, mas silenciou completamente a dor, o sofrimento e a resistência das mulheres que tornaram possível seu legado.

 

Hoje, graças ao trabalho de historiadores e pesquisadores, essas mulheres estão finalmente sendo reconhecidas como protagonistas involuntárias de um capítulo crucial da medicina moderna.

 

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O caso de Anarcha: a jovem submetida a mais de 30 cirurgias

 

 

 


Por volta da década de 1840, Anarcha era uma adolescente escravizada que desenvolveu fístula vesicovaginal após um parto extremamente traumático. Essa condição deixava mulheres em sofrimento constante: infecções, dores intensas e incontinência urinária. J. Marion Sims, proprietário de várias pessoas escravizadas e médico influente na Carolina do Sul, decidiu usar Anarcha como “paciente” em seus experimentos.

 

Ele realizou cerca de 30 cirurgias nela — sem anestesia, sem consentimento e sem qualquer direito de recusa. Esses procedimentos foram realizados repetidas vezes, em busca de uma técnica que, anos depois, se tornaria a base para reparos cirúrgicos de fístulas em todo o mundo.

 

Lucy e Betsey: outras vítimas invisibilizadas pela história

 

 

 


Além de Anarcha, outras duas mulheres escravizadas foram forçadas a participar dos experimentos de Sims:
Lucy, de apenas 18 anos Submetida a uma cirurgia para tratamento de fístula, sofreu infecções graves por semanas após o procedimento — resultado da falta de higiene e da ausência de anestesia.

 

Betsey, adulta jovem Também utilizada como corpo experimental, suportou sessões repetidas e dolorosas para que Sims pudesse observar reações, testar instrumentos e aperfeiçoar técnicas. Nenhuma das três possuía autonomia sobre seu próprio corpo. Seus relatos, sentimentos e dores não foram registrados — apenas as observações clínicas de Sims, que descrevia sofrimento extremo como mera “reação experimental”.

 

Por que Sims não usou anestesia? A justificativa racista por trás da prática

 

 

 

A anestesia já existia quando Sims iniciou seus experimentos. O éter, descoberto em 1846, era conhecido na prática médica. Ainda assim, Sims optou por não utilizá-lo. Ele acreditava — como muitos médicos da época — que pessoas negras sentiam menos dor, uma ideia racista pseudocientífica usada para justificar torturas, castigos físicos e abusos médicos. Após aperfeiçoar a técnica, Sims passou a operar mulheres brancas — e, nelas, utilizava anestesia. Esse contraste revela que seus avanços foram construídos à custa do sofrimento exclusivo de mulheres negras escravizadas.

 

Homenagem e reparação histórica: por que hoje falamos em “mães da ginecologia”

 

 

Nas últimas décadas, historiadores, médicos e ativistas vêm chamando Anarcha, Lucy e Betsey de:

 

As Mães da Ginecologia Moderna

 

Esse reconhecimento busca corrigir a narrativa tradicional, que celebrava o médico, mas ignorava:
• o contexto de escravidão,
• o não consentimento,
• a violência física e psicológica,
• e a contribuição involuntária dessas mulheres para procedimentos usados até hoje.
Memoriais foram erguidos em Nova York, Alabama e outros locais. Pesquisas recentes propõem que seus nomes sejam incluídos em currículos médicos e programas de ética.

 

Por que essa história importa hoje

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

 

A história de Anarcha, Lucy e Betsey ajuda a compreender:

 
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• a origem racializada de algumas práticas médicas;
• a relação desigual de poder entre médicos e pacientes;
• a importância do consentimento informado;
• a necessidade de reconhecer o protagonismo negro na construção do conhecimento científico.
Também traz luz ao debate contemporâneo sobre desigualdades raciais na saúde — inclusive a persistência, ainda hoje, da falsa crença de que pessoas negras “suportam mais dor”.

 

FONTES:
Washington, Harriet A. – Medical Apartheid (2006)
Wall, L. Lewis – “The Medical Ethics of the ‘Father of Gynaecology’, Dr J Marion Sims” (Journal of Medical Ethics, 2006)
 

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