A Amazônia não precisa escolher entre floresta e desenvolvimento como se fossem objetivos incompatíveis
Mais do que preservar a floresta, o desafio é transformar biodiversidade, ciência, tecnologia e conhecimentos tradicionais em oportunidades de trabalho, inovação e renda para quem vive na região. Durante muito tempo, a economia brasileira olhou para a Amazônia principalmente a partir daquilo que poderia ser retirado de seu território. Madeira, minérios, terras e commodities ajudaram a movimentar diferentes ciclos econômicos, mas deixaram uma pergunta que continua atual: quanto vale uma floresta quando sua riqueza não é medida apenas pelo que pode ser extraído dela?
A resposta pode estar justamente naquilo que a Amazônia tem de mais abundante: sua biodiversidade. A floresta reúne espécies, alimentos, fibras, óleos, substâncias e conhecimentos que podem participar de uma nova economia baseada em ciência, tecnologia e uso sustentável dos recursos naturais. É nesse contexto que a bioeconomia ganha importância. A Estratégia Nacional de Bioeconomia, instituída pelo Decreto nº 12.044/2024, estabelece diretrizes para atividades econômicas relacionadas aos recursos biológicos, aos conhecimentos, aos processos e às tecnologias associados à biodiversidade.
Na Amazônia, esse potencial alcança áreas como alimentos, cosméticos, fármacos, biotecnologia, novos materiais, turismo de natureza e produtos florestais não madeireiros. O desafio, entretanto, não é simplesmente retirar mais produtos da floresta, mas agregar valor ao que já é produzido e fazer com que uma parcela maior dessa riqueza permaneça na região.
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A riqueza não está apenas na matéria-prima

Açaí, castanha, cacau, copaíba, andiroba e murumuru já demonstram que a biodiversidade amazônica possui valor econômico. O problema é que, muitas vezes, a região participa apenas da etapa inicial das cadeias produtivas. A matéria-prima sai da floresta ou das comunidades e recebe novas etapas de processamento, tecnologia, embalagem e comercialização em outros lugares. É nesse processo que boa parte do valor econômico é acrescentada. Um dos grandes desafios da bioeconomia está justamente em mudar essa lógica. Um fruto pode se transformar em alimento processado, um óleo pode integrar um cosmético, fibras podem originar novos materiais e substâncias naturais podem ser investigadas pela indústria farmacêutica. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços aponta a agregação de valor como um dos caminhos para transformar o patrimônio biológico brasileiro em produtos e processos mais sofisticados, fortalecendo a indústria, a inovação e a competitividade. A Amazônia não precisa apenas fornecer produtos. Precisa participar da criação do valor que esses produtos representam.
A floresta também guarda conhecimento
Existe ainda uma riqueza que não pode ser medida apenas em toneladas ou valores de mercado: o conhecimento acumulado pelas populações que vivem na região. Povos indígenas, comunidades ribeirinhas, extrativistas e agricultores familiares conhecem espécies, ciclos naturais, formas de manejo e usos de recursos que foram transmitidos entre gerações. Esse conhecimento pode dialogar com universidades, centros de pesquisa e empresas e contribuir para novas soluções. Mas essa aproximação precisa acontecer com responsabilidade. Transformar conhecimento tradicional em produto comercial sem reconhecer os direitos das comunidades seria repetir uma lógica antiga de apropriação da riqueza amazônica. Por isso, a bioeconomia precisa envolver proteção dos conhecimentos tradicionais e repartição justa dos benefícios gerados a partir deles. No Amazonas, a Estratégia Estadual de Bioeconomia estabelece entre seus princípios o uso sustentável e regenerativo da biodiversidade, a valorização dos conhecimentos científicos e tradicionais, a inovação tecnológica e a geração de trabalho e renda.
Ciência pode mudar o lugar da Amazônia na economia

Para transformar biodiversidade em desenvolvimento, entretanto, não basta ter recursos naturais. É preciso conhecimento científico e capacidade tecnológica. Universidades, institutos de pesquisa, empresas e governos têm papel importante na construção dessas cadeias. Em Manaus, o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) atua justamente com a perspectiva de desenvolver alternativas econômicas baseadas na inovação e no aproveitamento sustentável da biodiversidade. Essa estrutura é estratégica porque a distância entre encontrar um recurso natural e transformá-lo em um produto competitivo pode ser enorme. São necessários laboratórios, pesquisadores, investimentos, profissionais qualificados, infraestrutura, crédito, logística e acesso aos mercados. Sem isso, existe o risco de a Amazônia continuar fornecendo a matéria-prima enquanto outras regiões concentram a tecnologia e os maiores ganhos econômicos.
Desenvolver não pode significar repetir os velhos ciclos
Falar em bioeconomia não significa defender uma nova corrida pela exploração dos recursos amazônicos. Se a biodiversidade for tratada apenas como mais uma fonte de matéria-prima, o modelo continuará reproduzindo problemas conhecidos. A diferença precisa estar justamente na capacidade de conservar, regenerar e utilizar os recursos naturais de maneira responsável. Estudo do Ipea sobre os potenciais da bioeconomia na Amazônia aponta que políticas de conservação combinadas com estímulos econômicos podem produzir ganhos ambientais e econômicos, mas dependem de políticas públicas ativas e adaptadas às diferentes realidades territoriais. Isso é particularmente importante porque não existe uma única Amazônia. As necessidades de uma comunidade ribeirinha não são necessariamente as mesmas de uma comunidade indígena, de um produtor rural ou de uma empresa instalada em Manaus. Uma estratégia de desenvolvimento precisa reconhecer essas diferenças e garantir que os benefícios econômicos não fiquem concentrados em poucos grupos.
E se a floresta em pé também fosse uma estratégia econômica?
Talvez uma das mudanças mais importantes trazidas pela bioeconomia seja a possibilidade de inverter uma lógica histórica. Uma árvore derrubada pode gerar valor uma única vez. Uma floresta preservada pode continuar oferecendo frutos, sementes, óleos, fibras, conhecimentos e oportunidades econômicas durante gerações, desde que seu uso seja sustentável. Isso não significa transformar a conservação em uma simples mercadoria. Significa reconhecer que proteger a biodiversidade também pode fazer parte de uma estratégia de desenvolvimento. Durante muito tempo, preservar a floresta foi apresentado como algo que poderia limitar o crescimento econômico. A bioeconomia permite pensar em outra direção: uma economia que dependa justamente da existência da floresta para continuar produzindo. A Amazônia precisa deixar de ser apenas fornecedora
Se a biodiversidade amazônica é estratégica para o futuro econômico brasileiro, a própria região precisa participar das etapas mais sofisticadas dessa cadeia. Isso significa investir em pesquisa, formação profissional, empreendedorismo, infraestrutura, crédito e tecnologia. Significa também criar condições para que empreendedores locais consigam transformar recursos da biodiversidade em produtos competitivos sem precisar deixar a região para isso. É uma mudança que envolve também os pequenos produtores e as comunidades tradicionais. Não existe uma bioeconomia verdadeiramente amazônica se quem vive da floresta continua recebendo apenas uma pequena parcela do valor gerado a partir dela. A riqueza precisa circular pelo território.
A maior oportunidade pode estar em preservar

Fotos: Reprodução/Google
A Amazônia não precisa escolher entre floresta e desenvolvimento como se fossem objetivos incompatíveis. O verdadeiro desafio é construir um modelo em que a floresta em pé seja economicamente mais interessante do que a floresta destruída. Para isso, será necessário mais do que discurso. Pesquisa científica, inovação, infraestrutura, políticas públicas, proteção territorial, acesso a crédito, qualificação e respeito aos conhecimentos tradicionais precisam fazer parte da mesma estratégia. Em um mundo que procura novos alimentos, medicamentos, materiais e soluções sustentáveis, a biodiversidade amazônica pode deixar de ser vista apenas como patrimônio ambiental e passar a ser reconhecida também como base para uma economia orientada pelo conhecimento. A grande riqueza da Amazônia talvez não esteja apenas debaixo da terra. Pode estar nas sementes, nos frutos, nos óleos, nas plantas, nos conhecimentos e na capacidade de transformar tudo isso em inovação sem destruir sua origem. O futuro econômico da Amazônia não precisa repetir os ciclos de exploração do passado. Pode começar pela ideia de que preservar também produz riqueza.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
O Portal Mulher Amazônica acredita que discutir a biodiversidade como riqueza econômica também significa perguntar quem pesquisa, quem produz, quem transforma e quem fica com os benefícios gerados a partir dela. Não basta utilizar o nome da Amazônia para vender produtos ou transformar espécies da floresta em tendência de mercado. Uma bioeconomia verdadeiramente amazônica precisa gerar oportunidades para quem vive no território, valorizar conhecimentos tradicionais, proteger a biodiversidade e permitir que ciência e inovação sejam desenvolvidas também na própria região. Defendemos uma Amazônia que não seja lembrada apenas quando o país precisa de matéria-prima, mas reconhecida como território de conhecimento, ciência, criatividade e produção de valor. A Amazônia não precisa escolher entre preservar e prosperar. Precisa construir um modelo em que prosperar seja uma das razões para preservar.
Reportagem especial produzida pelo Portal Mulher Amazônica com base em documentos oficiais, estudos científicos, informações de órgãos públicos e dados de instituições especializadas em biodiversidade, bioeconomia, ciência e desenvolvimento sustentável, com abordagem jornalística voltada à valorização da Amazônia, à inovação e às oportunidades econômicas para quem vive na região.
Fontes:
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Ministério do Desenvolvimento, Indústria
Comércio e Serviços; Centro de Bionegócios da Amazônia
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)
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