Reconhecer o cuidado como trabalho é reconhecer a dignidade das mulheres amazônidas ? mulheres que mantêm suas famílias, culturas e territórios vivos, apesar de nunca aparecerem nas estatísticas oficiais.
Na Amazônia, o trabalho de cuidado, cuidar de crianças, idosos, pessoas doentes, da casa e garantir a alimentação das famílias, é central para a vida cotidiana. Ainda assim, esse trabalho continua invisível: não aparece no Produto Interno Bruto (PIB), não é remunerado e permanece à margem de políticas públicas. E na Região Norte, essa realidade é ainda mais intensa.
Mulheres amazônidas trabalham mais — e aparecem menos
Dados recentes do IBGE, por meio da PNAD Contínua 2022, mostram que mulheres ocupadas no Brasil, por exemplo, dedicam em média 17,6 horas semanais a atividades domésticas e de cuidado não remunerado na Região Norte — contra 11,1 horas dos homens na mesma região. Isso representa um esforço significativamente maior por parte das mulheres nessa parte do país.
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Além disso, a atividade de “produção para o próprio consumo” — que inclui a produção de alimentos para uso familiar e que representa uma forma de cuidado essencial nas economias rurais e ribeirinhas, cresceu apenas no Norte entre 2019 e 2022, passando de 1,3 milhão para 1,4 milhão de pessoas envolvidas, enquanto nas demais regiões essa atividade caiu. Esses números mostram que, na Amazônia, o trabalho ligado à manutenção da vida e das famílias é ainda mais presente e, ao mesmo tempo, ainda menos reconhecido.
Um trabalho que não entra no PIB, mas mantém a Amazônia viva
Pesquisas nacionais apontam que se o trabalho doméstico e de cuidado fosse contabilizado como produção econômica, ele poderia representar uma parcela significativa do PIB brasileiro — estimado em cerca de 13% segundo estudos que consideraram dados da PNAD Contínua entre 2016 e 2022.
No entanto, por não gerar remuneração direta, o trabalho de cuidado

• não é reconhecido como produção econômica,
• não garante aposentadoria adequada,
• não assegura proteção social,
• não aparece nas estatísticas de crescimento econômico.
A ONU Mulheres Brasil alerta que essa invisibilidade aprofunda desigualdades estruturais de gênero, raça e território — especialmente em áreas com menor oferta de serviços públicos, como nas regiões rurais do Norte.
A economia do cuidado tem gênero, raça e território

Na Amazônia, assim como no restante do país, o cuidado recai desproporcionalmente sobre:
• mulheres negras
• mulheres indígenas e ribeirinhas
• mães solo
• mulheres idosas
• trabalhadoras domésticas
• cuidadoras informais
E essa desigualdade também reflete na participação das mulheres no mercado de trabalho formal. Um estudo governamental recente mostrou que, no Brasil, a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado é uma das principais razões pelas quais muitas mulheres deixam de procurar emprego ou não conseguem se inserir plenamente no mercado de trabalho — especialmente aquelas de baixa renda.
Impactos na saúde mental e no envelhecimento feminino
Pesquisas acadêmicas associam a sobrecarga do trabalho de cuidado a um maior risco de:
• ansiedade
• depressão
• exaustão crônica
• adoecimento precoce
Na velhice, mulheres que passaram uma vida inteira cuidando dos outros chegam à terceira idade com menor renda, sem aposentadoria digna e dependentes de serviços públicos frequentemente insuficientes.
Por que reconhecer a economia do cuidado é urgente na Amazônia
Reconhecer, redistribuir e reduzir o trabalho de cuidado é um passo essencial para:
• reduzir desigualdades de gênero e raça
• fortalecer economias familiares
• ampliar o acesso ao trabalho formal
• garantir justiça social
• apoiar o desenvolvimento sustentável
Para isso, é necessário:
• ampliar serviços públicos de cuidado (creches, cuidado à pessoa idosa e à pessoa com deficiência)
• políticas públicas específicas para regiões como o Norte
• reconhecimento econômico e legal do trabalho de cuidado
• inclusão desse tema nas decisões macroeconômicas
Invisível para o PIB, essencial para a vida amazônica

Fotos: Reprodução/Google
A economia do cuidado pode não aparecer nos gráficos oficiais do PIB, mas está presente em cada comunidade ribeirinha, em cada bairro periférico, em cada casa da Amazônia. Sem esse trabalho silencioso, a vida das famílias e comunidades simplesmente não se sustenta.Reconhecer o cuidado como trabalho é reconhecer a dignidade das mulheres amazônidas — mulheres que mantêm suas famílias, culturas e territórios vivos, apesar de nunca aparecerem nas estatísticas oficiais.
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Fontes
IBGE – PNAD Contínua 2022 (Região Norte dados de horas dedicadas ao cuidado)
IBGE – Produção para consumo nas regiões (Norte destaque)
Estimativas sobre contribuição do trabalho invisível ao PIB
Observatório do Cuidado – Governo Federal (impacto da carga de cuidado na participação no trabalho)
ONU Mulheres Brasil (contexto de desigualdades)
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