15 de Setembro de 2026

NOTÍCIAS
Colunistas - 31/08/2026

Amor também é encontrar alguém que não transforme suas feridas em novas feridas

Compartilhar:
Foto: Reprodução/Google

Ninguém chega ao outro completamente intacto. Há marcas que não aparecem no corpo, mas que continuam presentes na maneira como amamos, confiamos e reagimos.

Por Carla Martins- Relacionamentos saudáveis não são aqueles sem conflitos, mas aqueles em que a vulnerabilidade não se transforma em arma e o amor não exige que ninguém abandone a própria dignidade. Todos nós chegamos aos encontros carregando alguma coisa. Medos que não nasceram naquela relação, inseguranças trazidas de outras histórias, abandonos que ainda ecoam e palavras que, em algum momento, fizeram alguém duvidar do próprio valor. Ninguém chega ao outro completamente intacto. Há marcas que não aparecem no corpo, mas que continuam presentes na maneira como amamos, confiamos e reagimos.

 

Por isso, amar não significa encontrar alguém sem feridas. Talvez signifique justamente encontrar alguém que reconheça que elas existem e tenha maturidade suficiente para não transformá-las em instrumento de poder.Existe uma diferença profunda entre quem desperta a nossa vulnerabilidade e quem aprende a utilizá-la contra nós. Entre quem percebe um medo e tenta compreender de onde ele veio e quem descobre exatamente onde tocar para provocar sofrimento. Há também uma diferença enorme entre quem, diante do nosso silêncio, pergunta “o que aconteceu?” e quem transforma o silêncio em castigo. Essa diferença pode dizer muito sobre a segurança de uma relação.

 

Veja também 

 

Violência nas redes sociais e o lado tenebroso dos criminosos virtuais

26 de Agosto: Dia Internacional da Igualdade Feminina

Nem todo conflito é violência, mas todo relacionamento precisa de segurança

 

 

 

Uma relação emocionalmente segura não é aquela em que nunca existem conflitos. Pessoas que se amam também discordam, se frustram, erram e dizem coisas que precisam ser revistas. A questão está em saber o que acontece depois. É poder dizer “isso me machucou” sem precisar se preparar para ser ridicularizado. É pedir acolhimento sem que isso seja interpretado como fraqueza. É demonstrar medo sem entregar ao outro uma arma. É conseguir discordar sem sentir que o relacionamento inteiro está ameaçado. Porque segurança emocional não significa viver sem desconforto. Significa saber que o desconforto não será usado para destruir a sua dignidade.

 

Quando intensidade parece amor

 

Também precisamos aprender a não confundir intensidade com amor. Sentir muito não significa, necessariamente, amar muito. Algumas relações começam com uma intensidade quase impossível de acompanhar. Mensagens o tempo inteiro, necessidade constante de confirmação, medo de perder o outro, ciúmes tratados como prova de importância e uma sensação de que a relação precisa ocupar todos os espaços da vida. No começo, tudo isso pode parecer paixão. Mas nem toda intensidade produz segurança. Às vezes, ela é alimentada por ansiedade, medo de abandono e necessidade permanente de garantir que o outro ainda está ali. E quando o vínculo passa a depender dessa confirmação constante, amar pode começar a parecer uma espécie de vigilância emocional. O vínculo saudável não precisa manter ninguém permanentemente em estado de alerta.

 

O amor não deveria exigir que você medisse cada palavra

 

 

 


Há relações em que a pessoa começa a pensar antes de falar. Depois começa a escolher cuidadosamente o que pode contar. Evita determinados assuntos. Esconde algumas opiniões. Desiste de determinadas conversas. Aprende a observar o humor do outro antes de fazer uma pergunta. E, quando percebe, está passando boa parte do tempo tentando evitar uma reação. Isso pode ser um sinal importante de que alguma coisa deixou de ser segura. Não porque relacionamentos devam ser espaços onde ninguém se incomoda com nada, mas porque ninguém deveria precisar desaparecer emocionalmente para manter uma relação funcionando. Amar não deveria significar andar em uma espécie de campo minado, tentando descobrir qual palavra pode provocar uma explosão.

 

Quem conhece sua ferida precisa saber o peso que ela tem

 

Existe uma intimidade muito particular em permitir que alguém conheça aquilo que normalmente escondemos. Contar que temos medo de abandono. Falar sobre uma experiência que nos marcou. Admitir uma insegurança. Mostrar uma parte de nós que ainda dói. Quando fazemos isso, não estamos apenas contando uma história. Estamos entregando ao outro informações sobre lugares extremamente sensíveis da nossa existência. É por isso que a forma como alguém trata essa vulnerabilidade importa tanto. A pessoa pode escolher acolher. Pode escolher respeitar. Pode escolher aprender. Mas também pode escolher usar aquilo contra você em uma discussão, como ameaça, chantagem ou forma de humilhação. E existe uma diferença enorme entre essas duas escolhas. Conhecer a fragilidade de alguém deveria aumentar o cuidado, não aumentar o poder sobre essa pessoa.

 

Amar também é saber onde não tocar

 

 

 

Talvez uma das experiências mais bonitas de um vínculo saudável seja perceber que podemos baixar a guarda. Que podemos ser vulneráveis sem sermos diminuídos. Que podemos contar uma dor sem vê-la transformada em argumento contra nós. Que podemos discordar sem sermos ameaçados. Que podemos dizer não sem precisar provar que ainda amamos. Que podemos ter um dia ruim sem sermos tratados como um problema. Isso não significa encontrar alguém perfeito. Significa encontrar alguém que, mesmo imperfeito, tenha consciência de que existe uma diferença entre conhecer uma ferida e apertá-la.

 

O amor não precisa ser perfeito

 

Talvez tenhamos romantizado demais a ideia de que o relacionamento ideal é aquele em que tudo funciona, ninguém se machuca e todas as conversas terminam bem. Não é assim. Amar envolve duas pessoas diferentes, com histórias diferentes, expectativas diferentes e também diferentes maneiras de lidar com a dor. O amor não precisa ser perfeito. Precisa ser suficientemente seguro. Seguro para que uma discussão não se transforme em ameaça. Seguro para que uma vulnerabilidade não vire munição. Seguro para que um erro possa ser reconhecido. Seguro para que duas pessoas possam continuar sendo duas pessoas, mesmo quando escolhem construir uma vida juntas. Porque existe uma diferença entre pertencer a alguém e deixar de pertencer a si mesmo.
No fim, é também uma escolha

 

Talvez amar seja, entre tantas coisas, uma escolha diária sobre o que fazemos com aquilo que o outro nos confia. Podemos guardar. Podemos cuidar. Podemos aprender. Ou podemos usar. Quem ama não precisa conhecer seus pontos mais sensíveis para saber onde ferir. Precisa conhecê-los para saber onde proteger. E talvez seja justamente aí que esteja uma das formas mais silenciosas de amor: quando alguém conhece aquilo que poderia usar contra você e escolhe não usar.

 

Porque todos nós chegamos aos encontros com alguma coisa.

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 


Alguns chegam com medo. Outros chegam desconfiados. Alguns ainda estão aprendendo a confiar. E há quem carregue cicatrizes que ninguém consegue ver. Ninguém precisa encontrar alguém sem feridas. Mas talvez mereça encontrar alguém que, ao conhecer as suas, não transforme aquilo que você revelou em novas feridas.

 
Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.
 

Reportagem especial do Portal Mulher Amazônica

 


Texto autoral, com abordagem reflexiva sobre relacionamentos, vínculos afetivos, vulnerabilidade emocional e a construção de relações saudáveis.
 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.