16 de Janeiro de 2026

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Inspiração Amazônica - 10/01/2026

À frente dos roçados, mulheres quilombolas enfrentam a crise do clima no Amazonas

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Foto: Reprodução/Google

No Norte, esse percentual sobe de forma expressiva, com mais da metade dos lares rurais enfrentando insegurança alimentar moderada ou grave e apenas uma parcela reduzida tendo acesso pleno a alimentos.

No Amazonas, a crise climática deixou de ser uma ameaça futura para se tornar uma realidade diária que atinge diretamente quem produz alimentos. À frente dos roçados, mulheres quilombolas enfrentam cheias históricas, secas prolongadas e o desmonte de políticas públicas enquanto lutam para garantir comida na mesa de suas famílias e comunidades. O resultado é um cenário paradoxal: em um dos estados com maior número de agricultores familiares do país, a fome avança de forma alarmante.

 

“O pouco que as famílias conseguiram colher depois de duas grandes cheias é insuficiente. Muita gente está passando necessidade. Tem quem não consiga comprar um quilo de açúcar, que aqui custa R$ 6. A gente nem come mais feijão, porque não dá para pagar R$ 15 no quilo. Já tem famílias que não têm o que comer no almoço ou na janta, e os moradores acabam se ajudando. Um doa farinha, o outro dá um peixe. Isso é o coletivo.” O relato é de Elivalda Barros Macedo de Souza, 46 anos, agricultora da comunidade quilombola Lago de Serpa, em Itacoatiara (AM), onde vivem cerca de 300 famílias, e traduz a realidade de milhares de mulheres no interior do estado.

 

Os dados confirmam o drama vivido nas comunidades. Levantamentos recentes da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) indicam que, embora o Brasil tenha registrado avanços pontuais no combate à fome, a Região Norte segue como a mais afetada do país. Mais de um terço dos domicílios da região vive algum grau de insegurança alimentar, e a insegurança alimentar grave — quando falta comida de forma recorrente — permanece muito acima da média nacional. Enquanto no Sul a fome atinge cerca de 10% das famílias, no Norte o índice é mais que o dobro, revelando uma desigualdade regional profunda.

 

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Entre os domicílios rurais, a situação é ainda mais crítica. A agricultura familiar foi uma das mais afetadas pelo enfraquecimento de políticas públicas de apoio ao pequeno produtor, somado aos impactos da pandemia, da inflação e da instabilidade climática. Dados nacionais mostram que mais de um quinto dos domicílios de agricultores familiares convivem com a fome. No Norte, esse percentual sobe de forma expressiva, com mais da metade dos lares rurais enfrentando insegurança alimentar moderada ou grave e apenas uma parcela reduzida tendo acesso pleno a alimentos.

 

No Amazonas, a crise climática atua como fator agravante. Nos últimos anos, o estado registrou eventos extremos cada vez mais frequentes. O Rio Negro, por exemplo, passou por grandes enchentes e secas severas em um intervalo curto de tempo. Apenas entre 2021 e 2023, centenas de milhares de pessoas foram diretamente afetadas por cheias históricas, segundo dados da Defesa Civil. As enchentes destroem lavouras, atrasam o plantio e comprometem a produção de alimentos, enquanto as secas prolongadas reduzem drasticamente a produtividade e colocam em risco a diversidade agrícola da região.

 

 

Estudos científicos apontam que as mudanças climáticas já ameaçam espécies fundamentais para a alimentação e a economia amazônica. Pesquisas publicadas em periódicos internacionais indicam que dezenas de espécies de palmeiras e árvores nativas podem sofrer redução significativa nos próximos anos, afetando diretamente a segurança alimentar das populações tradicionais.

 

Nesse contexto, a fome tem gênero e cor. Dados da Rede PENSSAN mostram que domicílios chefiados por pessoas pretas e pardas apresentam os maiores índices de insegurança alimentar no país. Nos lares em que a mulher é a pessoa de referência, a fome cresceu de forma expressiva nos últimos anos, evidenciando como a sobrecarga do cuidado e a desigualdade de acesso a renda impactam diretamente a alimentação das famílias. “As mulheres negras carregam desde cedo a responsabilidade pelo cuidado da família e da comunidade. Muitas abandonam a educação formal para trabalhar em subempregos ou cuidar dos outros, e isso faz com que sejam as mais afetadas pela fome”, explica Amanda Lorena Nunes Cruz, agroecóloga e integrante da Rede Maniva de Agroecologia.

 

 

Apesar de estarem em situação de maior vulnerabilidade social, são justamente as mulheres negras, quilombolas e indígenas que estão na linha de frente da produção de alimentos e da busca por soluções para enfrentar a insegurança alimentar. No Amazonas, pessoas negras representam cerca de 65% dos agropecuaristas, e as mulheres dirigem aproximadamente um quinto dos estabelecimentos agropecuários. Dados do Censo Agropecuário do IBGE indicam que mulheres negras estão à frente da maioria das unidades de agricultura familiar no estado, desempenhando papel central na soberania alimentar local.

 

Durante a pandemia, redes de agroecologia e movimentos sociais criaram estratégias de sobrevivência para escoar a produção e garantir renda mínima aos agricultores. Circuitos solidários de comercialização permitiram que alimentos chegassem a comunidades quilombolas e indígenas em um período marcado pelo desemprego e pela alta dos preços. Ainda assim, o desequilíbrio climático segue impondo desafios cada vez maiores, com atrasos na semeadura e perdas constantes nas colheitas.

 

Para especialistas, enfrentar a fome no Amazonas exige mais do que ações emergenciais. É necessário reconstruir políticas públicas de apoio à agricultura familiar, garantir segurança jurídica aos territórios tradicionais e reconhecer o papel estratégico das mulheres na produção de alimentos. Sem isso, o estado seguirá vivendo o paradoxo de produzir riqueza natural enquanto suas populações mais vulneráveis lutam diariamente para garantir o básico: comida no prato.

 

Fotos: Reprodução/Google

 

O Portal Mulher Amazônica entende que a fome no Amazonas não é fruto do acaso, mas resultado de desigualdades históricas, da crise climática e do abandono de políticas públicas voltadas aos territórios e às mulheres que sustentam a vida no campo. Dar visibilidade às mulheres quilombolas que estão à frente dos roçados é reconhecer que elas não são vítimas passivas, mas protagonistas da soberania alimentar e da resistência amazônica.

 
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Defender essas mulheres é defender o direito à terra, à comida, ao clima equilibrado e à dignidade. Para o Portal Mulher Amazônica, não há justiça social nem futuro sustentável enquanto aquelas que produzem alimentos seguem enfrentando a fome, o racismo estrutural e a invisibilidade. Nosso jornalismo se compromete a denunciar essas desigualdades e a fortalecer as vozes femininas que mantêm a Amazônia viva, mesmo diante das crises.

 

Fonte:
Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN)
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
– Informações sobre agricultura familiar, perfil dos agropecuaristas, participação feminina e recorte racial no campo.
Defesa Civil do Estado do Amazonas
– Levantamentos oficiais sobre impactos das cheias e secas extremas no estado (2021–2023), número de pessoas afetadas e prejuízos às lavouras.
Estudos científicos sobre mudanças climáticas na Amazônia
– Artigos publicados em periódicos internacionais como Biological Conservation, que apontam riscos climáticos para espécies vegetais fundamentais à segurança alimentar amazônica.
Rede Maniva de Agroecologia (AM)
– Relatos e análises de agroecólogas(os) e lideranças comunitárias sobre os impactos da crise climática, da pandemia e do desmonte de políticas públicas na agricultura familiar.
 

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