E nenhuma política será realmente eficaz se for construída sem ouvir as mulheres, os jovens e as lideranças indígenas que conhecem essa realidade por dentro.
Relatos apresentados em São Gabriel da Cachoeira mostram que o uso abusivo de bebidas alcoólicas ultrapassa o consumo individual e já aparece associado à violência, vulnerabilidade de crianças e jovens, conflitos familiares e agravamento de problemas de saúde. Em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, falar sobre o consumo abusivo de álcool significa falar sobre muito mais do que uma bebida. Significa olhar para uma questão que atravessa a saúde, as relações familiares, a segurança, a proteção de crianças e adolescentes e, de maneira particularmente preocupante, a vida das mulheres indígenas.
O alerta voltou a ganhar força em agosto de 2026, durante uma audiência pública que reuniu cerca de 300 pessoas, entre lideranças indígenas, professores, estudantes, profissionais de saúde, representantes de órgãos públicos e moradores de diferentes regiões do município. O encontro discutiu os impactos do consumo excessivo de álcool e reforçou a necessidade de ações integradas de prevenção, atendimento e proteção.
Os relatos apresentados durante a audiência ajudam a dimensionar o problema. Segundo informações divulgadas pelo Instituto Socioambiental, em março, 100% dos casos de violência doméstica julgados pelo juiz da comarca estavam relacionados ao consumo de álcool. Durante a semana da audiência, o índice chegava a 95%. A Defensoria Pública também relatou que quase todos os atendimentos realizados em São Gabriel da Cachoeira tinham alguma relação com o uso de álcool.
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Quando o problema deixa de ser individual

Uma das armadilhas ao discutir o consumo abusivo de álcool é tratá-lo apenas como uma escolha individual. No Rio Negro, os relatos apresentados por lideranças indígenas e profissionais que atuam no território mostram uma realidade mais complexa. O aumento da circulação e do consumo de bebidas industrializadas aparece relacionado a situações de violência, acidentes, rompimento de vínculos familiares e problemas de saúde. O DSEI Alto Rio Negro também relatou impactos envolvendo violência e estupros nas comunidades. Isso significa que as consequências não ficam restritas à pessoa que consome a bebida. Elas podem atingir companheiras, filhos, parentes e toda a dinâmica comunitária. Quando o álcool passa a estar associado à violência, a discussão deixa de ser apenas sobre consumo e passa a ser também sobre proteção.
As mulheres estão entre as mais atingidas
A relação entre álcool e violência contra mulheres aparece como um dos pontos mais preocupantes do cenário. O próprio ISA aponta que os impactos recaem de forma desproporcional sobre mulheres, crianças e jovens. A organização também registra que mulheres indígenas do Rio Negro vêm participando da construção de estratégias de prevenção e enfrentamento, levando suas demandas para diferentes instituições públicas.
Dados do DSEI-ARN já haviam registrado situações de violência contra mulheres em comunidades do Tiquié e do Içana, além de pessoas acompanhadas por uso prejudicial de álcool. O ISA ressalta que os relatos de violência e o processo de alcoolização aparecem frequentemente relacionados nas comunidades e na cidade. Por isso, qualquer política de enfrentamento precisa considerar as mulheres não apenas como vítimas que precisam ser protegidas, mas também como lideranças capazes de participar da construção das soluções. E elas já estão fazendo isso.
Existe uma diferença entre a bebida tradicional e o consumo abusivo

Outro aspecto importante é evitar uma abordagem que trate todas as formas de consumo de bebidas como se fossem iguais. No Rio Negro, bebidas fermentadas tradicionais, como o caxiri, fazem parte de práticas culturais e coletivas de povos indígenas. Segundo o ISA, essas bebidas estão historicamente associadas a rituais, atividades comunitárias, relações familiares e práticas culturais. O problema identificado pelas organizações indígenas e instituições parceiras está relacionado principalmente ao uso abusivo de bebidas alcoólicas e à expansão do consumo de bebidas industrializadas, que vêm ganhando espaço em contextos diferentes daqueles em que determinadas bebidas tradicionais eram utilizadas. Essa distinção é fundamental porque permite discutir o problema sem desconsiderar a cultura dos povos indígenas.
Crianças e jovens também entram nessa equação
A preocupação não termina entre os adultos. Durante a audiência pública, representantes das instituições presentes relataram vulnerabilidades envolvendo crianças e adolescentes, inclusive situações relacionadas à venda de bebidas alcoólicas para esse público. O problema preocupa especialmente em regiões onde o acesso a serviços de proteção e atendimento é mais limitado. As lideranças indígenas vêm defendendo ações de prevenção que alcancem escolas, famílias e comunidades, além de políticas específicas para adolescentes e jovens. A cartilha “Cuidados com o Uso de Bebidas Alcoólicas da Região do Rio Negro”, produzida pelo ISA, pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e pelo DSEI Alto Rio Negro, surgiu justamente a partir de debates realizados no território, inclusive em escolas onde estudantes e professores trouxeram o problema para discussão.
A resposta não pode ser apenas policial

Talvez esse seja um dos pontos mais importantes do debate. As organizações indígenas não estão defendendo simplesmente a proibição do consumo de bebidas alcoólicas. A reivindicação apresentada pelas lideranças é por prevenção, informação, atendimento de saúde e cumprimento da legislação, levando em consideração as características culturais e territoriais dos povos indígenas. A proposta é tratar o álcool inicialmente como uma questão de saúde pública, sem deixar de enfrentar os crimes e as violências que podem estar associados ao consumo abusivo. Essa mudança de perspectiva é importante porque uma pessoa em situação de dependência não precisa apenas de punição. Precisa também de acesso a tratamento, acompanhamento e uma rede capaz de evitar que o problema avance. Entre as reivindicações apresentadas pelas lideranças estão uma política específica de prevenção e atendimento para os povos indígenas, formação intercultural dos profissionais de saúde, fortalecimento dos sistemas de informação e implantação de um CAPS Álcool e Drogas em São Gabriel da Cachoeira.
O que o álcool está revelando sobre o território
Talvez a questão mais profunda seja perceber que o consumo abusivo de álcool não aparece sozinho. Ele se encontra com outras vulnerabilidades já existentes: violência contra mulheres, exposição de crianças e adolescentes, problemas de saúde mental, conflitos familiares, acidentes e dificuldades de acesso a políticas públicas. O próprio ISA registra relatos de que o processo de alcoolização na região também aparece relacionado a suicídios, acidentes e diferentes formas de violência. Por isso, enfrentar o problema não significa simplesmente retirar uma garrafa de bebida de circulação. Significa fortalecer a rede de cuidado. Significa garantir que uma mulher vítima de violência tenha onde buscar proteção. Que um jovem possa receber orientação antes que o consumo se transforme em dependência. Que uma pessoa em sofrimento tenha acesso a tratamento. Que as comunidades possam participar das decisões sobre as políticas que serão aplicadas em seus próprios territórios. No Rio Negro, combater os impactos do álcool também significa proteger vidas.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica acredita que falar sobre o consumo abusivo de álcool nas comunidades indígenas do Rio Negro exige responsabilidade para não transformar uma questão de saúde pública em estereótipo sobre os povos indígenas. O problema não pode ser usado para reforçar uma visão preconceituosa sobre as comunidades. Ao contrário, é preciso ouvir quem vive no território, reconhecer as diferenças culturais e garantir que as próprias organizações indígenas participem da construção das respostas. Também entendemos que mulheres e crianças não podem continuar pagando o preço mais alto de um problema que exige respostas do poder público. Quando o consumo abusivo aparece associado à violência doméstica, estupros, conflitos familiares e vulnerabilidade de crianças e jovens, estamos diante de uma questão que precisa ser enfrentada de maneira integrada. Defendemos políticas de prevenção, tratamento, proteção e educação que respeitem os povos indígenas e suas especificidades culturais. O álcool não pode ser tratado apenas como caso de polícia quando já está produzindo consequências de saúde, violência e proteção social. E nenhuma política será realmente eficaz se for construída sem ouvir as mulheres, os jovens e as lideranças indígenas que conhecem essa realidade por dentro.
Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica com base em informações do Instituto Socioambiental, relatos de lideranças indígenas, dados e manifestações de instituições que atuam no Rio Negro e informações apresentadas em audiência pública, com abordagem jornalística voltada à saúde indígena, à proteção das mulheres, crianças e jovens e aos direitos dos povos indígenas.
Fontes:
Instituto Socioambiental (ISA)
Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn)
Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI-ARN)
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